Observações sobre o senso comum 3 - A batalha final

A elite branca de olhos azuis no protesto. (Fonte da imagem: Ronaldo Caiado/Facebook)
1. O que foi o fato social?

Ontem, dia 15/03/2015, domingo, foi um dia épico para a democracia brasileira; embora a grande mídia muito relutantemente comece a dar o braço a torcer, fica muito evidente que o “coxinhaço” (que é como tem sido apelidado por petistas e simpatizantes da esquerda política) foi obviamente uma manifestação popular de centro-direita. Não pode haver prova mais cabal do que consultar o ideário político dos organizadores principais, que são o Movimento “Vem Pra Rua” e o “Movimento Brasil livre”. O primeiro, “Vem pra Rua”, é um grupo mais próximo do liberalismo social e da terceira via; o segundo, “Movimento Brasil Livre”, é claramente um grupo defensor do liberalismo austríaco. Ou seja temos dois grupos políticos que se estendem do centro até a direita.

Há ainda os minoritários do “Revoltados Online” (orientação mais conservadora) e do “SOS Forças Armadas” (nacionalistas de direita); mas estes, já a muito tempo, sofrem a rejeição dos organizadores majoritários. Uma prova do caráter moderado (e não extremista como alega o governo) dos protestos são vistas em dois fatores centrais.

O primeiro está centrado no fato de que MBL e o “Vem Pra Rua” procuram, cada um ao seu modo, saídas institucionais para a crise do governabilidade instalada no país além da crise econômica. Um (VPR), postula um enrijecimento da oposição, literalmente não deixar governar, travar pautas, etc. O segundo (MBL) postula um pedido de impeachment da presidente de Dilma Rousseff.

Golpistas sim, são os demais citados acima, que procuram intervenções militares (leia-se golpe de estado). O segundo fator repousa sobre um fato inusitado ocorrido ontem em São Paulo, onde um grupo neofascista chamado “Carecas do Subúrbio” (skinheads) foram hostilizados e quase linchados pelo povo na rua. O grupo de extrema-direita carregava nas mochilas rojões, facas e um soco inglês.

Aos gritos de: “Polícia! Polícia!”,os manifestantes comemoraram a prisão dos neofascistas. E também, não pode-se deixar de mencionar, o fato de que Jair Bolsonaro foi impedido pelos organizadores de discursar sobre um dos carros de som no Rio de Janeiro.

As reações do governo e dos simpatizantes da situação tem sido variadas, desde discursos descontentes porém moderados até urros de ódio e gritos de raiva. Os discursos dos ministros Rosseto e Cardozo foram ideológicos, demonstrando enorme descontentamento e desqualificando a manifestação, apesar de reconhecerem que não houve nada de antidemocrático nelas. Aproveitaram, é claro, para promover uma pauta surrada e já rejeitada pelas ruas de “reforma política” em que se proíbe o financiamento privado de campanha. Proposta que aumentaria ainda mais o poder econômico da situação sobre a oposição, centralizando ainda mais o poder no partido mandatário. Nas redes sociais, ao contrário, gritos de ódio e urros de revolta são vistos por todos os lados.


É óbvio de que se trata de um discurso alienado. Já que o PT gosta muito de falar de golpe, lembraremos 1964 aqui. A esquerda hoje, como naquela época leva uma porrada e não sabe da onde veio. A diferença reside especificamente em dois fatores, um de natureza política e outro de natureza tecnológica. O primeiro, de natureza política, reside na institucionalidade do ato, ao passo que em 1964 foi exigida uma ação extra-constitucional. O segundo, de natureza tecnológica reside no fato de que em 1964 não havia internet. Todos os organizadores não possuem qualquer relação com a chamada “grande mídia” e nem vínculos com os partidos tradicionais, ao contrário da organização golpista da década de 1960.

Para ser mais exato, a grande marcha de ontem que teria reunido segundo a PM, 1 milhão e 200 mil pessoas na Avenida Paulista, foi apenas o ápice, o resultado final de um longo e intenso movimento e auto-organização que vêm ocorrendo nas redes sociais há anos, e que, sejamos sinceros de fato! Começou com o filósofo e jornalista Olavo de Carvalho. Não há nenhum outro grande responsável por tamanho grau de ideologização. Existem, é verdade, outros grupos de apoio virtual, para sermos mais exatos nos referimos aos dois think tanks do liberalismo econômico: Instituto Millenium e Instituto Ludwig von Mises – Brasil. A Revista Veja entra apenas como um catalizador político, uma vez que ela passa a dar voz em sua página enormemente visitada a essa voz descontente que já vinha influenciando enormemente as pessoas por meio de canais como YouTube (onde Olavo de Carvalho realizava um enormemente popular talk show chamado True Outspeak) e do Facebook, onde Rodrigo Constantino participava ativamente de fóruns de debate e discussões virtuais muito movimentados. Assim sendo, através da contratação de representantes destes movimentos auto-organizados da internet, a revista Veja ampliou o alcance destes indivíduos: daremos nomes aos bois para facilitar logo de cara: Rodrigo Constantino, presidente do instituto Millenium e que foi, durante anos, colaborador do Instituto Mises Brasil e o já apelidado por mim de “Sônia Abrão do facebook” Felipe Moura Brasil, que ajudou a publicar pela editora Record o livro de Olavo de Carvalho, o best seller, “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”.

Portanto acusar a grande mídia como causadora de toda esta situação é demonstrar claramente que não sabe o que está acontecendo, mais perdido que cego em ensaio de bateria de escola de samba. Ou ainda, que se está levando sopapos e bordoadas de lugares que não se consegue ver. Ela esteve majoritariamente de fora do processo, com a única exceção da revista Veja.

1.1 – O desespero da esquerda

Talvez o grande desespero da esquerda foi ter perdido o hype do povão como diria o cantor Lobão. É muito evidente que, após o contato evidente da população com a assim chamada “nova direita”, a população passou a ter um novo parâmetro de comparação dos discursos políticos e, acabou como era de se esperar, percebendo que o discurso PT x PSDB não eram tão diferentes assim. Enquanto o PSDB assume a voz do trabalhismo moderno, como o de figuras como Tony Blair e Anthony Giddens; o PT oscila entre o bolivarianismo chavista ou madurista e o velho trabalhismo de caráter varguista.

Um dos grandes motivos de urros por parte da esquerda foi a percepção de que o povo recebeu acaloradamente, com abraços, aplausos e gritos de apoio o senador do DEM Ronaldo Caiado e o deputado estadual gaúcho Marcel van Hattem, da ala ideológica do PP gaúcho. Como se não bastasse isso, a cena final, a cereja no topo do bolo, foi a constatação e que, ao invés de destruir coisas e agredir a Polícia Militar, a população tirou selfies e pediu autógrafos a membros da Tropa de Choque. Isto soaria como se a população virasse para a dupla PT e PSOL e dissesse:

- Olha! Nós cansamos desse seu discursinho dos “frascos e comprimidos” e de sermos chamado de fascistas. Enfia essa porra de discurso no seu cu!

Se no passado PT e PSOL se gabavam de serem representados pela parcela mais esclarecida da população, hoje se veem forçados a argumentar que a classe média branca, fascista e cisgênero é quem estava nas ruas e que portanto, a passeata de protesto representa apenas a “elite”. Pois bem, há muitas razões para não termos muitas pessoas pobres nessas manifestações. Vamos a algumas delas.

Petistas, brancos e de classe média. (Fonte da imagem: Memorial Sebrae)
Pessoas de classe média tem mais acesso a conteúdos literários (A Folha de São Paulo chamou atenção para o mercado dos livros de direita), informação e a uma melhor educação, portanto são perfeitamente capazes de compreender o que se passa no país, ao passo que a população mais pobre é, quase sempre, alienada do processo político. E isso não é de hoje, se retornarmos a alguns anos atrás, ao famoso “Fora FHC!” da Marcha dos 100 mil para Brasília, em que só apareceram 75 mil pessoas, veremos que a maioria das pessoas também eram de classe média.

Pessoas mais pobres normalmente moram regiões mais afastadas do centro financeiro da cidade, e em cidades como São Paulo isso faz muita diferença, onde o transporte público possui qualidade apenas razoável e os custos da passagem estão em franca ascensão. Portanto, para um simples assalariado, dispor de seu orçamento para ir ao centro urbano da cidade para um protesto no final de semana representa abrir mão de parte de seu orçamento para fazer o mesmo trajeto durante os dias de semana para trabalhar. Não é uma escolha tão simples, principalmente quando a gasolina e a energia sobem mais de 30%, o dólar chega a R$ 3,30 e a inflação raspa nos 8%.


Ache um negro. (Fonte da imagem: Nelson Naibert)
Ainda hoje a mídia governista faz reportagens declarando ódio as manifestações ou simplesmente menosprezando-a. A raiva da situação é tão grande que ela contaminou a blogosfera com xingamentos e ofensas. Até mesmo o The Guardian, jornal tradicionalmente aliado do Partido Trabalhista, caracterizou ideologicamente a manifestação. Por outro lado, o jornal Ceará Agora argumentou contra a tese governista de que a manifestação representa uma elite de ricaços racista.

1.2 – MBL e Partido Novo

Alguns dias atrás fiz um post de conselhos ao Partido NOVO, gostaria de dedicar essa parte final do ensaio para fazer um adendo ao referido post. Seria de extrema inteligência do ponto de vista estratégico transformar o MBL, a longo prazo, gradativamente num apoio social do Partido. Digo o porquê:

O Partido dos Trabalhadores só tem tamanha força porque possui uma base social que o conecta ao seu eleitorado. Estão presentes nos sindicatos, universidades, escolas, movimentos estudantis, igrejas e etc. Aliás, antes mesmo de ser partido, o PT já tinha esta influência. O GOP (Partido Republicano) também possui grupos junto a sociedade que representam e lavam suas ideias ao povo, temos os exemplos do Tea Party.

Na Alemanha, a CDU também está presente em sindicatos, em igrejas e universidades.

Parece-me vital para o Partido NOVO trabalhar com essa perspectiva, e o MBL pode ser esse braço social do partido, estando em contato com a sociedade e com as comunidades carentes principalmente, pois elas que mais são penalizadas pelo populismo e pela demagogia.

Fica aqui, então, a minha sugestão.

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