Por uma imprensa e sociedade que deem nomes aos bois. Ou: é ataque terrorista islâmico sim!

(Fonte da imagem: G1)
Hoje, o mundo ficou chocado pela demonstração crassa de estupidez em nome de uma religião. Terroristas armados com fuzis invadem a Charlie Hebdo, uma revista parisiense que teve envolvimento na publicação de charges do profeta Maomé (sagrado aos muçulmanos) e abrem fogo, matando 12 pessoas e deixando outras 11 feridas, a maioria em estado grave. Após o ataque, os terroristas gritaram "Alá é grande" e fugiram em um carro. Paris, bem como o restante da França, está em alerta máximo e diversos líderes mundiais manifestaram solidariedade às vítimas, lamentando a tragédia.

Em se tratando das manifestações dos terroristas, do alvo atingido e das recentes polêmicas envolvendo a revista com as charges do profeta Maomé (diferentemente do Brasil, não há restrições quanto à satirização de símbolos religiosos na França), qualquer pessoa que saiba ligar fatos e use o mínimo de lógica afirmaria com certeza que se trata de mais um ataque terrorista islâmico. Mas é pouquíssimo provável que você veja na imprensa algo que denomine o que aconteceu em Paris dessa forma. Na verdade, digo que você, leitor, jamais verá essa denominação. E bastou uma breve percorrida nos portais de sites de notícias no Brasil e mesmo no mundo para observar essa postura pusilânime da imprensa: o ataque terrorista islâmico era denominado tão somente de "ataque", "atentado" ou mesmo "tiroteio". Já os terroristas eram chamados de "atiradores" ou mesmo "militantes". Por que tanta indecisão para dar nomes aos bois, mesmo após sinais tão óbvios, como os de declarar "vingança ao profeta"?
(Fonte da imagem: Carlitos Maldonado/Facebook)
Essa postura pusilânime (para ser generoso e não chamar isso de covarde) por parte da imprensa, por mais lamentável que seja, não é novidade. Há algum tempo o jornalismo, não só brasileiro, mas de todo o Ocidente, pelo menos, tem adotado uma postura de "morde e assopra" (ou só de assoprar mesmo) quando o assunto é dar nomes aos fatos. Trazendo isso à realidade brasileira, é uma postura que é identificável, pelo menos, desde as manifestações ocorridas em junho de 2013. Por exemplo, aqueles que quebravam patrimônio público e atacavam a polícia com coquetéis molotov não eram chamados mais de "vândalos" ou "baderneiros", mas sim de "manifestantes" ou "ativistas", e tal nomenclatura continua mesmo com a morte de um cinegrafista em um desses protestos, já em fevereiro de 2014. Já quando criminosos assaltam ou matam um cidadão comum, eventualmente você verá "suspeito", "suposto ladrão", "suposto assaltante", "suposto sei-lá-o-quê". Não se vê mais com tanta frequência o nome de "bandido" ou de "criminoso". Quando um café foi invadido em Sydney, mesmo com as evidências de um pedido de uma bandeira do ISIS, por exemplo, o invasor era chamado tão somente de "sequestrador". Chamá-lo de "terrorista" ou além, de "terrorista islâmico"? Não, isso não pode...

Na verdade, essa postura do jornalismo brasileiro (bem como do ocidental de uma forma geral) de tentar não dar o nome real aos fatos, como se isso fosse o suficiente para mudar a realidade dos mesmos, reflete a perda ou o péssimo direcionamento do senso crítico que nossa sociedade sofreu nas últimas décadas. Perdemos a capacidade de comparar, criticar, julgar e afirmar se dado elemento é certo ou errado, e mesmo quando este elemento é errado, tentamos dar justificativas de forma a tornar o erro mais tolerável. Caímos na patota de achar que não podemos comparar - ou pior, que podemos comparar e afirmar que há equivalência moral - entre a cultura ocidental (fundamentada no Estado de direito, democracia representativa, economia de mercado e amplas liberdades civis) e a cultura islâmica, que, nos países onde esta religião é predominante, grupos de outras religiões, mulheres e homossexuais possuem seus direitos restringidos, quando não negados. Por exemplo, quando o assunto é a violência de gênero e a violência contra grupos LGBT, o Ocidente, salvo algumas exceções, vê esta questão como algo a ser combatido e punido. Já os países do mundo islâmico, salvo algumas exceções, vêem isso não só como algo natural mas também como política de Estado em alguns casos. Definitivamente não, não é a mesma coisa. E muito menos dá para dizer que "são apenas culturas diferentes".

"Ah, mas o ato foi praticado por extremistas, a maioria dos muçulmanos são 'moderados' e condenam isso!", dirá alguém que aprendeu a palavra "islamofóbico" ontem e resolveu xingar qualquer um que considere a ação um ato em nome da religião maometana. Sim, concordo, a maioria dos seguidores de Alá são 'moderados' e certamente não apoiam o ocorrido em Paris. O problema é que ao invés de trazê-los para unir forças em combate aos extremistas, simplesmente fazemos coro a esses no sentido de combater qualquer ação governamental no sentido de coibir o extremismo. E não custa lembrar que os muçulmanos desfrutam de liberdades civis e religiosas no Ocidente que os demais grupos religiosos jamais sonhariam em ter no Oriente Médio, por exemplo (exceto no "famigerado" Estado de Israel). Inclusive, nos países governados por grupos islâmicos 'moderados'.



Mas existe algo ainda pior na postura não só de algumas pessoas como também de setores da imprensa em relação a essa barbárie: além de não dar o real nome ao ocorrido, ainda tentam justificar a ação dos terroristas, além de criar espantalhos em torno de reações que são desprezíveis, quando não inexistentes. Abaixo segue alguns exemplos:

Sim, para alguns matar mais de uma dezena de pessoas e ferir outra dezena é uma "resposta". Sim, para alguns, zoar algo, ainda que seja sagrado, justifica uma carnificina. E sim, há quem compare seres humanos a tigres. (Fonte da imagem: arquivo pessoal do editor/Facebook)
Sim, nos anos 1930 judeus cometiam atentados na Europa por publicarem charges de Iavé e Moisés. Só que não. (Fonte da imagem: Blog do Mario Magalhães/UOL)
Não, não vou negar que considero charges ou qualquer material humorístico com uso de símbolos religiosos algo ofensivo. Mas de nenhuma forma isso justifica sair por aí abrindo fogo e matar inocentes. Pelo menos no ambiente ocidental existem duas formas de se lidar com isso caso alguém ache ofensivo: o boicote a quem financia esses materiais e, em último caso, ações judiciais. E mesmo se as instituições francesas estivessem mais avançadas que as nossas no estado falimentar continuaria sendo um ato de barbarismo este ataque. E sim, mesmo levando em conta os movimentos xenófobos na Europa, a ameaça do extremismo islâmico é muito mais real e evidente. E provavelmente você não verá nenhuma mesquita apagando as luzes em memória aos mortos de Paris. Por muito menos catedrais da vizinha Alemanha apagaram as luzes contra uma islamofobia de escala desprezível, para não dizer quase imaginária.

Enfim, o episódio de hoje deveria ser útil à sociedade no sentido de chamar as ameaças pelo que elas realmente são ou representam. Ou damos nomes aos bois ou estes nos destruirão. Para finalizar, um interessante vídeo de Ben Shapiro sobre a "minoria radical" islâmica. Seis minutos gastos que valem a pena:

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