Com quantas apropriações se faz uma cultura?

(Fonte da imagem: Blogueiras Negras)
Boa noite pessoal. Dando continuidade ao meu retorno às postagens do Minuto Produtivo, irei comentar sobre um assunto que parece estar na moda nas rodinhas mais "intelectualizadas" (adianto que no contexto brasileiro isso pode significar qualquer coisa, inclusive nada): apropriação cultural. Mais precisamente, da reação negativa que alguns grupos têm diante do fato de pessoas que possuem outra cultura acabarem usando elementos que pertençam à cultura desses. Para tais grupos, esta prática é um ato de desrespeito à cultura que eles alegam defender, e, portanto motivo de repúdio. Um exemplo disso vocês podem conferir na imagem abaixo:

(Fonte da imagem: Acervo pessoal do editor, ver aqui)
Quando vejo isso, eu pergunto o seguinte: já imaginou se os portugueses que vieram ao Brasil e, posteriormente, os numerosos imigrantes europeus e asiáticos que vieram substituir a mão-de-obra escrava não se apropriassem do hábito indígena de tomar banho todos os dias? Ou como seria o nosso Carnaval se não apropriássemos de aspectos da cultura africana, europeia e indígena, de um modo geral? Ou ainda, se não apropriássemos do costume italiano de comer uma boa pizza e uma boa macarronada? No primeiro caso, seria uma desgraça, principalmente se você estivesse em um ônibus lotado em um dia abafado e, por causa da chuva, os passageiros fechassem as janelas. Nos outros dois, a vida continuaria, mas certamente seria sem graça.

O fato é que falar em "cultura pura", sem apropriações, além de ser uma ideia que remonta àqueles discursos de purificação defendidos pelos nazistas, Ku Klux Klan e pelos Panteras Negras (uma KKK de sinal trocado, tanto racial como ideologicamente), é uma ideia utópica e hipócrita. Utópica, porque cedo ou tarde incorporamos costumes de outras culturas (sendo que a globalização acelerou esse processo), muitas vezes de forma sutil. E hipócrita, porque quem se opõe à "apropriação" muitas vezes vocaliza esse discurso de ódio (não meu caro esquerdinha, não é só os "reaças" que têm discurso de ódio, ok?) por meios que só foram possíveis graças...À apropriação da cultura ocidental! Ou será que não fosse isso estaríamos utilizando calça jeans para ir ao trabalho e terno e gravata em ocasiões sociais, por exemplo? Cito também os EUA...Alguém imagina Hollywood sem a apropriação de algo desenvolvido pelos irmãos franceses Lumiére?

Eu poderia citar exemplos de diversas apropriações culturais ocorridas aqui e em outros países do mundo, mas creio que estas, para efeito deste post, são suficientes para ilustrar a tacanheza mental daqueles que se opõem à apropriação cultural. Ela não é só positiva (na maioria dos casos), mas é fundamental na própria construção da identidade de um grupo.

Resumindo: cultura é feita de apropriações. E mesmo que eu não seja muito fã do modernismo brasileiro o conceito de antropofagia defendido por Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral vem muito a calhar nessas horas.

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