A "tirada de corpo" de Renato Janine Ribeiro. Ou: sim Renato, o inferno mora ao seu lado...Não atente contra os fatos!

(Fonte da imagem: FFLCH-USP)
Boa noite pessoal. Como alguns já sabem, já estou de férias da faculdade (leia-se: férias da reposição do nono período de meu curso, que terminaria em dezembro passado, não fosse as greves de 2011 e 2012), e esta semana também ganhei uma folga de meu estágio. Apesar desta mordomia durar apenas até o próximo domingo, creio que será o suficiente para adiantar algumas coisas, entre elas alguns posts para este blog. Hoje, um artigo de opinião escrito por Renato Janine Ribeiro e publicado no Estadão (e republicado posteriormente no blog do Juca Kfouri) me chamou a atenção. Intitulado "Fim da compaixão?", é um comentário sobre as recentes hostilidades ao ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, e uma crítica às tensões políticas crescentes em nosso país. Seria até um texto aceitável, não fosse o fato de estar totalmente enviesado e com uma total inversão dos fatos. Seguem abaixo alguns trechos de seu texto (em azul), com comentários ao longo do mesmo.

"Outro, todos vimos nos jornais: a forma como o ex-ministro Guido Mantega, que estaria levando a mulher para se tratar de câncer no Hospital Israelita Albert Einstein, foi ofendido na lanchonete do mesmo, a ponto de ter que se retirar. A coincidência é que essas condutas indesculpáveis ocorreram em dois hospitais top de linha de São Paulo. Mas o chocante mesmo é que ambientes que deveriam ser de acolhida, de cuidado, foram poluídos, num caso, pela ganância, no outro, pelo desdém pelo sofrimento alheio.

Estaremos vivendo o fim da compaixão? Ninguém vai a um hospital para se divertir. É um lugar onde a maior parte se dirige preocupada, quase sempre adoentada e com sintomas desagradáveis. Um hospital, mais que isso, por vezes respira morte. O câncer, de que sofre a mulher do ex-ministro, é doença de difícil e doloroso tratamento, embora a cura seja cada vez mais frequente. Nesses lugares se espera tudo, menos agressão. Na primeira narrativa, o médico falta com a ética mais elementar de sua profissão; mais que isso, com o respeito devido a um ser humano. Pode alguém escolher um ofício da saúde, para usar as palavras de um médico no filme Montenegro (1981), de Markavejev, porque “só lhe interessa o dinheiro”? Sem dúvida, o caso narrado tem de ser exceção entre milhares de médicos, mas infelizmente só reforça o descontentamento com eles – e juízes (mas esse desprestígio de duas das três grandes profissões tradicionais – a terceira são os engenheiros – seria assunto para outro momento). Minorias podem impopularizar uma profissão. Esse caso precisa ser apurado pelo hospital e pelo Conselho de Medicina."

Sobre o incidente de hostilidade ao Mantega, compartilho da mesma opinião do jornalista Reinaldo Azevedo (você pode conferir o comentário dele sobre o assunto em seu blog na Veja): mesmo considerando o ex-Ministro da Fazenda um péssimo condutor de política econômica e um pitaqueiro de qualidade ainda pior (o que me leva a entender os motivos da fúria), a atitude demonstrada pelos manifestantes foi péssima, ainda mais se levarmos em conta de que se trata de um hospital.

Quando à pergunta de se nós estaremos vivendo o fim da compaixão, eu particularmente acredito que sim. Na verdade acho que estamos vivendo o fim da compaixão. Há algum tempo.

"Há gente que trata aqueles de quem discorda como se estivéssemos em guerra civil. Pior que isso: porque, como afirmei, a doença ou a desvalia implicam uma bandeira branca. Nem mesmo isso está sendo respeitado. Fiquei horrorizado com certas manifestações de facebookers e de leitores de jornais. Um dizia que o PT tem que ser tratado à bala. É uma clara degradação do espaço político em território de guerra. É esquecer que a construção do Estado consiste, antes de mais nada, na substituição da guerra pelas palavras, da matança pela convivência. Gente que diz isso passa o atestado de que não está preparada para o convívio no Estado de Direito. Quem defende o assassínio é criminoso. Pena que o Brasil seja tão leniente com o crime."

Não tem como negar que tais posturas são inaceitáveis em um ambiente que se espera uma discussão democrática. Mas o que dizer de um prefeito petista convocar a militância para a porrada? Seria isso uma forma mais civilizada de tratar aqueles que discordam de alguma coisa? Sobre leniência com o crime, o que dizer da recepção que Dilma fez aos sem-terra no dia seguinte ao confronto com policiais em Brasília? Ou ainda o "salve geral" feito por Lula, dizendo que iria convocar o "exército de Stédile" nas ruas? Bem, neste último caso até dá para entender o porquê de gente defender que o PT deva ser tratado à bala (embora repito, é uma postura inaceitável, que fique bem claro)...

Contra o fascismo sim, mas fazendo algo que não difere muito dos camisas negras de Mussolini. (Fonte da imagem: Implicante)
Agora vem a inversão dos fatos:

"Ora, o que mostram esses episódios que dessacralizam os templos do cuidado é que está se desvalorizando o respeito ao sofrimento. Parece que regredimos a antes de Rousseau. Até o século 18, o grande espetáculo de mídia eram os suplícios em público, em alguns casos, precedidos de demorada tortura. Até a década de 1930, se enforcava ou guilhotinava na praça. Fizemos bem em substituir esses shows pela televisão, mas muita gente ainda quer dar vazão a essa barbárie, ao anseio de matar, destruir, fazer sofrer. Gostemos ou não, é mais frequente esse tipo de desrespeito ocorrer contra petistas e esquerdistas do que contra tucanos ou direitistas. Isso significa que ações de desrespeito são mais cometidas pela direita do que pela esquerda. Esse ponto deveria chamar nossa atenção como educadores. Uma parte de nossa sociedade, mesmo tendo dinheiro, está sendo mal-educada. Não respeita os princípios do convívio social, a ponto de violar o último bastião do respeito, o silêncio perante a dor ou sofrimento alheio. Era o refúgio da humanidade. Parece que nem isso."

Bem, vamos pensar um pouco: nos tempos em que os tucanos (que são tidos como "direita" no Brasil, sabe-se lá o porquê) governavam, estes eram os principais alvos de desrespeito. Os petistas assumiram o poder e, por sua vez, tomaram o lugar dos tucanos como alvo. Logo, é mais frequente esse tipo de desrespeito ocorrer contra quem (apoia quem) está no poder. Isso claro, admitindo a tese de que esse tipo de desrespeito tenha como alvo mais frequente os esquerdistas (o que é muito discutível). Mas mesmo que a ideia defendida pelo Sr. Ribeiro seja verdadeira, ela ignora um aspecto muito importante: a proporção do ato. Digo isso porque na mesma semana em que Guido Mantega foi hostilizado com agressões verbais, pessoas que demonstravam oposição ao ato em defesa da Petrobras no Rio de Janeiro eram tratadas na base da porrada. E, como dito antes, no mesmo dia Lula ameaçou convocar o "exército de Stédile" (a.k.a. MST). Um mês antes, o blogueiro Fernando Holiday foi ameaçado por alunos da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo) devido às suas opiniões. Ano passado, um dono de um trailer de lanches teve sua Kombi pichada pelo fato de seu dono ser contra o PT, e estudantes da UnB que eram a favor de Aécio Neves foram atacados com insultos racistas. Sem falar do ataque à sede da editora Abril promovido por um coletivo ligado à União da Juventude Socialista (UJS). E se eu quiser voltar mais alguns anos no tempo, quem não se lembraria das pedradas dadas pelos professores paulistas em greve no então governador Mario Covas, logo após a declaração de José Dirceu em dizer que eles tinham que apanhar nas ruas e nas urnas?

(Fonte da imagem: Fernando Holiday/Divulgação/Facebook)
Pergunto aos leitores deste blog: por acaso temos um "exército" para colocar nas ruas para bater em esquerdistas? Ou temos coletivos de jovens atacando as editoras que fazem a Carta Capital, Caros Amigos, Revista Fórum, entre outras? Juntamos pessoas para ameaçar esquerdistas em instituições de ensino? A propósito, você conhece quantas pessoas de direita em sua escola ou faculdade? Ou, pelo menos em sua sala? Percebe-se, nos exemplos do parágrafo anterior, que mesmo levando em conta de que as ações de desrespeito da direita sejam de fato mais frequentes (repito: se levássemos em conta, o que é discutível no mínimo), os esquerdistas foram muito mais truculentos em suas ações. Mas já é difícil explicar, por exemplo, a diferença entre propina em um cartel de trens e compra de votos para submeter o Legislativo ao Executivo. Imagine explicar a diferença entre xingar alguém no Twitter/Facebook/Whatsapp/Tinder e descer a porrada em quem acha que o Estado não deve controlar tudo. E chamando-o de fascista.

"Há um problema no modo como a oposição conduziu nestes anos a discussão política no Brasil. Ela a reduziu a uma crônica policial. Em vez de construir projetos alternativos de qualidade – e poderia, sim, ter proposto para o País coisa melhor do que o PT fez, ou pelo menos coisa boa, que preservasse as conquistas sociais do petismo e promovesse por exemplo o pequeno empreendedor -, limitou-se a torcer para que polícia, promotores e juízes fizessem o trabalho que ela não conseguia ou não queria fazer. O resultado é que parte significativa da população, em alguns poucos Estados, como São Paulo, criminalizou a simples simpatia pelo PT."

Ué, e ela não construiu projetos alternativos, muitas vezes tímidos ao ponto de parecer quase um cosplay do projeto do próprio PT em muitos aspectos, apenas apresentando alguns upgrades pontuais? E outra: que culpa tem a oposição nesse sentido se o próprio PT prefere tratar seus malfeitores como heróis, vítimas de um "tribunal de exceção", como foi no julgamento do Mensalão? É óbvio e evidente que essa postura dá a entender que o partido é conivente com criminosos e, portanto, deve ser, de certa forma "criminalizado". Quem nutre alguma simpatia com o PT deveria reclamar da postura de seu partido quanto a isso, e não culpar a oposição.

"Isso traz uma consequência preocupante: quando o outro lado é visto como criminoso, é claro que não pode ser tratado com respeito. Uma coisa é reconhecer a vitória eleitoral de um adversário, outra a de um inimigo. Ora, se o adversário é pintado como ladrão, ele se torna inimigo. Isso deslegitima, aos olhos de uma parte minoritária, mas falante da população, o próprio processo eleitoral – e a própria democracia. Voltam alguns a querer a intervenção cirúrgica dos militares, para que rapidamente sanitizem o ambiente e o deixem pronto para os homens de bem exercerem o poder. É um 1964 redivivo, com a diferença de que os militares não querem mais esse papel, os empresários serão malucos se trocarem Joaquim Levy por uma aventura de tal ordem e a embaixada norte-americana certamente não quer criar problemas novos para seu país. No pequeno varejo das lanchonetes, das praças de alimentação, das filas de cinema e de supermercado, isso pode tornar impossível o convívio entre diferentes. Perde quem só frequenta seus próprios clones e não saboreia a diversidade de opiniões e valores."

Mas ora, por que ele é pintado como ladrão? Talvez seja pelo motivo que eu disse no comentário anterior: conivência e leniência. Junte isso aos ataques contra quem ainda faz questão de denunciar os erros cometidos por altos membros do partido e o resultado dificilmente seria outro: desconfiança de parte da população. Repito: quem ainda nutre alguma simpatia pelo PT, mesmo que eu não concorde em nada com as ideias apresentadas, está reclamando com a pessoa errada. Quanto à questão da diversidade de opiniões e valores, é importante destacar que isso é apenas possível quando os dois lados querem se entender. E arrisco a dizer que o lado antipetista quase sempre cedeu mais. Sem sucesso.

Enfim, Sr. Ribeiro, pode segurar que o filho é mais teu do que meu.

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