Estou farto de certos choradinhos II - Na confusão do Paraná tudo tem vez, menos os fatos

(Fonte da imagem: G1)
No primeiro artigo da série, vimos como o senso comum da opinião pública e da imprensa transformou controvérsias triviais de ações policiais, incluindo os erros crassos, na narrativa da "polícia branca, fria e calculista que assassina negros", bem como o quanto esta narrativa está distante dos fatos. Neste artigo, colocaremos nos pinos mais um "discurso único" sobre um fato que repercutiu muito no país nos últimos dias.

O que aconteceu no Paraná foi um massacre gratuito promovido pela polícia militar contra professores que protestavam pacificamente contra um plano previdenciário perverso de Beto Richa.

É importante que essa história seja dividida em três partes: a primeira, que é uma de várias medidas que Beto Richa, governador do Paraná está tomando para realizar o ajuste fiscal em seu estado; a segunda, o método utilizado pelo sindicato dos professores; a terceira, o tratamento que a opinião pública, com ajuda inclusive da imprensa, está dando ao assunto.

A primeira parte fala das mudanças no plano previdenciário propostas pelo governo de lá, que como relatado pelo economista Adolfo Sachsida em seu blog, trata-se de o governo usar recursos da previdência do estado, bancada, em boa parte, pelos servidores, para fechar as suas contas. Trata-se de uma de várias medidas do "pacotaço" de maldades do segundo mandato de Richa.

Sobre a medida em si, mesmo considerando a necessidade do ajuste fiscal, uma vez que no primeiro mandato de Richa o Paraná gastou muito mais em relação à arrecadação, contratou inúmeros empréstimos que endividaram o estado, sem falar que as obrigações com os fornecedores cresceram de forma exponencial (ver tudo isso aqui), vejo a medida como temerária, pelo fato de usar recursos dos servidores públicos para fechar as contas (algo nos moldes do ajuste fiscal petista, que na prática mete a mão no bolso da população em geral) e por simplesmente não atacar o cerne do problema, que, no caso da previdência está no funcionamento do sistema em si.

O sistema previdenciário dos servidores públicos do Paraná, tal como outros sistemas públicos de previdência existentes não só no Brasil, mas em todo o mundo, passa pelo problema de necessitar de aportes do Estado para continuar solvente, uma vez que, pelas próprias mudanças na demografia (cada vez menos jovens e cada vez mais adultos e idosos), cada vez menos ativos precisam bancar cada vez mais aposentados e pensionistas. É o famoso sistema pay-as-you-go (repartição), mas que poderia muito bem ser chamado hoje de make-to-fail. A solução de verdade para este problema passa justamente pela privatização dos sistemas previdenciários, que passariam a funcionar pelo sistema de capitalização: cada funcionário continuaria recolhendo compulsoriamente uma parte de seu salário para uma conta individual, em que esse poderia escolher como investir seus recursos para garantir sua aposentadoria ou pensão. Inclusive foi algo que defendi em um artigo-resenha do livro Privatize Já, do Rodrigo Constantino.

Dito isso, é importante lembrar que os professores, até certo ponto, tinham razão de reclamar, muito embora não saibam ao certo qual a solução para a situação. O problema, que trata da segunda parte da história, foi o método utilizado pelo sindicato para se opor à medida. Ainda durante a votação do "pacotaço" de fevereiro, o plenário da Assembleia Legislativa do estado foi invadido o governo necessitou recuar. Desta vez, levando em conta uma possível invasão, houve um mandado judicial obrigando a polícia a garantir a segurança de quem estava na Casa, e foi feito um cordão de forma que os manifestantes não invadissem o plenário novamente. Porém, como bem comprovado no vídeo disponível na página da edição brasileira do El País, houve a tentativa de se furar o bloqueio (resta saber se foram por professores ou por infiltrados no movimento, seja por omissão ou por conveniência do sindicato) e a PM reagiu, utilizando balas de borracha, bombas de efeito moral, e cães. Mais de 200 pessoas se feriram e a repercussão foi grande, não só em nível nacional como também internacional.


Muitos poderão falar agora "ain, mimimi, a polícia se excedeu, foi massacre...". Bem, uma coisa é dizer que a polícia agiu de forma errada durante a repressão aos protestos (não, não existia outra alternativa que não a repressão, a não ser que se considere uma nova invasão do plenário algo razoável), algo que em alguns pontos posso concordar. Por exemplo, usar pitbulls para conter manifestantes (um acabou, infelizmente, mordendo a perna de um cinegrafista, e por pouco não acertou a artéria femural, que seria fatal), em vez de rottweilers e pastores alemães, não foi uma medida correta, dado o comportamento típico dos cachorros da primeira raça em relação aos demais. Outra coisa é levar em conta a repressão policial ignorando a ação dos black blocs (sim, eles estavam lá) e outros infiltrados entre os manifestantes (resta saber se por omissão ou por conivência do sindicato), que utilizaram coquetéis molotov e pedras contra os policiais (sim, coqueteis molotov e pedras são mais letais que balas de borracha e bombas de efeito moral, e ponto), ou pior ainda, colocar policiais e terroristas em igualdade moral. Ainda que os primeiros excedessem em sua ação, eles possuem o direito ao uso legítimo da força, assegurado pelo Estado. Professores, black blocs e demais infiltrados, não. Apenas pelo fato de enfrentarem a polícia eles estão errados. Ponto.

A terceira e última parte desta história trata da repercussão dada ao assunto. Basta você fazer uma pesquisa ao acaso nos principais portais de notícias de nosso país que você terá a imediata impressão de que os professores apanharam gratuitamente da PM, de que a manifestação foi pacífica até o momento da repressão, de que houve um "massacre"(!)...Como disse anteriormente, nenhuma dessas narrativas são coerentes com os fatos. O confronto foi iniciado pelos manifestantes, já havia a predisposição para haver o conflito e bem...Quando ao "massacre", chamá-lo dessa forma faria revirar a mais de uma centena de mortos no Carandiru e a mais de uma dezena de mortos em Eldorado dos Carajás se revirariam em seus devidos túmulos. E olha que não vejo muitos motivos para chamar as duas coisas de massacres, principalmente levando em conta o contexto das situações.

Enfim, não nutro um pingo de simpatia por Beto Richa e pelos tucanos (só votei neles na última eleição presidencial por falta de opção). Mas não tem como defender a ação dos professores. Não mesmo. Principalmente se levarmos em conta o oportunismo político (muito bem relatado por Reinaldo Azevedo, basta conferir aquiaquiaquiaqui e aqui) que beira a tentativa de um "terceiro turno" no Paraná, tão criticada pelos petistas quando o assunto são as eleições presidenciais do ano passado.

Enfim, mais uma narrativa distante dos fatos colocada em seu devido lugar. Que venha a terceira e última parte.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Não, Juan Arias. Dilma não se transformou

Dando-se tempo ao tempo: cadê as vantagens do porto de Mariel?

ENEM 2015 e o orgasmo da esquerda festiva