Sobre protestos e fiscalismos

(Fonte da imagem: André Assi Barreto/Facebook)
É bem provável que em algum momento vocês já tenham lido ou escutado que conservadores são "fiscais do oco alheio" (usei "oco" para não falar outra coisa), no sentido de querer proibir o casamento gay e coisas do tipo. É uma visão que, infelizmente, alguns adeptos do conservadorismo realmente acreditam que para estar neste grupo é necessário adotar tal postura. Duro é explicar que não é preciso ser fiscal de oco alheio para ser conservador. Não sei se quem acompanha este blog há mais tempo lê a descrição do meu perfil a cada postagem, mas para ciência dos navegantes, esta "voz conservadora de centro-direita que fala no deserto" que vos escreve caga e anda para o que você faz com seu companheiro ou companheira ("@" e "x" é uma ova!) entre quatro paredes. Não vou dar uma de Levy Fidelix para dizer que "aparelho excretor não reproduz", assim como não vou bancar uma Luciana Genro ou Jean Wyllys para aplaudir e achar fofo cada beijo gay transmitido na "golpista" e "reacionária" Globo.

"Mas vem cá, o que isso que você disse tem a ver com a imagem de abertura do post?", pergunta um leitor.

Nos últimos dias, com o advento dos recentes protestos contra a presidente Dilma Rousseff (algo muito bem analisado pelo meu colega de bancada Arthur Rizzi), ressurgiram entre os esquerdistas pelo menos dois tipos de fiscais, que conseguem ser tão ridículos - ou até mais - quanto os "fiscais de oco" que transformam os conservadores em espantalho: os fiscais de melanina e os fiscais de conta bancária (às vezes, as duas coisas juntas). Não que eu não tenha abordado sobre o tema antes (durante a Copa do Mundo um dos meus posts foi justamente para comentar sobre essa péssima postura), mas parece que agora alguns resolveram perder o senso de ridículo ao usar de forma tão recorrente essa prática.

(Fonte da imagem: página do MAV/Facebook)
Um exemplo dessa tentativa desesperada (e como disse anteriormente, ridícula) de desqualificar os protestos você pode conferir na imagem acima, como se o fato de ser branco tornasse a manifestação menos válida, ou mesmo inválida. A propósito, nem dá para afirmar que essa foto, de fato, é de Salvador. Vai que tenham escolhido Salvador justamente pelo fato de ser a capital mais negra do país (em torno de 30% da população da cidade é negra, e quase 80% de negros e pardos somados), o que reforçaria a imagem negativa de quem saiu as ruas para protestar. Aliás, mesmo se fosse em uma capital sulista (onde a população negra é ínfima) o "argumento" pífio seria o mesmo. E, de fato, foi. Apenas para finalizar este ponto, aguardo receber meus privilégios apenas pelo fato de ser branco, já que me dizem que sou privilegiado por isso, não é?

Outra tentativa patética de argumentação, tal como disse na época da Copa, é querer desmerecer o que aconteceu no dia 15 pelo fato de que quem saiu às ruas eram "classe média" (neste caso, a definição tradicional, e não aquele arremedo da SAE que faz de um simples estagiário como eu pertencer àquele seleto grupo). E daí? O fato de ganhar mais na conta bancária o torna menos cidadão e com menos direitos, inclusive o de reclamar quando o estado de coisas está ruim? Aliás, se eu fosse aplicar esse pensamento a algumas manifestações - me refiro aos protestos de massa, e não ao pão com mortadela da sexta-feira 13 - apoiadas pelos esquerdistas (principalmente se eu recorrer ao uso de fotos recortadas) e tivesse que chutar uma porcentagem aleatória eu diria que pelo menos 80% de quem estava nas ruas pelos 20 centavos ou pela tarifa zero deveriam voltar para casa então. Principalmente os estudantes universitários, que, apesar das medidas afirmativas, continuam sendo majoritariamente pertencentes às classes mais altas (resumindo: gauche caviar). O mesmo valeria para black blocs, por exemplo.

Protestar contra um sistema que te permite ter uma Abercrombie? (Fonte da imagem: Divulgação/Facebook)

Ache o pobre. (Fonte da imagem: ver link na mesma)
Por fim, outro argumento que consegue ser ainda mais tosco que os demais para dizer que as manifestações do último domingo não foram válidas foi dizer que quem foi para as ruas no dia era "mais idoso" (tudo bem, o argumento foi encampado pelo jornal britânico The Guardian, mas igualmente abraçado pelos esquerdistas daqui). Ora, o que de mal tem em alguém mais velho protestar? A opinião de quem tem vivência e experiência não pode ser levada em consideração? E já que esquerdistas adoram mandar os demais "estudarem história" quando contrariados, cito um exemplo de um período histórico em que idosos foram desprezados: Revolução Cultural Chinesa (ver uma breve descrição aqui e aqui). Diga-se de passagem, no mesmo período milhões morreram no país asiático devido às ações promovidas por Mao Tsé-Tung.

Enfim, eu poderia citar outros tipos de fiscais, mas creio que esses três exemplos são o suficiente de que a reação esquerdista demonstra falta de senso (falar de bom senso seria exagero de generosidade). Além disso, a Reaçonaria fez uma boa compilação dos demais "fiscais", e você pode conferir aqui e tirar suas conclusões.

Até a próxima.

UPDATE: A última pesquisa do Datafolha aponta 62% de desaprovação do governo Dilma Rousseff. Quando se estratifica por faixas de renda, ela varia de 60% (até 2 salários mínimos) para 65% (acima de 10 salários mínimos). Como muito bem lembrado pelo Alexandre Borges (colunista da Reaçonaria), trata-se de empate técnico, uma vez que a margem de erro é de +/- 2 p.p..

Todos viraram elite branca agora. Certamente.

(Fonte da imagem: Folha de S. Paulo)

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