Ainda sobre 1% vs. 99%: o lero-lero de Boulos

(Fonte da imagem: Folha de S. Paulo)
Eu acreditei que ao escrever um artigo comentando sobre a questão dos 1% vs. 99% (ver aqui), não voltaria a falar sobre o estudo da Oxfam tão cedo, uma vez que tentei explicar de forma razoável os motivos do quadro chocante em que no ano de 2016 a riqueza de 1% da população mundial será maior que a dos 99% restantes. Mas hoje, ao dar uma percorrida nos sites de jornais e portais de notícias, me deparei com uma coluna de Guilherme Boulos na Folha de S. Paulo sobre o assunto, bem como as "soluções" propostas pelo líder dos sem-teto. Não é a primeira vez que falo de seus textos, e quem quiser conferir minha resposta à coluna na qual ele culpa o "neoliberalismo" (vai saber o que é isso) pela crise de 2008 pode conferir aqui. Acompanhe abaixo os trechos da coluna de Boulos, com comentários durante os mesmos:

"No último mês, a organização britânica Oxfam apresentou um estudo sobre a concentração de renda no mundo. Os dados vieram de relatório do Credit Suisse e do anuário da "Forbes". Os resultados são alarmantes.

Em 2009, a fatia 1% mais rica da população mundial detinha 44% de toda a renda. Esse número saltou em 2014 para 48%. Seguindo o mesmo ritmo, ultrapassará a metade em 2016 e chegará a 54% em 2020.

Ou seja, no ano que vem a renda dos 1% mais ricos ultrapassará a renda dos 99% restantes - 72 milhões de pessoas terão mais recursos do que os outros 7,1 bilhões."


Primeiramente, é importante frisar o seguinte: para estar nos 1% mais ricos do mundo, não é necessário chegar à fortuna de Bill Gates, Warren Buffett ou Carlos Slim (só para citar exemplos). Basta ganhar US$ 34 mil por ano, o que levando em conta a cotação de dólar de ontem equivale a ganhar R$ 7,2 mil por mês (incluso o 13° salário). Óbvio que isso não é pouco, mas isso está longe de ser um Cantareira cheio de dinheiro. Para se ter uma ideia, isso é 2,4 vezes o salário mínimo considerado "necessário" pelo DIEESE (ver aqui).

Também há outro detalhe, muito bem lembrado na página Mercado Popular (ver aqui) e republicado em um artigo de Carlos Góes no Spotniks (ver aqui): a metodologia da Oxfam, baseada em dados do banco Credit Suisse, é questionável, uma vez que recorre a dados escassos sobre riqueza. Além disso, as extrapolações para obter a participação dos 1% mais ricos no "bolo" é baseada apenas nos dados dos últimos quatro anos, o que leva a níveis extraordinários de concentração na história mundial. Não é necessário dizer que estatisticamente falando esta prática é, na mais rósea das visões, discutível.

(Fonte da imagem: Mercado Popular/Spotniks)
"Se há quem ainda ache pouco, tem mais. Na massa cheirosa dos 1%, há os que são ainda mais cheirosos do que os outros. Os 80 cidadãos mais ricos do mundo -incluindo dois brasileiros- apropriam-se sozinhos da mesma renda que os 50% mais pobres, isto é, mais de 3,6 bilhões de pessoas.

Opa, alto lá! Sempre ouvimos que é com trabalho que se enriquece, que as oportunidades do mercado são iguais para todos, não é? Então, ou temos 80 cidadãos de bem e 3,6 bilhões de preguiçosos imprestáveis ou algo está muito errado em nossa sociedade "meritocrática".

Na verdade, os números do estudo da Oxfam revelam que este mercado é um jogo de cartas marcadas e que a tão propalada mobilidade social do capitalismo não passa de ilusão de ótica: de quem vê exceções no micro para convenientemente ocultar o macro.

As toneladas de discurso dos economistas da ordem sobre progresso econômico e social são menos científicas que a letra de axé: "O de cima sobe e o de baixo desce"."

Estava demorando demais para que Boulos atacasse a meritocracia e o capitalismo, mas quem leu o meu primeiro post sobre este estudo da Oxfam (ver primeiro link) já percebeu que ele não entende nem de uma coisa, nem de outra. Mas de forma bem resumida, a meritocracia não tem tanto a ver com o esforço empregado na realização de uma atividade, e sim com o fato deste esforço atender o que a sociedade quer. Ou seja: a meritocracia está relacionada com a eficácia.

Pode ser que alguém ainda tente argumentar: "Ora, então 3,6 bilhões de pessoas fazem coisas que não atendem à sociedade e apenas 80 pessoas conseguem isso?". Tal como no meu primeiro artigo sobre o assunto, minha resposta continua sendo sim e não. Sim, porque nada impede que essas 80 pessoas tenham maior eficácia que as 3,6 bilhões restantes. E não, porque tão somente isso não explica tamanha disparidade, mesmo levando em conta que houve, há e haverá desigualdades tão somente pelo fato de eu, por exemplo, ser diferente do Boulos. Bem como houve, há e haverá desigualdade apenas pelo fato de cada ser humano ser diferente do outro. O capitalismo de compadres, arranjo em que o sucesso nos negócios dependa mais das relações com os governos em detrimento dos mercados, tem uma razoável parcela de responsabilidade no aumento das desigualdades econômicas e sociais.

Outro ponto é sobre a suposta "ilusão" da mobilidade social do capitalismo que Boulos tenta argumentar. A pergunta é: qual tipo de mobilidade social que o líder dos sem-teto se refere? Pois existem duas, que irei chamar de vertical e horizontal. A mobilidade social vertical é aquela que permite aqueles que estão nas classes menos favorecidas poderem ascender em renda e atingirem um degrau superior. Já a mobilidade social horizontal é aquela que permite aos mais pobres terem acesso a mais e melhores bens e serviços, ainda que estes não subam na "pirâmide". Em ambos os casos, o ativismo estatal, que cresceu de forma considerável após a crise de 2008, mais atrapalha do que ajuda. Basta comparar os índices de liberdade econômica da Heritage Foundation (aqui) com os índices de Gini, que medem a desigualdade (aqui). Uma boa parcela dos países com maior igualdade de riqueza é composta justamente por economias bastante livres, algo que Boulos certamente não se interessa. E mesmo em países ricos com grande desigualdade (caso dos EUA), um cidadão classificado como "pobre" por lá possui condições de adquirir mais bens e serviços em relação a "nova classe média" brasileira, por exemplo.

Ainda há um detalhe que não é menos importante: avaliar a desigualdade como fator principal pode nos levar a conclusões um tanto estranhas. Etiópia, Paquistão e Bangladesh, países paupérrimos, possui menor desigualdade de renda que o Canadá, a Suiça e a Austrália. E é evidente que ninguém, em sã consciência, preferiria os três primeiros países aos três últimos. A desigualdade importa? Sim. Mas a pobreza importa mais. Diria muito mais até.

"Se formos mais adiante, veremos ainda que mesmo entre os 99% -que hoje detêm 52% da renda - a desigualdade também é gritante. Dividindo esses 99% em dois grupos teremos 20% com 46% da renda total e os 79% mais pobres com apenas 6% da renda total. Mais de três quartos da humanidade com 6% da renda!

O economista francês Thomas Piketty, em sua obra-prima lançada no Brasil no ano passado, já havia mostrado que desde os anos 1970 há um crescente aumento da desigualdade social nos países ricos.

A primeira década do século 21 reforçou esta tendência, apesar do crescimento econômico. Isso porque, diz Piketty, a taxa de rendimento do capital foi maior do que o crescimento da economia, ampliando a concentração de renda."

Bem, não satisfeito em criar uma rinha entre 1% e 99%, Boulos resolve fazer o mesmo dentro deste último grupo. Sim, mesmo que você ganhe menos que R$ 7,2 mil por mês, se você ganha o suficiente para viajar no final de ano, pode pagar uma escola particular aos seus filhos e compra um carro pé-de-boi a cada cinco anos, mesmo que com muito sacrifício, você é visto como um privilegiado. Pelo menos na lógica boulista. Fica cada vez mais evidente que o problema de Boulos não é tanto com a pobreza, e sim com que outras pessoas possam ser mais ricas. Se ambas fossem pobres, não seria tão problema assim, não é?

Sobre o dado da taxa de rendimento do capital ser maior em relação ao crescimento da economia, apresentado por Thomas Piketty no livro O Capital no Século XXI (diga-se de passagem eu comprarei o livro para ler e pretendo comentá-lo até março), é importante entender o porquê de isso acontecer (apesar de ter um artigo no Instituto Mises Brasil que explica de forma razoável este ponto). Lanço duas hipóteses, não necessariamente excludentes: uma é que as regulamentações no setor produtivo acabam limitando o desempenho do mesmo; a outra é que o setor financeiro, cada vez mais concentrado, acaba remunerando mais seus investidores. Mas como disse, são hipóteses. Podem ser que eu as reconsidere em um outro momento.

"Crescimento não significa menos desigualdade. O bolo pode crescer e as fatias serem distribuídas de forma ainda mais excludente. É o que temos visto no mundo.

Acreditar na filantropia institucional e em políticas assistenciais para reverter este quadro representa ingenuidade ou cinismo.

A redução da desigualdade exige uma forte política distributiva, com taxação das grandes fortunas e do capital financeiro, interrupção do ciclo vicioso da dívida pública e ampliação consistente dos direitos trabalhistas e dos salários."

De fato, é o único ponto que tendo a concordar com Boulos. É possível existir uma economia pujante sem que isso reflita em avanços sociais. Mas não é possível ter avanços sociais sem que, por trás disso, haja uma economia forte e sólida. Portanto, não existe um dilema entre crescimento e desigualdade. Pelo contrário, é necessário que ambos andem juntos, do contrário as pessoas receberão fatias infinitesimais de bolo (não, não nego meu ranço de futuro engenheiro ao tirar uma expressão do Cálculo para usar neste post) e ficarão igualmente insatisfeitas.

Quanto às soluções...Bem, não que eu tenha comentado isso antes, mas vamos por partes:

1 - O imposto sobre grandes fortunas é uma ideia tão bonita quanto fracassada. Resulta em êxodo fiscal e inibe os indivíduos a acumularem riqueza, mesmo que seja tão somente para ter um padrão de vida um pouco melhor na aposentadoria (citando apenas um exemplo). A França de Hollande está aí para não me deixar mentir.

2 - Interromper o ciclo vicioso da dívida pública requer, pelo menos, duas alternativas. A primeira, mais racional, seria cortar gastos públicos e geri-los de forma que fique sempre menor que as receitas, bem como enxugar a máquina estatal, privatizando ou concedendo determinados serviços públicos. Certamente não é algo que Boulos tenha apreço. A segunda alternativa seria dar o "balão" nos credores, e não é preciso dizer por que isso está longe de ser uma medida racional (mesmo que Boulos ache isso melhor). Ou precisa?

3 - Ampliar direitos trabalhistas e salários...Err, bem, Boulos é mais um daqueles que cria-se riqueza e igualdade ex nihilo. Ou melhor, na base da canetada. Apenas para fins de exemplo: a Suiça não possui salário mínimo (inclusive o rejeitou no ano passado). O Brasil possui salário mínimo de R$ 788 hoje. Por que os suíços não escolhem o Brasil então, oras? Os EUA possuem uma legislação trabalhista mais flexível em relação à brasileira. Por que os norte-americanos não optam por trabalhar no Brasil, onde existem uma série de direitos trabalhistas garantidos por uma legislação inspirada na Carta del Lavoro do fascista Mussolini? Apenas para fechar este tópico: a Venezuela possui um salário mínimo de mais de R$ 2 mil. E isso mal dá para comprar uma camisinha (é sério).

"Foram essas bandeiras que levaram 300 mil às ruas de Madri na semana passada em apoio ao Podemos. Foram elas também que elegeram o Syriza na Grécia.

O 1% de sempre jamais cedeu nada às maiorias sem enfrentamento. Ao contrário, oferece mais arrochos e cortes de direitos aqui e lá fora.

Hoje há 1 contra 99. As lutas de resistência popular pelo mundo trazem novos ventos e anunciam que poderá chegar o dia em que serão 99 contra 1."

Também foram as mesmas bandeiras que levaram à ascensão do kirchnerismo argentino e do chavismo venezuelano (a propósito, a Venezuela está utilizando justamente o "Podemos" para exportar seu modelo para o Velho Continente). E os resultados estão aí para quem quiser ver. Esses "novos ventos" que sopram na periferia europeia podem representar nada além de devastação. Como representaram aqui na América Latina.

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