Estou farto de certos choradinhos III - A greve insana dos professores de SP

(Fonte da imagem: Terra)
No primeiro artigo da série, vimos que o discurso de "guerra racial", seja em Baltimore, seja em outros casos ocorridos nos EUA nos últimos meses, é distante dos fatos. No segundo artigo, vimos que a ideia de "agressão gratuita" promovida pela polícia do Paraná aos professores é igualmente longínqua da realidade. Hoje, no último artigo da "trilogia", mais um "discurso único" será colocado em seu devido lugar.

A greve dos professores em SP é a demonstração da falta de sensibilidade de Alckmin para com a educação em seu estado, e é um exemplo da falta de preocupação dos governantes com a educação no país como um todo.

Outra situação que atiça o senso comum das pessoas é a greve dos professores em SP, que já caminha para o segundo mês sem qualquer perspectiva de solução. A Apeoesp, o sindicato da categoria, quer 75% de reajuste (segundo eles isso seria equiparar o salário com outras profissões de nível superior); são contra a política de valorização por mérito ou prática pedagógica de 10,5% (mais 5% por qualificações adquiridas durante a carreira), alegando que isso beneficiaria apenas 10 mil professores, ignorando outros 220 mil e reclama da diferença entre o piso paulista e o estadual, que caiu de 59% para 26%.

Analisemos as propostas, uma a uma. Quanto à primeira proposta, não é preciso ser um expert em gestão pública ou em matemática para concluir que a proposta do reajuste de 75% dos professores é descabida e inviável. A folha de pagamento teria de ser engordada em mais de meio bilhão de reais somente com isso, o que mesmo para um estado com grande receita como São Paulo não é um impacto desprezível. É importante frisar ainda que o momento em todo o país é de contenção de gastos (ou para a galerinha "educação não é gasto, é investimento", de investimentos também) e os estados estão tentando se adequar à nova realidade econômica. Além disso, quem disse que todas as profissões de nível superior precisam ter o mesmo salário? Já a segunda, mais uma vez, mostra o quanto o sindicato está interessado - ou pior, não está - com a melhoria da qualificação e da prática docente. Não estou dizendo que o método de avaliação que permite identificar esses melhores professores seja o adequado (na verdade digo que qualquer método de avaliação que não recorra aos testes internacionais não é adequado), nem que todos os professores, indistintamente, deveriam ter os salários reajustados de forma a compensarem a inflação. A questão é que não é nada além de justo o fato de os melhores professores receberem os maiores reajustes como recompensa por se qualificar e, principalmente, ter a melhor prática de ensino. Digo isso porque vejo muitos professores com mestrado e doutorado nas costas que mal e porcamente sabem transmitir o conhecimento para os alunos. Enfim, qualificação é necessária, mas não suficiente. A única proposta que talvez se salva é a terceira. Talvez.

É claro que pode surgir neste momento alguém dizendo "mas os políticos e juízes tem reajuste dessa proporção e ninguém fala nada". Sim, concordo que aumentar salários de servidores (parlamentares, governador, equipe de governo e juízes não deixam de ser servidores) que ganham bem mais que a média dos demais, ainda mais em um momento de aperto econômico como o atual, é imoral (na verdade, o ideal seria alinhar os reajustes de todos os servidores, incluso os de cargos eletivos, a um único patamar, ou pelo menos a uma faixa de valores pré-definida). Mas em geral, o impacto financeiro destes aumentos é mais limitado. No caso dos professores, por exemplo, mesmo pequenos aumentos podem ter um grande impacto na folha de pagamento em termos absolutos pelo fato de serem muitos. É uma questão de proporção.

Resumindo: uma greve com um objetivo infactível, que combate algo que serve justamente para incentivar os professores a buscarem mais qualificação e melhorarem as práticas de aula (para eles, todos deveriam receber mais independente se estão ensinando de verdade ou se estão lá pela "boquinha" e pela estabilidade do serviço público) e que, tal como no Paraná, servem como trampolim de politicagem rasteira (ver posts no blog no Reinaldo Azevedo aquiaqui e aqui). Mas, graças ao senso comum da opinião pública e da imprensa, a greve foi alçada ao posto de uma martirização promovida por Alckmin. Só não pior que a promovida por Beto Richa no Paraná. Ai, que preguiça...Ah, e não custa lembrar: na iniciativa privada, as greves tendem a prejudicar somente os patrões. No setor público, os maiores prejudicados sempre são a população, que fica como refém no fogo cruzado entre os servidores e o Estado.

Encerrando

Os incidentes de Baltimore, bem como os demais que servem de enredo da suposta "guerra racial" nos EUA, seriam inaceitáveis com qualquer outra pessoa, independente de ser negra ou não. Quanto ao quiproquó do Paraná, diferente do que possa parecer (e independente de ter sido proporcional ou não), a polícia reagiu a um ataque de manifestantes que tentavam furar o bloqueio, e o sindicato dos professores de lá, seja por omissão ou por conivência, ignorou isso. Por fim, quanto a São Paulo, por mais que eu tente entender o drama dos professores, não consigo ver a educação paulista (e muito menos a brasileira) sendo alçada ao nível da Finlândia se tão somente os salários dos professores fossem reajustados aos patamares de lá.

Enfim: menos senso comum, mais lógica e análise dos fatos.

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