Joaquim Levy: ora ministro, ora bobo-da-corte

Joaquim Levy, o "neoliberal clássico". (Fonte da imagem: Montagem/Arthur Rizzi)
O segundo mandato de Dilma Rousseff caminha para os 120 dias, e certamente em um estágio de deterioração que nem em minha visão mais pessimista fui capaz de imaginar, seja no cenário econômico, seja no cenário político. Enquanto o partido da presidente se articula contra o projeto de lei que regulamenta e flexibiliza a questão das terceirizações no país  - e felizmente sofreu hoje uma derrota - a própria presidente praticamente terceirizou o seu governo: a articulação política está nas mãos do vice-presidente Michel Temer, que por sua vez terceirizou (ou foi forçado a terceirizar) o papel para Eduardo Cunha e Renan Calheiros (não, a santidade passa longe deles, mas só de ver o Legislativo parando de apenas assinar os "cheques em branco" do Executivo já me sinto um pouco mais feliz); na economia, enquanto isso, o "trabalho ingrato" foi parar nas mãos de Joaquim Levy, que como disse no ano passado, era um "drink gelado" no "inferno" que estaria por vir na economia brasileira a partir deste ano. E é sobre a atuação dele que irei falar hoje.

Sendo direto ao ponto e principalmente se levarmos em conta a engessada situação fiscal do país, o "neoliberal clássico" (Tico Santa Cruz intensifies) está fazendo um trabalho razoável. Até porque não teria como fazer pior que Guido Mantega, astrólogo que por acaso se tornou o Ministro da Fazenda mais longevo no cargo (na verdade teria se desse continuidade à política econômica de seu antecessor). Apesar disso, corre-se o risco do único legado de Levy, este "neoliberal clássico", ser, ironicamente...Aumento de impostos. Já não fazem mais Chicago-boys como antigamente. Que Milton Friedman o tenha.

Mas para entendermos o papel duplo de Levy no comando da área econômica, é importante entendermos o papel duplo de Guido Mantega, seu antecessor. Tanto este como esse possuíam e possuem dois papeis: um é o de Ministro da Fazenda, condutor da área econômica; e outro o de bobo-da-corte, com o papel de alegrar a presidente e os mercados (não, mercados não são meia dúzia de empresários e bancos malvadões que se não fossem o Estado tirariam a comida da mesa de milhões de brasileiros, mercados são meros meios de alocação de recursos, e ponto). É bom que se faça bem o segundo papel, mas é fundamental que se priorize e faça bem o primeiro. O problema é que Mantega preferia fazer o papel de bobo-da-corte, muitas vezes fazendo humor involuntário por conta de suas previsões infactíveis, seja para o PIB (ele não acertou uma sequer no primeiro governo Dilma), seja para o dólar (pergunto aos navegantes: quem apostou na alta do dólar naquela época realmente quebrou a cara?). Quando sobrava tempo, aí sim, ele era o Ministro da Fazenda, e sua atuação no primeiro mandato de nossa presidente foi aquilo que nós vimos nos últimos quatro anos. Resumindo: Mantega era sofrível - isso sendo bem generoso - como bobo-da-corte e desastroso como Ministro da Fazenda. O resultado disso é o que estamos vendo agora: retração da economia, servindo inclusive de âncora da América Latina; inflação acima dos 8%; necessidade de se colher juros dada a inflação plantada nos últimos anos (por meio do represamento de diversas tarifas) e de se adotar uma austeridade fiscal, ainda que cambota, como muito bem dito pelo meu colega Arthur Rizzi.

É neste contexto de "terra arrasada" que faz-se necessária a figura de Joaquim Levy. A contragosto de Dilma Rousseff e do PT, que queria muito bem transformar o keynesianismo de quermesse em um Frankenstein com braços de Keynes e pernas de Marx, ela teve de chamar um "mãos-de-tesoura neoliberal clássico Chicago-boy ortodoxo" para as mesmas funções que Mantega exerceu mal e porcamente: a de Ministro da Fazenda, com poderes mais amplos (se comparados ao do antecessor) para fazer o ajuste fiscal, que até as eleições não era necessário; e a de bobo-da-corte, com o papel de divertir os mercados com a promessa de que finalmente farão a coisa certa.

(Fonte da imagem: Veja/Meme feito pelo editor)
Como disse anteriormente, Levy está fazendo um razoável papel como Ministro da Fazenda. Não porque as medidas sejam agradáveis, se bem que não há como tomar medidas muito agradáveis a curto prazo, mesmo se fossem as mais acertadas como corte de gastos e redução do escopo da máquina pública (é importante frisar que os efeitos são sentidos em médio e longo prazo, ou seja, só veremos o resultado disso em 2016, na hipótese mais otimista), mas se compararmos ao "plano A" petista, é bem melhor. Como bobo-da-corte...Bem, como bobo-da-corte nosso "neoliberal clássico que aumenta impostos" certamente está se saindo melhor que o antecessor (também, se saísse pior...), mas já ficou perceptível que ele não é essa Coca-Cola toda nesse quesito (podemos até dar um desconto pelo fato do momento não ser de muitos sorrisos, diferentemente das imagens que fazem parte deste artigo). Além de protagonizar episódios de sincericídio, Levy também teve seus dias de Guido Mantega. Em uma reunião do FMI, o Ministro disse que "dívida é [era] útil" e que "o segredo era ser bem administrada e sustentável". Ao pé da letra, ele estaria certo, mas se pensarmos em um país com 2/3 do PIB em dívida pública, cuja nota ainda corre risco de rebaixamento e perda de grau de investimento, o discurso não soa, digamos, esperto.

Outro momento de humor involuntário de Levy foi quando disse que o Brasil era "um dos países mais transparentes do mundo". É importante destacar que neste momento ele estava agindo como alguém que queria "vender o peixe" do governo Dilma, mas é duro convencer de que isso é verdade enquanto o país ainda está na tempestade causada pela Lava Jato (e com perspectiva de se abrir outras "caixas-pretas" pelo menos do mesmo tamanho da existente na Petrobras, que, só para constar, tomou prejuízo este ano). Aliás, convencer dessa transparência quase cristalina é uma tarefa um tanto hercúlea se pensarmos que existem R$ 2,3 trilhões (respondendo àquela pergunta retórica de Ciro Gomes ao Rodrigo Constantino, economista e colunista da Veja, dá trilhão e não bilhão) que estão perambulando nas contas públicas sem estarem contabilizados. Considerando que esse valor, da ordem de 40% do PIB, terá de aparecer mais dia ou menos dia, que só existem duas fontes de financiamento de qualquer país, a saber impostos e endividamento e as informações já ditas anteriormente sobre carga tributária e proporção da dívida pública, a resposta ao "como isso vai parar no orçamento" pode ser - e eu diria até que é - assustadora. Lembrando que a hecatombe grega começou, entre outras coisas, com a descoberta da maquiagem de dados econômicos, algo feito recorrentemente no primeiro governo Dilma e que pode inclusive motivar um processo de impeachment contra ela.

Enfim, mesmo com essas mancadas, Dilma precisa de que o ajuste fiscal e as performances de Levy sejam necessárias e suficientes para restaurar a credibilidade do Brasil. E Levy torce para que nada atrapalhe seu ajuste fiscal, até porque se algo der errado é o "neoliberalismo clássico" quem pagará o pato por algo que praticamente não é culpa dele.

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