Literatura - Pior do que Chavão

(Fonte da imagem: fnac.pt)
Sim, isso que você lerá a seguir é a minha coluna no Minuto Produtivo, embora não se pareça nada com ela... Ou com o que ela usualmente é.

Quando se passa muito tempo lendo livros de teor acadêmico, costuma-se ficar meio alienado de outras formas de entender a realidade. No meu caso, a própria convivência com pessoas normais ficou prejudicada. Então, decidi voltar meus olhos ao senso comum... Dias atrás dei uma pausa em meus estudos para ler um destes livros de modinha, com temáticas bem comuns e fórmulas clichês. O livro é “Primeiro Amor” de James Patterson. Não que eu seja um grande leitor de literatura, pelo contrário, nessa área da literatura eu não tenho muita experiência. Li alguns clássicos apenas, poderia citar como exemplo: “Dom Casmurro” de Machado de Assis, “a Ilha do Tesouro Perdido” de Robert Louis Stevenson, “Os miseráveis” de Victor Hugo, “A Guerra dos Mundos” de H.G. Wells ou ainda, “O admirável mundo novo” de Aldous Huxley, mas não se animem! Mesmo entre clássicos da literatura existem porcarias enormes, como “A revolta de Atlas”, uma aberração da filósofa e escritora Ayn Rand. Já no baixo clero da literatura achei alguns autores que, apesar de uma escrita repetitiva possuem boa criatividade como Tom Clancy e sua "A soma de todos os medos" e Dan Brown com a saga do professor Langdon desde "Anjos e Demônios" até "Inferno", esta última obra com uma temática baseada em parte na “Divina Comédia” de Dante Aligheri.

Apesar do meu escasso conhecimento do meio literário, decidi pontuar algumas críticas severas a esse livro (e em especial a esse tipo de literatura) não só pela sua forma “chavônica” mas como também pela sua pobreza. Se o livro de Patterson tem algum mérito, além de ser extremamente comercial, é o fato de que ele escolhe uma boa forma de revelar a história oculta dos personagens. É muito comum que alguns autores tentem explicar o background dos personagens no começo do livro, dando a ele contornos bem definidos antes de propriamente partirem para a história. Quando isto ocorre, resta ao escritor apenas detalhar certos aspectos e explicar mais profundamente algum fato já mencionado ou acrescentar detalhes.

Patterson escolhe outra via, tudo o que ele dá ao leitor é o aqui e agora e uma justificativa bem pouco profunda das ações dos personagens. À medida que o livro prossegue na sua vacuidade de alma dos personagens, o autor decide liberar informações graduais acerca do passado dos protagonistas, através de memórias, flashbacks, piadinhas entre outros artifícios literários.

Essa é uma fórmula interessante, pois ele faz com que o livro comece do zero, sem emoção e até raso para uma reta final empolgante...Só que não.

Patterson é uma mistura de Nicholas Sparks e John Green, ou seja, se você procura por algo mais “chavônico” e clichê do que isso, vai ficar difícil de achar. Green já é um embrulhão, seu “A culpa é das estrelas” é um pastiche repetitivo de várias fórmulas prontas, apesar de seu “Cidades de papel” denotar uma maior criatividade. Sparks não fica atrás, “Um amor para recordar” é interessante, mas previsível. 

Destarte, as personagens protagonistas são tão equivalentes quanto se possa imaginar, um rapaz que tenta fazer pinta de bad boy, mas não passa de um magrelo hipster que além de usar camisa xadrez, gosta de músicas antigas e de cantores esquecidos. Não podemos nos esquecer ainda de mencionar que ele é apaixonado por carros e motos antigas. A moça, igualmente, é uma hipster que adora discursos politicamente corretos e usa cosméticos feito a partir de materiais orgânicos. Sua personalidade é a do adolescente que cresceu trancado do mundo e que acha que matar aula é um crime incomensurável... E de repente passa a roubar carros e a algemar policiais! Se você está a procura de um livro o que você imagina que o presidente Barack Obama leria, você achou.

O rapaz pseudo-bad boy é do tipo “boiolinha”, isso é, ele é o cara que paga de descolado, rústico e grosseirão mas que no fundo é um menininho de classe média criado a leite com pera, lambedor corneto e que se veste como o Tico Santa Cruz. Como prova de que ele é o rapaz grosseirão que o autor imagina que ele é, Patterson nos dá a terrível evidência... Ele come frituras no McDonald’s! O jovem Robinson demora 146 páginas para dar um beijo na sua consorte... Isso depois de dormir junto com ela numa barraca apertadinha no meio de uma floresta de sequóias onde decidiram acampar... E de passarem noites a fio dormindo dentro de um carro roubado. Nosso herói ainda procurou gravetos de sequóia (???) pra acender a fogueira logo no começo do livro! Você já viu um graveto de sequóia? Graveto de sequóia é aquele galho de três metros que cai no capô do seu carro e que o seu seguro não cobre.

A jovial Axi Moore praticamente implora pra ser beijada e o cara... ZzzZzzzZzzz.

Axi aliás, não é do tipo muito inteligente, sua mãe fugiu de casa, sua irmã faleceu ainda criança, seu pai é um maníaco alcoólatra depressivo e ela decide fugir de casa roubando carros com um amigo esquisito... Se você pensou num pai tentando suicídio você é uma pessoa normal, o que obviamente quem gosta desse tipo de livro não é. Pois bem, outro aspecto extremamente cafona da obra é fato de que o nosso pseudo-bad boy decide sair roubando motos, carros e caminhonetes por vários estados americanos, além de apontar uma arma para um policial e simplesmente nada acontecer com ele! Pior! Os dois deixam um bilhete na moto roubada assim que a abandonam se desculpando com o dono da mesma com a assinatura “MC & Patife”... Eu não sei o que eu faria comigo mesmo se minha moto fosse roubada por um casal de hipsteres que assinam "MC e Patife".

Ao fim do livro, o leitor descobre que Robinson teve câncer assim com sua companheira de estripulias, e que foi neste período de tempo em que ambos se conheceram. A diferença é que Axi está em remissão e Robinson está morrendo. Pois é. Temos aqui mais uma fórmula pronta: o casal apaixonado que é separado pelo câncer... Não poderia haver nada mais John Green e Nicholas Sparks do que isso. Robinson recusa tratamento e segue viagem desde o Oregon até a casa dos seus pais que moram lá na puta que pariu (Carolina do Norte), onde ele virá a morrer. Em momento algum do livro fica claro se o rapaz de fato deu umas “bimbadas” em Axi Moore, o mais perto que ele passou disso foi dar um beijo em uma stripper.

Ao final, Axi faz uma rememoração dolorida de tudo o que viveu com Robinson e fim. O autor não nos diz nada sobre as consequências dos inúmeros crimes praticados por ambos, ao que parece, por uma incrível coincidência de fatores, por uma incrível burrice dos que foram prejudicados por eles, ninguém os denunciou, não se fez um mísero retrato-falado, não se prendeu ninguém, nem por engano; ninguém foi pra cadeia ou foi denunciado... Não é uma maravilha?

Existem ainda algumas outras questões não respondidas, como por exemplo: Como é possível ensinar uma garota a dirigir em uma tentativa só, andando em círculos num quarteirão, e logo depois ela estar dirigindo velozmente em fuga numa auto-estrada após um traumático encontro em que após apontar uma arma para um policial, a própria senhorita Axi algema o mesmo no banco de trás? Ou ainda, como um rapaz com câncer em fase terminal consegue fazer todas essas merdas e ainda desarmar um policial? Enfim, perguntas...Perguntas...

Eu sinceramente torço para que esse livro se converta num desses best-sellers e vire filme em Hollywood, dará uma excelente comédia. Aos interessados nesse tipo de romance teenager, boa sorte... Vocês vão precisar. É incrível como uma literatura tão pobre e tão porca consiga fazer sucesso hoje em dia. Esse tipo de porcaria pode ser usado no máximo como caminho para leituras complexas! Sim, serve no máximo como elemento pedagógico descartável para facilitar o acesso dos jovens brasileiros a leitura, mas fora isso, é obviamente uma leitura emburrecedora e simplória.

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