Não tenho a menor pena dos reitores das universidades federais

Reitores das universidades federais em torno de Dilma Rousseff (Fonte da imagem: Blog do Planalto)
Hoje, ao dar uma percorrida no meu estoque de besteiras feed de notícias do Facebook, encontrei um link que me chamou a atenção. Era uma reportagem, exibida na edição de hoje do Bom Dia Brasil, que falava do corte dos recursos públicos destinados às universidades públicas, devido ao fato de que, segundo o governo, o orçamento de 2015 não foi votado e, por isso, há a necessidade de se segurar os gastos. E esta semana, os reitores planejam ir à Brasília cobrar providências do MEC, alegando que, por se tratar de um serviço essencial aos brasileiros, o ensino não poderia sofrer contingenciamento de recursos.

De fato, a nova realidade que se estabeleceu para os gestores das instituições é preocupante e inspira cuidados, não só para os servidores, mas, principalmente, para os alunos, alguns em situação mais delicada por conta do corte de bolsas e auxílios. Ainda que com ressalvas quando ao uso e contingenciamento de verbas, concordo que a educação é um serviço essencial e que atividades ligadas ao tripé ensino-pesquisa-extensão não deveriam ser comprometidas (a não ser em situações extremas). Mas meus caros leitores deste blog, querem uma opinião sincera sobre o imbróglio, sobretudo em relação aos reitores das universidades federais? Não tenho a menor pena. Nem um pingo.

Alguns podem estar se horrorizando com minha resposta neste momento e por isso, resolvem perguntar: "mas seu insensível, por que você não tem pena nenhuma dos reitores?". Minha resposta é que eles finalmente descobriram a recompensa após vários anos de servilismo e submissão ao governo federal.

Não que esta relação tenha surgido no governo Dilma ou mesmo com Lula, mas nos últimos anos a sujeição dos altos gestores não só das universidades, mas também dos institutos federais (sendo que ambos deveriam minimamente zelar pela autonomia), ultrapassou os limites do aceitável, gerando episódios que vão do constrangedor ao tão somente pífio e patético.

Cito três (creio que são suficientes): o primeiro, em 2009 (portanto ainda quando Lula era presidente e o MEC era comandado pelo inacreditável Fernando "existe amor em São Paulo" Haddad, hoje conhecido como Haddad Suvinil), era sobre a implantação do novo Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM. Uma substituição de um modelo baseado em 63 questões objetivas e uma redação, de caráter meramente diagnóstico, por um megavestibular com inicialmente 200 questões (depois disso foi reduzido para 180) e uma redação, requer um mínimo de planejamento. Uma prova-piloto em algumas instituições de ensino seria uma hipótese aceitável. Mas nada disso aconteceu: tão logo a nova avaliação foi apresentada houve uma implementação praticamente a toque de caixa nas instituições federais de ensino superior, ainda que servisse apenas como primeira fase (como é o caso da UFES). E os reitores praticamente não ofereceram resistência, até mesmo para receberem mais recursos.

Outro episódio foi em 2012, no auge da discussão da lei que regulamentaria o atual sistema de cotas nas universidades e institutos federais. Considerando que as instituições se localizam em estados diferentes, portanto com perfis sociais e étnicos diferentes, o que se esperava era que os reitores discutissem a adaptação do sistema às realidades locais. Mais uma vez, nada disso aconteceu. O sistema como conhecemos hoje foi aprovado e os reitores aceitaram numa boa. Ficava mais evidente a transformação das universidades (e por que não, dos institutos) federais em "cobaias" do governo federal.

Por fim, no ano passado, veio a declaração dos reitores a favor da reeleição da presidente Dilma Rousseff. A declaração da Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior) era bastante otimista, mesmo com os fatos demonstrando o contrário (ver aqui e aqui, apenas para fins de exemplo):

"[...] os reitores apresentaram uma carta de apoio em que dizem reconhecer "que o Brasil está no rumo certo, graças às políticas, aumento orçamentário, ações e programas implementados nos últimos anos". Eles afirmam ainda que o governo petista ficará marcado como o período em que mais se investiu em educação."

Não é preciso ir longe para dizer que a educação brasileira está muito longe do rumo certo, muito menos o país como um todo. Mesmo em se tratando do ensino superior, que recebe uma fatia desproporcionalmente alta do orçamento em relação ao básico, sendo que nos países de melhor desempenho na área a distribuição dos recursos é o inverso disso. Notícias sobre sucateamento na infraestrutura das instituições federais de ensino superior se encontram aos montes. Basta uma pesquisa no Google.

Mesmo assim, o que se viu nas últimas eleições, foi um clima que beirava o terrorismo eleitoral. Os adversários de Dilma eram satanizados, tanto por gestores, como por alguns servidores (professores, principalmente), como ainda por estudantes (principalmente ligados e/ou simpatizantes de movimentos ligados ao corpo discente, em boa parte aparelhados por partidos políticos). O debate sobre o futuro não só da educação, mas da nação, acabou se limitando a "mais mudanças e mais futuro" (sabe-se lá em que sentido) contra "o retorno dos fantasmas do passado". Mesmo com o crescente clima antipetista, inclusive ganhando espaço no ambiente acadêmico, Dilma acabou sendo reeleita, para até então alegria dos gestores, servidores e estudantes que achavam que o Brasil ia tutto bene. Era o que parecia.

Pois bem, como mostrei nos dois últimos posts de outubro do ano passado - ver aqui e aqui - o discurso de que o Brasil estava no rumo certo e de que não eram necessárias mudanças além do mainstream do petismo não durou sequer um dia. O ignorado ajuste fiscal tornou-se inevitável, o tarifaço tão negado na energia elétrica e nos combustíveis virou realidade e dos bancos, instituições tão criticadas por Lula, mentor intelectual (!) de nossa presidente, surgiu o novo Ministro da Fazenda, Joaquim Levy. No caso da educação, assumiu a pasta Cid Gomes, ex-governador do Ceará, o mesmo que disse que professor deveria trabalhar por amor e não por dinheiro (você, professor de universidade ou instituto federal que entrou em greve e mesmo assim votou na Dilma, já conseguiu digerir isso?). E agora, em nome de uma desesperada (e cambota, como disse meu colega de bancada Arthur Rizzi) política de austeridade, quem diria, as universidades foram uma das primeiras a sofrerem nas mãos do governo federal.

Antes que perguntem, ninguém pode falar que houve falta de aviso em relação à situação difícil que estava por vir para o Brasil no ano de 2015. Quem acompanha o meu blog sabe que há pelo menos dois anos avisava sobre o cenário trágico que poderia abater o país caso houvesse a persistência nos erros em relação às políticas de governo. Quem optou pela continuidade mesmo assim não só ignorou os avisos como dobrou a aposta. E os resultados estão aí.

Quem votou na Dilma tem direito de sentir-se enganado? Até que tem. Mas de maneira nenhuma pode reclamar que fez isso sem tomar conhecimento das consequências. E antes que alguém questione se caso a mesma situação se repita nos institutos federais (eu estou caminhando para o último período de Engenharia de Produção em um deles), eu digo que falaria exatamente o mesmo, sem tirar nem pôr. Posso até ter alguma pena dos estudantes e servidores que foram afetados pelas "vacas magras", mas quanto aos reitores...Bem, eu não tenho a menor pena. Não mesmo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

E se comprar um carro fosse tão difícil quanto comprar uma arma?