Carnaval, o "prejuízo" dos feriados e a esquecida produtividade

Desfile da escola de samba Gaviões da Fiel no carnaval paulistano. (Fonte da imagem: Estadão)
Boa noite pessoal. Como alguns sabem, fiquei a última semana sem escrever neste blog pelo fato de estar atolado em alguns compromissos acadêmicos (leia-se: fazer referencial teórico e metodologia de meu trabalho de conclusão de curso no IFES, onde estudo). E resolvi para falar de um assunto que de certa forma é recorrente em todo feriado prolongado, mas que ganhou destaque em um ano que se prevê crescimento zero: o prejuízo à economia causado pelo "excesso" de feriados (ver aqui e aqui). E, em outros anos que este assunto entrou à tona, as soluções propostas bem que variam, mas convergem para um ponto: transferir datas de feriados para a segunda-feira (como é o caso de uma proposta do então senador paraibano Roberto Cavalcanti, do PP) ou para a sexta-feira, de forma a evitar as tradicionais "enforcadas" que ocorrem quando essas são na terça ou quinta-feira.

Esta proposta, ontem, hoje e sempre, divide opiniões. Alguns apoiam a medida, uma vez que acreditam que o "excesso" de feriados de fato representam um prejuízo a economia. Outros se opõem frontalmente, alegando que isso significaria menos descanso, menos tempo com a família e, por consequência, menos qualidade de vida para os trabalhadores (muito embora no Carnaval as pessoas acabam descansando pouco, tendo menos tempo ainda com a família e, claro, retornando ao trabalho quase como um farrapo, mas vamos deixar quieto). Até certo ponto ambos os lados tem alguma razão, mas também ignoram o que de fato deveria ser discutido.

Sim, precisamos falar sobre produtividade (não é a primeira vez que falo disso, e nem é a primeira que falo de Carnaval). É um tema até discutido em conversas entre especialistas de economia e no meio empresarial, mas que acaba passando batido toda vez que a questão do "prejuízo" dos feriados volta a ser colocada na mesa. Mas antes disso, vamos derrubar um mito: não, não somos um país com feriados em excesso. Existem países, inclusive no mundo desenvolvido (ver aqui), possuem o mesmo tanto ou mais feriados que o Brasil: Coreia do Sul, Japão, Chile, Finlândia, Taiwan e Áustria. Seriam os feriados os vilões do crescimento e desenvolvimento econômico? Certamente não. A propósito, Bolívia, Equador e México possuem menos feriados que o Brasil e não são nenhum poço de qualidade de vida nem de pujança econômica.

Assim como não é novidade a discussão sobre até que ponto os feriados são prejudiciais à economia, também não é nenhuma novidade o fato de que os índices de produtividade em nosso país serem pífios (ver aqui e aqui). A produção de um trabalhador brasileiro, por exemplo, é de um sexto em relação a um americano. E os EUA possuem apenas dois feriados a menos em relação ao Brasil. Outra coisa que também não é novidade são as causas para a nossa baixa produtividade, que são bastante conhecidas: mobilidade urbana ruim, infraestrutura capenga, mobilidade urbana caótica e educação de péssima qualidade. E em uma situação dessas poderíamos apenas contar com os finais de semana livres que continuaríamos pouco produtivos e competitivos em nível mundial.

Além do mais, simplesmente tirar o "excesso" de feriados - que como falei, é um mito - não só não resolve nossos problemas de produtividade - que não é somente quanto um trabalhador pode produzir por dia, mas também o quanto ele é capaz de produzir com a mesma quantidade de recursos, ou mesmo menos - como pode agravar o cenário de escassez energética e hídrica se pensarmos na realidade deste ano. Afinal, mais dias de trabalho significam maiores gastos de água e eletricidade, entre outros materiais que, para serem produzidos, também necessitam desses. Além disso, se produz algo em função de uma oferta. Mas que oferta? Devido ao aumento de impostos e ao encarecimento do crédito, o consumo interno tende a cair. E a demanda por produtos, sobretudo commodities, já não é mais um cavallino rampante. Arrisco a dizer que nesta altura do campeonato a eliminação das "enforcadas" nos feriados poderia não resolver em nada nosso cenário recessivo neste ano como inclusive poderia comprometer o do próximo.

Enfim, é certo que nossa economia tem problemas de sobra. Mas é igualmente certo que os feriados não são nem de longe nosso maior pesadelo.

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