O patriota não é nem reacionário nem revolucionário

(Fonte da imagem: Tea Party.org)

Para finalizar essa série de ensaios sobre a obra de Corção (1, 2), decidi fazer uma reflexão acerca do sentimento patriótico. É ele um sentimento revolucionário e, portanto, perigoso?

Vamos primeiro à acusação: Os marxistas e demais socialistas (pois nem todo socialismo é marxista), acusam o patriotismo de ser fascista e um sentimento reacionário. Se entendermos o termo reacionário como "uma revolução ao contrário", como expõe o cientista político português João Pereira Coutinho em sua obra "As ideias conservadoras", o erro fica muito evidente, mas se entendermos reacionário no sentido marxista tudo fica confuso.

Karl Marx nunca definiu bem a diferença entre o conservador e o reacionário, o que fez com que, por vezes, ambos os termos se tornassem sinônimos. Isso fica óbvio na obra de Marx no seu livro "A crítica ao programa de Gotha", onde o revolucionário alemão deixa claro numa correção ao programa Lassalista que a burguesia é também uma classe revolucionária, mas o sendo em relação a aristocracia, ao passo que a classe revolucionária em relação à burguesia é o proletariado.

Para Marx o conceito é simples, como todo filósofo moderno, Karl Marx abraça a noção de progresso, de que a história tem um caminho, um rumo; que é a melhora e a evolução das condições técnicas, sociais e humanas.

Assim, para Marx, tudo que é contrário a este progresso é necessariamente reacionário, pois faz "a roda da história girar pra trás". Embora, de facto, tenhamos obtido progressos incríveis na ciência e na tecnologia a ponto de ir à lua, a noção de progresso dos modernos, sejam eles liberais ou socialistas é dúbia e não é muito sólida; se formos observar atentamente, o século XX foi o século dos genocídios, sejam eles feitos pelos nacionalistas de direita ou pelos internacionalistas de esquerda. Nada do gênero jamais havia ocorrido antes do século XX. As cruzadas, por exemplo, são diferentes em essência, pois não são um massacre da sua própria população em favor da implantação e aceitação de um regime. Mas mesmo se formos observar pelo lado puramente quantitativo, ainda assim, ao longo de quase 300 anos de campanhas militares em direção a Jerusalém, chegou-se a matar no máximo um milhão de pessoas num período de 300 anos. Mas nunca antes na história, fora possível matar 6 milhões de indivíduos (judeus) no decurso de poucos anos como no Nazismo, ou ainda, 4,5 milhões de ucranianos de fome no decurso de no máximo um ano e meio, como o comunismo fez. Isto para não falar de crimes maiores como o "Grande Salto Adiante" de Mao Tsé-Tung que levou embora da existência pelo menos 60 milhões de chineses. Não existe progresso algum quando a ciência é usada para a criação de armas com poder de destruição humano que beira a extinção da própria espécie, desde pequeninas como a Little Boy dos americanos - que devastou o Hiroshima no Japão - ou por gigantes como a Tsar Bomba dos soviéticos que transformou as enormes montanhas de Nova Zembla em uma enorme planície radioativa abandonada para sempre.

Assim, para o marxismo, não existe diferença entre o conservador que não quer revolução de sorte alguma, seja para "aoutrora" ou "adoravante" - parodiando Isaac Asimov - e o nacionalista de direita, ou tradicionalista aristocrático que quer recuperar um passado idealizado, estando disposto a matar tantos quanto possível para alcançar seu "sagrado" objetivo.

Obviamente temos um problema com essa descrição, pois há uma diferença clara entre o conservador e o reacionário. O patriotismo, como vimos nos outros ensaios, não se enquadra nem no revolucionarismo nem no reacionarismo, uma vez que ele não busca nada senão sua autopreservação. O patriota não tem qualquer grande ambição, se não a de viver para os seus próximos e ajudar os seus semelhantes. O patriota não ama a pátria por causa de uma ideia de nação, mas sim pelas pessoas com quem ele compartilha não só sua nação mas a sua vida e seus melhores momentos. Assim sendo, o verdadeiro patriotismo se manifesta na reação a um ataque, e não na imposição de sua norma sobre os outros como faz o nacionalista.

O nacionalista e o internacionalista estão insatisfeitos com o status quo e querem sempre mudá-lo para alcançar seus alvos idealizados; o patriota, exceto quando atacado e subjugado por um dos dois, está satisfeito com o mundo, não porque ele é perfeito ou corresponde a uma ideia previamente estabelecida, mas por que é nesse mundo imperfeito que ele encontra aquilo que ele mais ama; sua família, seus amigos, seus vizinhos, sua comunidade e a sua igreja, mesquita ou sinagoga.

Concluímos assim, que a acusação marxista de que qualquer demonstração de patriotismo é fascista em essência, corresponde a uma visão distorcida da realidade por conta de um ideologismo superficial que trata comportamentos tão diferentes como o conservadorismo e o reacionarismo como sinônimos, ignorando por completo toda e qualquer diferença de postura e atitude de ambos, por mais evidentes que sejam. Se um conjunto de ideias e princípios filosóficos são incapazes de explicar a realidade, então ela está falando de uma coisa totalmente outra e inexistente; e se o sujeito que as defende, uma vez ciente disso, insiste em sua defesa, é porque sem dúvidas, prefere viver no mundo da lua do que encarar a realidade nua e crua.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

E se comprar um carro fosse tão difícil quanto comprar uma arma?