O "fracasso" dos protestos contra Dilma é, mesmo assim, melhor que o "sucesso" dos protestos a favor

Manifestante nos protestos de ontem, na Avenida Paulista. (Fonte da imagem: El País)
Ontem, novamente, foi o dia dos brasileiros saírem as ruas para se manifestar pela saída da presidente Dilma Rousseff. Os principais grupos (Movimento Brasil Livre, Vem Pra Rua e Revoltados Online) pediam o impeachment da presidente, enquanto grupos minoritários (lamentavelmente, ao menos em termos estratégicos), pediam intervenção militar no país. Esperava-se uma adesão maior em número de pessoas em relação aos protestos de 15 de março (você pode conferir o comentário de Arthur Rizzi, meu colega de bancada, aqui), porém isso não ocorreu, muito pelo contrário, o que despertou orgasmos em governistas e esquerdistas em geral sobre o aparente "fracasso" das passeatas de ontem. Apesar disso, as manifestações de ontem atingiram mais cidades.

É importante frisar, porém, que mesmo os "fracassados" protestos de ontem renderam mais participantes em relação aos últimos protestos a favor do governo, ocorridos na última terça-feira (07/04). Aliás, renderam mais gente, inclusive, que a soma dos atos pró-governo de 13/03 e 07/04 (o post do Felipe Moura Brasil em seu blog na Veja faz um breve comparativo). Ou seja, se tomarmos como verdade que os atos contra a Dilma de ontem foram um fracasso, não sei que termo definiria as manifestações a favor. Será que restaram aos governistas e esquerdistas em geral o famoso "gozar com o pau dos outros"?

Não obstante isso, é cabível pensar que houve sim falhas de estratégia que fizeram com que os atos contra o governo de ontem não tivessem o mesmo público em relação aos primeiros protestos. Um motivo provável foi a janela de tempo deixada entre um protesto e outro, de quase um mês. Considerando que nestes pouco mais de 100 dias de governo Dilma o cenário nacional mudou rapidamente, esperar muito tempo para organizar um novo ato pode dar ao governo a chance de se reorganizar politicamente e tentar capitalizar algumas pautas para si. Lembrando que a articulação política foi passada ao vice-presidente Michel Temer, o que significa que, na prática, Dilma terceirizou sua gestão (economicamente ela já havia feito isso, passando o "trabalho sujo" do ajuste fiscal para Joaquim Levy). Institucionalmente falando, é praticamente a última cartada para evitar que seu governo entre no vale da sombra da morte.

Outro motivo que pode ter levado os protestos a não ter o êxito esperado, e é complementar ao primeiro, foi o fato de que, pela janela de tempo ter sido muito extensa, manifestações de menor porte, com o intuito de divulgar o evento maior, não terem ocorrido. Isso, provavelmente, deve ter esfriado os ânimos de alguns que saíram as ruas,  no mês passado, ao ponto de acreditar que os protestos de agora não teriam o mesmo sucesso e, por isso, acharem que seria melhor ficar em casa.

Ou seja, para evitar que os atos antigoverno definhem e fiquem extremamente dependentes de uma nova denúncia de corrupção ou de mais uma má notícia na economia, é importante que os três movimentos pensem em organizar os protestos com uma janela de tempo menor entre um ato e outro (sugiro no máximo duas semanas), e que ocorram eventos de menor porte neste meio-tempo para ajudar na divulgação do ato principal.

É claro que existem outros fatores que explicam o menor número de participantes: coincidência com a proximidade do término dos campeonatos estaduais (no Cariocão, teve o clássico Vasco vs. Flamengo, dois times de grande torcida, jogando a semifinal, no mesmo horário dos protestos) e temor da participação de black blocs que eventualmente se misturassem a um público maior são algumas das prováveis causas. Aqui no ES, local onde reuniu o maior ato contra a Dilma em termos proporcionais no dia 15/03, era véspera de feriado ontem (feriado de Nossa Senhora da Penha, padroeira daqui). É bem provável que muitos optaram por viajar e curtir um descanso com a família, o que dificulta um maior número de adesões.

Enfim, é o caso dos movimentos em prol do impeachment de Dilma Rousseff repensarem suas estratégias? Provavelmente sim. Mas é motivo para as hienas governistas comemorarem? Certamente não.

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