Veríssimo e a defesa da alquimia econômica

(Fonte da imagem: VEJA)
Bom dia pesssoal. Hoje irei utilizar o Minuto Produtivo para comentar uma coluna publicada pelo cronista Luís Fernando Veríssimo na edição de hoje de O Globo. Nela, o autor gaúcho resolve fazer loas aos keynesianos Paul Krugman e Joseph Stiglitz, ganhadores do Prêmio Nobel de Economia, e faz acusações ao "capital financeiro" (Leviana Luciana Genro intensifies), segundo ele o grande culpado pela crise econômica. Seguem abaixo trechos de seu texto (em azul), com comentários meus ao longo desta postagem:

"Paul Krugman e Joseph Stiglitz não são donos da verdade, mas são donos de um Prêmio Nobel cada um. Os prêmios lhes dão uma respeitabilidade que eles não encontram entre seus pares economistas, pois são os dois mais notórios inimigos da atual ortodoxia — keynesianos nadando contra a corrente da maioria. Para Krugman e Stiglitz, o receituário ortodoxo para vencer a crise mundial provocada pelo capital financeiro equivale a receitar gasolina para apagar incêndios. O sacrifício de gastos sociais e as outras formas de austeridade vendidas com o nome de fantasia de “responsabilidade fiscal” já provocam reações de consequências imprevisíveis na Europa. Só quem está gostando da irresponsabilidade social oficializada é o capital financeiro, que pariu a crise e ama a sua cria."

Primeiramente, diria na minha humilde opinião que tenho dúvidas sobre até que ponto um Prêmio Nobel poderia fazer automaticamente de alguém uma referência e autoridade no assunto nos dias de hoje. Só para fins de exemplo, o Prêmio Nobel da Paz teve, como ganhadores, Barack Obama em 2009 e a União Europeia em 2012. O mesmo Obama que queria atacar a Síria em 2013 e que teve que intervir no Iraque após tê-lo entregue à própria sorte em relação ao Estado Islâmico. A mesma União Europeia que assistiu - e continua assistindo - às convulsões sociais nos países periféricos. E já que estamos falando em Paul Krugman...Não é o mesmo Krugman que propôs uma bolha imobiliária (ver aqui e, principalmente, o próprio artigo de Krugman no New York Times aqui) que substituísse a bolha da Nasdaq no início dos anos 2000? Bolha essa alimentada pelo ativismo governamental por meio das agências Fannie Mae e Freddie Mac (isso sem falar em outras medidas intervencionistas que lembram um pouco a guerra aos juros feita por Dilma em 2012) e que originou justamente a crise em 2008? Sim, mesmo tomando como admissível a hipótese da participação do "capital financeiro" na hecatombe as "digitais" do governo estão nas cenas do crime.

Quanto à situação da Europa - que caminha para uma década perdida e alguns já fazem comparações com a situação do Japão - ela também foi originada por bolhas especulativas - entre elas a imobiliária. E no caso dos países periféricos, houve a combinação disso com um crescente endividamento para financiar um insustentável Welfare State. É evidente que para solucionar tal problema seria necessário adequar a economia e o escopo do Estado à realidade, o que requer, infelizmente, algumas medidas amargas. Mas é importante lembrar que a Alemanha é um caso da tão criticada "responsabilidade fiscal" que deu muito certo. E é igualmente importante lembrar que o modelo anti-austeridade que Hollande queria implementar na França, com direito a taxação sobre grandes fortunas (defendida por Piketty, também elogiado por Veríssimo, como vocês verão mais tarde), deu errado. Tanto é que terão que adotar medidas de austeridade, ainda que tenham vergonha de chamá-las assim.

E finalizando o comentário deste trecho, não custa relembrar outra pérola do Nobel-dependente Krugman, desta vez sobre a situação da Argentina, quando disse que a situação econômica de nossos "hermanos" estava muito boa, mesmo usando como base os dados oficiais do governo de lá, que já há algum tempo eram sabidos que eles não tinham quase nenhuma confiabilidade. Vamos ao próximo trecho.

"Na foto do espantoso novo Ministério da Dilma que saiu nos jornais, destaca-se, além do vestido da Kátia Abreu, o tamanho do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Ninguém, nem o Rossetto, chega aos seus ombros. O que não deixa de ser simbólico. Levy domina o grupo fotografado com sua altura como dominará o governo com suas medidas de, sim, responsabilidade fiscal e austeridade. E a altura de Levy tem outro significado: será difícil alguém chegar ao seu ouvido. Alguém preocupado com a incoerência de um governo do PT entregar-se tão despudoradamente a uma ortodoxia de efeito duvidoso. Alguém pedindo clemência para os programas sociais ameaçados, talvez a própria Dilma. Se não fosse esperar demais, até alguém pedindo para ele ler Krugman e Stiglitz de vez em quando. Mas o ouvido de Levy é inalcançável, à prova de palpites. Na própria foto, ele parece estar com a cabeça numa camada superior da atmosfera, respirando outro ar. Certamente não o mesmo ar do pastor Hilton, lá embaixo."

A "ortodoxia de efeito duvidoso" que Levy pretende adotar no segundo mandato do governo Dilma certamente não é maior do que a adotada pela dupla Palocci-Meirelles no primeiro mandato do governo Lula. Alguns devem se lembrar da política de aperto monetário que o presidente do Banco Central naquela época conduziu (a Selic ultrapassou os 26% no primeiro semestre de 2003). E, mesmo não sendo petista nem um admirador do governo Lula, não tem como não reconhecer que essa "ortodoxia de efeito duvidoso" deu muito certo: a inflação seguiu sob controle e o país pôde aproveitar, ainda que mal, a boa fase gerada pelo boom da China e das commodities. Para ser honesto, se o Levy pudesse ouvir alguma coisa que eu digo, pediria para ele ler Milton Friedman (que ele certamente ouviu falar nos seus tempos da Universidade de Chicago) e, quem sabe, Mises.

"Imagino que o Joaquim Levy tenha lido o Thomas Piketty, nem que seja só por curiosidade. Piketty também nada contra a corrente. Se a questão maior para qualquer pessoa que não seja um verme moral é a questão da desigualdade crescente no mundo, Piketty prova que o capitalismo, do jeito que vai, só agravará o problema. Ele chama a pretensão de que uma economia de mercado sem regulação acabará por “elevar todos os barcos” e diminuir as desigualdades de “um conto de fadas”. Mas esse conto de fadas é o outro nome da ortodoxia econômica que querem nos impingir."

Confesso que tenho vontade de ler o livro do Piketty, também por mera curiosidade. E concordo que o modelo capitalista atual, baseado em compadrios e no "too big to fail", em que recursos de pagadores de impostos sejam usados para salvar bancos e empresas incompetentes, só agravará o problema da desigualdade, que por mais assustador - ou não - que pareça, é menor nos países que tem maior liberdade econômica. E não custa lembrar que uma das ideias de Piketty para combater a desigualdade é a do imposto sobre grandes fortunas, ideia esta que, como disse no comentário do primeiro trecho da coluna de Veríssimo, foi testada na França. E fracassou.

Quem quiser acreditar no conto de fadas de Veríssimo sobre um Estado onipresente, onisciente e onipotente, capaz de prover o paraíso aos cidadãos, pode acreditar. Eu já acreditei nisso em uma fase de minha vida. Felizmente eu desisti.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Não, Juan Arias. Dilma não se transformou

Dando-se tempo ao tempo: cadê as vantagens do porto de Mariel?

O perigo do Brasil se tornar cada vez mais o paraíso de George Soros