As lições de "O Mapa e o Território" - Parte 2

(Fonte da imagem: The New York Times)

Confira a primeira parte da resenha AQUI.


O último artigo do mês de janeiro no Minuto Produtivo é a continuação da resenha do livro O Mapa e o Território, do economista e ex-presidente do Federal Reserve Alan Greenspan, cuja primeira parte você pode conferir no primeiro link desta postagem. Apenas a título de recordação: no primeiro capítulo o autor falar sobre os aspectos comportamentais que são relevantes para a economia; no segundo, uma descrição da crise de 2008; no terceiro, um detalhamento das causas da crise; no quarto, uma breve descrição sobre a bolsa de valores e o mercado de ações; no quinto, aspectos sobre regulamentação do mercado financeiro; no sexto, o peso da informação e (principalmente) de sua velocidade nas decisões econômicas; e, por fim, o sétimo, fala do efeito negativo da incerteza sobre os investimentos. Finalizado o momento de flashback, irei utilizar a segunda parte para comentar sobre os sete últimos capítulos do livro de Greenspan, sempre tentando relacionar alguma coisa com alguns dos mais de quinhentos posts deste blog.

O oitavo capítulo possui um título bem claro e contundente em seu objetivo. Com o título "Produtividade: a medida final do sucesso econômico", o autor destaca o papel do indicador citado para o bom desempenho da economia de país, bem como a dificuldade de se prever suas oscilações ao longo do tempo, as métricas utilizadas para se medir a produtividade, as dificuldades de se prever a inovação, os fluxos e refluxos da produtividade nos EUA e no exterior, sendo que Greenspan atenta para o fato de que países mais abertos politicamente tendem a uma maior abertura a ideias inovadoras, o que estimula a produtividade, o tempo necessário para a implementação de ideias que visam o aumento da produtividade, o aspecto financeiro da produtividade, a redução dos materiais físicos necessários à fabricação de produtos e a relação disso com o crescimento da produtividade e os limites dessa miniaturização. A meu ver, um ótimo capítulo para quem gosta de acompanhar um histórico sobre um tema tão importante.


Logo após, o nono capítulo ainda trata da produtividade, desta vez falando do efeito gerado pela concessão de direitos sociais neste indicador. E o economista já aproveita para tocar o dedo na ferida no início do capítulo, ao falar do jogo de palavras utilizado pelos governos ao tratar certas coisas como direitos, ainda que isto represente custos à população e que nem sempre são suficientes para garantir a solvência do sistema criado para gerir estes benefícios e o efeito dessa concessão de benefícios nas campanhas políticas, que acabam deixando os partidos "reféns" (algo que se percebeu nas últimas eleições). Além disso, fala-se também no efeito deletério que essa concessão cada vez maior de direitos produz na situação fiscal de um país, nas poupanças privadas e, por fim no investimento de capital. Ao final do capítulo, o autor cita o exemplo dos EUA neste caso, que nas últimas décadas viu uma ascensão cada vez maior da concessão de benefícios sociais e uma situação fiscal cada vez mais preocupante, com implicações inclusive mundiais.

Em seguida, no décimo capítulo, Greenspan resolve falar do aspecto cultural nas decisões econômicas dos países, sendo que o autor demorou bastante em detalhar a adoção do euro como moeda única em boa parte dos países da União Europeia. Como citado pelo ex-presidente do Fed, tinha-se a ideia de que a adoção da nova moeda faria com que Portugal, Itália, Espanha e Grécia, as economias mais atrasadas do bloco, adotassem uma política econômica mais responsável, o que se revelou um ledo engano posteriormente. Ele também cita os efeitos culturais nas medidas econômicas adotadas pelo Japão e em outros países, bem como os efeitos disso na formação de poupança, na governança dos países, no estado de direitos e no controle da corrupção, entre outros indicadores.

No décimo primeiro capítulo, o autor resolve abordar diversos temas políticos e econômicos: o início do processo de globalização, a questão da desigualdade de renda (e os efeitos da escolarização neste ponto), a necessidade de se rever a política (nos EUA) que garante o avanço dos benefícios sociais sem afetar a economia, que serve justamente como base de sustentação de tais benefícios, a concorrência e liberdade de entrada de novos players nos mercados como motor do capitalismo, o conceito de "destruição criativa", a relativa "imparcialidade" dos mercados e os "grandes demais para falir" como precedente para o capitalismo de compadrio. Tal como o oitavo capítulo, possui um bom histórico e uma boa descrição dos temas.

O décimo segundo capítulo, o economista resolve abordar sobre a questão da moeda e da inflação: Trata-se de uma leitura bastante árida, tal como o quarto e o sexto capítulos (ver a primeira parte da resenha no link do início deste post). Particularmente eu esperava uma exposição mais razoável do tema no livro dele.

Depois disso temos o décimo terceiro capítulo, que fala sobre a necessidade que tanto o setor público como o privado tem de acumular capital para proteger e modernizar suas infraestruturas, bem como as questões políticas por trás das decisões em torno disso. Outro capítulo de leitura bastante árida.

Por fim, temos o décimo quarto capítulo, em que Greenspan resolve sintetizar tudo o que foi falado nos treze capítulos anteriores, tanto os aspectos econômicos como os políticos, sempre, claro, com foco nos EUA.

O meu comentário final é que, tal como os sete primeiros capítulos deste livro, os sete últimos são bastante interessantes para aqueles que gostam de uma boa discussão sobre economia. Acredito talvez que o último capítulo foi desnecessário e os dois anteriores necessitavam de uma abordagem mais detalhada, uma vez que tratam de temas importantes para a economia de qualquer país. Os destaques positivos nesta segunda metade do livro ficam por conta do nono e décimo primeiro capítulos, que deixam claro que uma política de benefícios sociais só é sustentável com uma economia forte com produtividade crescente e que um capitalismo de compadrio acaba sendo prejudicial à sociedade como um todo.

Desde já, peço desculpas a vocês, leitores deste blog, em demorar a fazer a segunda parte da resenha deste livro, uma vez que prometi este post para o início do mês passado. Algumas atividades acadêmicas me atrapalharam de dar sequência aos meus textos por aqui. Mas posso dizer que finalmente voltei. Obrigado pela compreensão.

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