Estou farto de certos choradinhos I - Baltimore e a suposta guerra racial

(Fonte das imagens: Washington Times, R7 e Exame. Colagem feita pelo autor)
Nos últimos dias, resolvi pegar alguns dizeres quase que aleatórios sobre alguns dos recentes acontecimentos no Brasil e no exterior. Dizeres estes que, apesar de aleatórios, formam um discurso único quando reunidos e devidamente concatenados. De um lado, fala-se que os recentes distúrbios de Baltimore são uma reação popular ao tratamento racista da polícia americana aos negros (duas variantes brasileiras disso são o "genocídio da juventude negra" e "polícia só mata preto e pobre", narrativas estas contestadas aqui); do outro, fala-se dos professores feridos nos protestos no Paraná como vítimas de uma agressão gratuita por parte da polícia; e do outro, ainda, os professores de SP, em greve (mesmo que o Alckmin picolé de chuchu esteja reticente em admitir isso) sejam símbolo de luta pela melhoria e valorização da educação no Brasil, inclusive com mais investimentos na área.

Confesso a vocês que há alguns anos, esse discurso seria piedoso, comovente e até tocante para mim, mas hoje ele não passa de algo extremamente tedioso. Não ajuda em nada nas discussões sobre os assuntos, muito menos a entender a lógica - ou a falta dela - por trás de tudo isso. Afinal, seria a polícia norte-americana racista par excellence? Ou que o fato do governo paranaense agir de forma no mínimo temerária com a previdência dos servidores públicos estaduais justifica querer ganhar a discussão "no grito"? Ou que prejudicar a vida de milhões de estudantes (e que por mais que digam que haverá reposição de aulas após a greve ela não ocorrerá de facto) em prol de um reajuste para lá de impossível é razoável apenas pela causa?

Enfim, este artigo tratará de colocar alguns temas ainda quentes nos seus devidos pinos.

Os distúrbios de Baltimore foram em resposta à postura racista da polícia, que é recorrente não só lá, mas em outras cidades norte-americanas, como evidenciado em outros casos.

Para podermos tirar uma conclusão sobre o quiproquó de Baltimore é importante lembrarmos dos casos precedentes em outras cidades norte-americanas, que de certa forma alimentam e sustentam o clima de tensão nos EUA. O primeiro deles é o de Michael Brown, morto a tiros por um policial em Ferguson. Após o incidente, houve protestos, alguns deles violentos, com direito a confrontos com a polícia, incêndios a imóveis e automóveis e saques. A versão inicial é de que o rapaz foi morto desarmado e rendido, ou seja, foi executado. O fato de Brown ser negro foi o ingrediente que faltava para se criar o celeuma, que ganhou força graças à cobertura de boa parte da mídia norte-americana, a mesma que forjou a narrativa de crime racial de George Zimmerman contra Travyon Martin, sendo que esse foi absolvido.

O problema é que a narrativa que fazia de Michael Brown um jovem negro inocente executado por um policial branco, assassino, frio e calculista não resiste aos fatos, gostem os liberals americanos (e os esquerdistas daqui) ou não. Antes do incidente trágico, Brown estava roubando, junto com seu amigo, uma loja de conveniência, e, neste meio-tempo (ver a descrição completa do caso aqui), o policial Darren Wilson estava patrulhando as redondezas quando encontrou dois homens andando no meio da rua, que eram Brown e seu amigo. Pela janela do carro, Wilson pediu a ambos que fossem para a calçada, e estes responderam que estavam perto de casa e que continuariam andando no asfalto. No momento, Wilson se deu conta que a fisionomia e as roupas dos jovens batiam com a descrição dos bandidos que roubaram a loja de conveniência e, então, chamou reforço, sendo que enquanto isso colocou o carro atravessado no intuito de bloquear a pista e impedir a passagem dos suspeitos. Ao tentar abrir a porta da viatura, Brown o impediu, e agrediu Wilson com socos. Durante o confronto, Brown entregou ao seu amigo os cigarros roubados e se debruçou para dentro do carro para tentar tomar a arma do policial. Wilson, alcançando a arma, tentou disparar duas vezes, e somente na terceira tentativa a arma disparou, atravessando a porta do carro e atingindo Brown.

Brown, baleado, resolveu fugir, porém Wilson o perseguiu e deu ordem para se colocar no chão. Depois de tentar invadir um carro lotado, Brown deu meia volta e caminhou (ou correu, dependendo da versão das testemunhas) em direção ao policial. Wilson atirou dez vezes para tentar detê-lo, sem sucesso, e a bala que o matou acertou a cabeça. As versões de que Brown levantou as mãos pedindo clemência ou a contada por seu amigo, que dizia que Wilson suspendeu Brown pela gola (Brown pesava 131 kg, contra 96 kg de Wilson), caíram com a análise das provas. O júri decidiu por não indiciar Wilson.

Mas entre a narrativa e os fatos, os últimos foram convidados a dar um passeio. A narrativa de um policial branco frio e calculista que assassinou um jovem negro inocente ficou. Tanto que Wilson pediu demissão. E, logo após sua absolvição, houve tumultos ainda piores em Ferguson.

Outro caso que elevou mais a temperatura sobre o suposto enviesamento racista da polícia foi o caso Tamir Rice, morto pela polícia de Cleveland após apontar uma pistola de brinquedo para várias pessoas em um parque da cidade. Tão logo o caso correu os EUA (e o mundo), a narrativa de "mais um crime racial cometido pela polícia", mais uma vez, tomava corpo. Ignorou-se completamente o fato de que a pistola de brinquedo não tinha uma peça colorida que identifica que a arma é falsa e que o garoto apontou essa mesma arma para o agente, que, obviamente, não é oráculo e não pode se dar ao luxo de hesitar enquanto uma arma que ele não sabe ser de verdade ou não está apontada para ele. E, caso fosse de verdade, ninguém aponta uma arma apenas para dar um tiro no pé, certo?

Outro caso notório que elevou ainda mais o calor da discussão foi o da morte de Eric Garner, morto em Nova York após ser contido à força por policiais que tentavam prendê-lo por vender cigarros ilegalmente. Mesmo levando em conta a desastrada abordagem policial (um dos policiais que o abordou, Daniel Pantaleo, aplicou um mata-leão para conter Garner, prática proibida no departamento de polícia da cidade. Mais uma vez, o foco foi o fato de Garner ser negro e os policiais que o abordaram serem brancos. E mais uma vez, o fato de que uma legislação desnecessária e imbecil aprovada ainda na gestão do prefeito Michael Bloomberg (o atual prefeito é o Bill de Blasio) sobre a venda de cigarros (que não podiam ser vendidos a granel, uma vez que estes não arrecadam impostos). Se esta lei não existisse, os policiais não estariam lá para prender um vendedor de cigarros na rua apenas porque não paga impostos, e estariam se dedicando à caça de criminosos de fato perigosos, como assassinos, estupradores, traficantes e afins. E Garner estaria vivinho da silva, vendendo seus cigarros em paz.


Depois de todas essas voltas, voltemos à Baltimore. E lembremos que estes casos citados, como os demais, graças a narrativa da imprensa norte-americana e de importantes formadores opinião pertencentes aos liberals de lá, ajudaram a manter a temperatura em torno do assunto suficientemente alta.

O pivô de toda a confusão por lá se chama Freddie Gray. Após ser detido pela polícia da cidade por estar portando um canivete, ele fraturou a coluna cervical ao ser transportado na viatura (ver detalhes aqui e aqui), uma van. O veículo parou, sem explicação, duas vezes antes de Gray poder ser atendido. Tarde demais, e Gray faleceu.

Assim como Brown, Rice e Garner, Gray era negro. Isso foi o suficiente para reacender uma onda de protestos, que, como relatado no primeiro link do primeiro parágrafo, levaram à uma onda de violência, com confrontos com a polícia, saques e incêndios a automóveis e prédios na maior cidade do estado de Maryland. Após isso, o governador deste estado, Larry Hogan, a pedido da prefeita de Baltimore, Stephanie Rawlings-Blake (esta decretou toque de recolher na cidade), pediu reforço à Guarda Nacional para retomar a ordem naquele local. Ao final da última semana, a promotora da cidade, Marilyn Mosby, afirmou que a morte de Gray foi um homicídio, e indiciou os policiais envolvidos.

Bem, antes de mais nada, é importante destacar o seguinte: de fato, a ação policial no caso de Gray foi incrivelmente desastrosa, em todos os sentidos possíveis, seja pela despreocupação em garantir a integridade física do abordado, seja pela negligência em prestar o socorro. Acontece que isso continuaria sendo absurdo se Gray fosse um WASP (branco, anglo-saxão e protestante, em inglês), latino, asiático ou indivíduo de qualquer outra etnia. A não ser, claro, que tomemos a vida (ou no caso, a morte) de um negro algo com peso maior que a de qualquer outra pessoa.

Em linhas gerais, os quatro casos (Brown, Rice, Garner e agora o de Gray), bem como os demais, para tomarem a forma e a proporção que tomaram, tiveram pelo menos, um dos elementos: distorção de fatos ou da figura da vítima; omissão de fatos relevantes para a análise e; desvio de foco. O caso Gray possui características vinculadas ao terceiro elemento, por enquanto.

Mas alguém, leitor deste blog, pode estar insistindo: "ora, mas a polícia americana possui um "viés" de preconceito na abordagem a negros". Ok, ignore tudo o que eu disse e finja que por um segundo, eu concorde com você. A questão, é que para eu concordar com você, teria que haver um gap entre o "viés" utilizado na abordagem policial e as estatísticas de crimes. O problema é que nem isso é possível afirmar, uma vez que como muito bem relatado no blog de Felipe Moura Brasil na Veja (traduzido de um vídeo de Bill Whittle), as estatísticas de crimes violentos não-letais nos EUA apontam para 5 vezes mais crimes cometidos de negros contra brancos em relação ao contrário, isso em números absolutos. Levando a estatística para relativo à população, a diferença salta para 25 vezes, e, se levarmos em conta apenas os casos de "agressão agravada", o abismo salta para 200 vezes! Pergunta rápida: se você fosse um gestor público tivesse estatísticas em mãos que lhe dessem a informação que pessoas negras (isso poderia se aplicar a qualquer outro grupo, que fique bem claro) estão em situação que lhe permitem ser levadas a cometer crimes, você direcionaria mais ações preventivas e corretivas para que grupo? Ao branco de olhos azuis dos tranquilos subúrbios (sim, nos EUA os subúrbios não são sinônimo de pobreza, como no Brasil)? Os fatos passariam a ser considerados racistas? Na cabeça de alguns, sim.


Enfim, fica claro que os maiores violentados nesta situação são os fatos. Tudo em nome de uma narrativa insustentavelmente odiosa.

Em breve, a segunda parte da série. Aguarde.

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