Obama se despede da austeridade que nunca existiu. Ou: El País, ¿por qué no te callas?

Barack Obama em sua pose de "cão chupando manga". (Fonte da imagem: El País)
Desde a vitória do Syriza nas eleições gregas de 25/01, a imprensa parece tentar encontrar mais políticos que eu poderia chamar de "esquerdistas de estimação": são contra medidas de austeridade, defendem ampliação dos gastos públicos (principalmente na área social) e apoiam mais impostos aos mais ricos. Não importa se gastar como não houvesse amanhã leva a mais endividamento e, no caso de alguns países emergentes, mais inflação. Não importa se mais gastos públicos, ainda que em áreas sociais, apresentem efeitos duvidosos. Não importa se algumas experiências de taxação de grandes fortunas revelaram-se contraproducentes para o país. O importante é um discurso que acabe soando doce para o público em geral e que encontre ecos pela mídia.

Ontem à noite, foi a vez do El País dar eco a um candidato à "esquerdista de estimação": Barack Obama, presidente dos EUA e desesperado para conseguir fazer algum papel que não seja o de lame duck (uma vez que agora as duas casas do Congresso estão sob maioria republicana), está disposto a pelo menos deixar algum legado em seu governo: o de "pai da classe média" (admito, parafraseei a expressão "pai dos pobres" de Getúlio Vargas). Mas um trecho da notícia em especial me chamou a atenção. Segue abaixo:


"Ficam para trás os anos de cortes nos gastos públicos e os cortes nos impostos dos mais ricos ou os lucros das empresas no exterior. Adeus à austeridade que não deixa a classe média respirar, assim como afogou a sociedade europeia, concretamente a grega, como expressou o presidente em uma entrevista na CNN no último fim de semana mostrando uma certa simpatia em relação ao novo Governo antiausteridade de Alexis Tsipras, que sem dúvida significou um apoio contra Berlim e Bruxelas.

Obama acredita que chegou o momento de virar a página e colocar fim à austeridade, já que é difícil reestruturar a economia e conseguir ser competitivo “se os padrões de vida dos cidadãos caíram 25%”. “A sociedade simplesmente não aguenta isso”, falou. “Não podemos continuar espremendo os países que estão no meio de uma depressão. Há um ponto no qual é preciso existir uma estratégia de crescimento para que possam pagar suas dívidas e eliminar, assim, parte de seus déficits”, finalizou o mandatário na CNN, analisando a crise europeia."

A grande pergunta que faço é: que austeridade? Seria Barack Obama uma Angela Merkel de terno e gravata?

A resposta a essa pergunta pode ser encontrada por meio de alguns gráficos, que mostrarão cinco indicadores: receitas gerais do governo, gastos gerais do governo, a diferença entre eles, poupança nacional e dívida pública bruta, todos em % do PIB. Seguem abaixo, com o comparativo entre EUA e Alemanha:

(Fonte da imagem: Acervo pessoal do editor, com dados do FMI)

(Fonte da imagem: Acervo pessoal do editor, com dados do FMI)

Os gráficos acima mostram, respectivamente, a evolução das receitas e dos gastos gerais dos governos alemão e norte-americano. Alguns podem até argumentar, principalmente sobre o último gráfico, o seguinte: "Ora, o governo alemão gasta mais que o norte-americano e a queda do gasto foi menor, Obama tem razão!". Mas repare que a curva de receitas norte-americana, apesar da forte elevação, não atinge os 35% do PIB, enquanto que os gastos, ainda que em forte queda, não caem para abaixo desse mesmo patamar. Enquanto isso, a curva de receitas alemã é quase plana, enquanto que a curva de gastos apresenta uma queda (mais leve em relação a norte-americana, como dito antes) para patamares próximos às receitas, em torno dos 45% do PIB. O gráfico abaixo ilustra isso de forma bem mais clara:

(Fonte da imagem: Acervo pessoal do editor, com dados do FMI)
Na série apresentada no gráfico acima, apesar dos EUA apresentarem uma evolução na diferença entre receitas e gastos, este indicador permanece negativo (ou seja, até lá o governo norte-americano continuará gastando mais em relação ao que arrecada). Enquanto isso, a Alemanha desde 2012 apresenta uma diferença positiva entre receitas e gastos, e projeta-se uma permanência deste cenário até 2017. Sendo que os governos possuem duas formas principais de se financiar (impostos e dívida), uma diferença negativa entre arrecadação e gastos significa maior tendência ao endividamento.

(Fonte da imagem: Acervo pessoal do editor, com dados do FMI)
Neste gráfico, percebe-se que apesar da poupança nacional norte-americana estar em trajetória crescente (o que é positivo) e a alemã manter-se quase constante, esta última apresenta uma fatia do PIB maior, lembrando que como disse em meu artigo sobre o "risco Syriza" (primeiro link), uma poupança nacional alta significa maior capacidade do governo, das famílias e das empresas de financiarem investimentos internos e investimentos externos líquidos. Sendo assim, é possível inferir que os alemães estão menos a mercê de necessitar de recorrer às poupanças de outros países em relação aos norte-americanos. Resumindo: os alemães tendem a queimar menos dinheiro dos outros.

O último gráfico ilustra o resultado dos anteriores com mais clareza:

(Fonte da imagem: Acervo pessoal do editor, com dados do FMI)
Percebe-se que a dívida pública bruta norte-americana segue em trajetória ascendente até o ano de 2014 (pico), ultrapassando os 100% do PIB entre 2011 e 2012 e as projeções até 2017 apontam para uma leve queda apenas. Ainda assim os EUA continuarão devendo mais que sua economia até lá, e consideravelmente mais (em termos proporcionais) em relação à Alemanha. Esta, por sua vez, possui uma trajetória de queda considerável de sua dívida pública bruta desde 2010 (a exceção foi 2012), sendo que em 2016 já estará devendo menos de 70% de seu PIB.

Então retomo a pergunta: seria Barack Obama uma Angela Merkel de terno e gravata? A resposta, bem clara, é: não. Os EUA seguem gastando mais do que arrecadam (embora com uma diferença menor), possuem uma poupança nacional menor e, como consequência, precisam recorrer mais a empréstimos externos para se bancar. O resultado disso é evidente no endividamento, bastante elevado e sem perspectivas de pelo menos voltar a ser igual ao PIB em curto prazo. Isso também fica evidente no desespero do presidente norte-americano em aprovar o aumento do teto da dívida nos anos de 2011 e 2013. Ou mesmo na tentativa de aprovar o Obamacare (a tentativa de se implantar um SUS nos EUA) "a toque de caixa". O presidente do "yes, we can!" (inspiração para o Podemos, partido de extrema-esquerda que está para ganhar as eleições na Espanha, país-sede do El País) não se despedirá da austeridade. Até porque ela, de fato, nunca existiu.

Mais engraçado que Obama falar em "fim da austeridade", é ele insistir na ideia de taxar lucros que as empresas norte-americanas obtenham no exterior e ainda defender a famigerada ideia de mais impostos aos mais ricos (preciso dizer mais uma vez que essa ideia fracassou na França?). E ainda mais cômico é o El País consentir com essa tese, mesmo sem evidências que levem a acreditar na "pão-duragem" do presidente dos EUA.

Pensando bem, melhor dizer: El País, ¿por qué no te callas?

UPDATE: Sobre taxação de grandes fortunas recomendo que vocês leiam este artigo no Spotniks, "Não se engane, taxar os ricos não significa que eles irão pagar".

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