A velha e negligenciada verdade do Gênesis e o relativismo moral

A árvore da vida de Robert Fludd (Fonte: newtopia magazine)

Bereshit, esse nome esquisito é o nome verdadeiro do livro que os cristãos conhecem por Gênesis. Porque eu trago aqui essa afirmação inicial aparentemente sem qualquer conclusão, como se fosse uma resposta a uma pergunta teológica que ninguém fez? Simples. Bereshit do hebraico signifíca "no início", "no princípio". Essa revelação nos traz um dado interessante, o homem moderno, tão preocupado com o futuro e com o ideal do "progresso", se esqueceu de olhar pro passado, pro início de tudo. E acredite caro leitor, muitas respostas estão lá no início, acredite você que o Gênesis é um livro factual que narre o nascimento do mundo, ou acredite nele apenas como um conjunto de metáforas esotéricas e profundamente filosóficas. Seja como for, em ambos os sentidos que você tomar o Bereshit, tu irás encontrar as respostas as quais eu me refiro.

A árvore do conhecimento do bem e do mal é uma figura muito conhecida. Já foi representada várias vezes sob as mais diversas formas, desde uma simples macieira, até a um místico e impreciso conceito cabalístico que se contrapõe ao complexo fluxograma da Árvore da Vida (acima).

Para muitos, o pecado de Adão e Eva ao comer do fruto da árvore foi a busca do conhecimento. Isso significa que Deus é contra o conhecimento? Bem, este é um debate teológico que não convém aqui, mas antecipo minha resposta para um possível futuro post: Não, o saber, o logos, é a essência de Deus e, portanto, ele não pode ser contra o saber. Aliás, o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard já apontava essa correlação em "O conceito de angústia".

O que é interessante notar é que ao impedir os primeiros humanos (creia você nisso objetivamente ou metaforicamente) de comer o fruto, Deus estava-os impedindo de obter o conhecimento moral (a ciência do bem e do mal). O filósofo Olavo de Carvalho em "O Jardim das Aflições" (2015) chama a atenção nas página 84 que, do conhecimento objetivo da realidade é que nasce o conhecimento da moral e que, portanto, ao negar uma verdade objetiva da qual se está consciente, a pessoa que assim o faz está castrando a própria base sob qual nasce o senso moral. 
Após ter solapado as bases morais de todo critério moral objetivo, ele (o ser humano), continuará a ter ódios e afeições, repugnâncias e desejos, que, na esfera individual, farão brotar outros tantos correspondentes juízos morais elaborados racionalmente. Não podendo suportar indefinidamente a insegurança de admitir que esses juízos são meras preferências subjetivas, não melhores ou piores do que quaisquer outras, ele cairá na tentação de argumentar a favor delas, de lhes dar uma expressão e fundamento intelectual; e ao fazê-lo, criará um novo critério de moralidade, que não consistirá em outra coisa se não na ampliação universalizante dos gostos perversos de um indivíduo.
Deus não estava impedindo os primeiros humanos de conhecer a realidade objetiva através de negá-los a distinção do senso moral, mas sim impedindo-os de tentar fazer isso por si próprios, tendo a si mesmo como medida, pois o próprio Deus é o sumo bem e a fonte de toda e qualquer objetividade de qualquer pretensão de conhecimento, portanto, estar com Deus era estar com o conhecimento verdadeiro e com a moral verdadeira. E quando o homem toma a si mesmo como medida pra tudo, inclusive pro senso moral ao negar a realidade tal qual ela se apresenta, ele está criando uma moralidade amoral.

O homem quando toma a si mesmo como medida de tudo, quando acessa o conhecimento objetivo sozinho, cria o seu próprio conceito de bem e mal. A ciência moderna não nos cansa de mostrar. A pesquisa nuclear deu-nos uma fonte de energia limpa: A energia nuclear que, em condições normais, não polui o meio ambiente. Mas ela também nos deu o poder de matar milhões de pessoas com ogivas nucleares. O conhecimento sobre a própria psique humana nos permitiu aprender as melhores formas de ensinar e educar, as que apresentam os melhores resultados no ensino da leitura como no trabalho do psicopedagogo Reuven Feuerstein e do neurologista Stanislas Dehaene. Por outro lado foi capaz de criar um complicadíssimo processo de escravização da mente humana, desde o tetrafármcon de Epicuro até a coroadíssima Programação Neurolinguística - PNL. Esta última, em especial, se baseia no estímulo contraditório sucessivo até levar a mente humana ao colapso. Normalmente esse processo de escravização mental começa com a negação de verdades objetivas seguidas de afirmações e novas negações e, na sequência passando a verdades morais, negando-a e afirmando-a sucessivamente até que no final da contas a mente humana ou trate tudo como imoral ou como moral as mais terríveis absurdidades.

É óbvio que a modernidade e a pós-modernidade está repleta dessa mentalidade centrada no homem para tudo até a raiz. A diferença é que até certo ponto a modernidade se amparava na noção de "natureza humana", que impedia as deformações morais mais abjetas. Porém, o século XX nos apresentou uma novidade, a rejeição da natureza humana. Isso foi possível graças a negação da unidade da humanidade como no Nazismo ao quebrá-la em "raças humanas", ou no caso do comunismo, na crença de que a natureza humana não existe e de que o homem do mundo comunista será diferente em essência do homo economicus. Não é por acaso que tivemos (e ainda temos) a justificativa para o injustificável ato de genocidas como Adolf Hitler e Josef Stalin, e também não foi casualmente que nesse período foi o boom das pesquisas sobre lavagem cerebral e métodos de destruir a psique humana rebaixando-a a serva de qualquer poder. Aldous Huxley e George Orwell estavam denunciando em suas obras algo que eles temiam. 

No pós-1945 a coisa então piorou com Sartre e Foucault negando qualquer natureza humana e negando qualquer verdade objetiva. Tudo é só poder. Tudo aquilo que dá poder a um grupo é considerado moral. Foucault ensinou que toda "verdade" de uma epistéme são na verdade os conceitos morais impostos por algum poder explorador a toda humanidade oprimida; embora as pessoas a quem Foucault acusava de ser esse poder não acreditem nele, seus discípulos acreditam e fizeram de suas abjeções morais a verdade de seu movimento em busca de poder. Temos aí o abortismo militante e até o transhumanismo. O movimento dos foucaultianos encarnam melhor que a atual sociedade cristã sobrevivente do monstruoso mundo moderno, a nova moralidade serva de algum poder político ascendente.

Tudo isso começou com uma coisa simples. Esquecer uma verdade escondida na árvore da ciência do bem e do mal, no início de tudo. A verdade objetiva existe e a moral verdadeira independe de nós.

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