Não precisamos de um Humaniza Redes, mas sim de um Honestiza Redes

(Fonte da imagem: Veja São Paulo)
Há pouco mais de dois meses, Luan Sperandio, então colega de bancada deste blog (infelizmente ele acabou deixando o espaço no início deste mês), escreveu um artigo comentando sobre a "reportagem investigativa" que supostamente ligava o Movimento Brasil Livre (MBL) ao Estudantes pela Liberdade (EPL), e este, por sua vez, aos Irmãos Koch, que estavam, supostamente, "financiando" o movimento, como se isso fosse, per se, motivo suficiente para desqualificar os grupos anti-Dilma (aliás, se fosse, desqualificaria uma renca de movimentos esquerdistas, aqui e mundo afora). Conforme dito em um artigo no site Mercado Popular, a prova que "ligava" o MBL e o EPL aos Irmãos Koch era uma matéria da Folha de S. Paulo que descobriu que o EPL era afiliado ao Students For Liberty (SFL), que era ligado ao CATO Institute, cujos 5% de sua receita era proveniente dos Irmãos Koch. Algo no estilo "um tio do amigo do vizinho do meu afiliado me contou isso", que virou o plus do jornalismo. Ou, melhor dizendo, desonestidade intelectual, pura e simples.

Pois bem, como muitos já sabem, Kim Kataguiri (esse aí da foto), um dos líderes do MBL, está participando de uma marcha de São Paulo à Brasília com o objetivo de pedir o impeachment da presidente Dilma Rousseff, que recebe o nome de Marcha pela Liberdade. Após caminharem por várias centenas de quilômetros, terem a oportunidade de proferir um discurso na câmara de Uberlândia e de sofrerem, inclusive, ameaças de políticos petistas e do MST, na altura de Alexânia, já no entorno do Distrito Federal, um acidente envolvendo uma picape e um carro acabou atingindo Kataguiri e Amanda, sendo que esta precisou ficar em observação no hospital por ter batido a cabeça (apesar de não estar gravemente ferida). Não vou entrar no mérito de especular se foi de fato um acidente ou um atentado, muito embora o fato de haver ocorrido ameaças aos integrantes da marcha (como citado anteriormente) e o fato de o responsável pelo acidente poder ser uma liderança regional do "exército de Stédile" acabar alimentando essa última tese.


(Fonte da imagem: Divulgação/Facebook)

Também não irei comentar sobre o que, pelos próprios critérios da esquerda, acabaria se enquadrando em "discurso de ódio" (muito embora para eles dizer que é compreensível amarrar um pimpolho ladrão em um poste seja mais horripilante que rogar a morte de alguém apenas por pensar diferente), muito embora isso daria um baita pano para manga. Irei comentar sobre um exemplo de tática desonesta que algumas páginas esquerdistas resolveram utilizar para o caso. Segue abaixo o exemplo:

(Fonte da imagem: Divulgação/Facebook)
A intenção era bem clara: lancar um shaming em um dos líderes do MBL por uma suposta incoerência entre seu discurso e a realidade. Para isso, eles utilizaram três recortes, a saber:
  1. Uma imagem de Kataguiri contendo o agora famoso bordão "Menos Marx, mais Mises";
  2. Uma matéria do Instituto Mises Brasil que fala sobre o "direito de dirigir alcoolizado";
  3. O acidente que vitimou o Kim, provocado por alguém que dirigiu alcoolizado.
Pronto, para alguns esquerdistas, esses elementos, bem como a suposta relação entre eles, são suficientes para desqualificar Kataguiri, e, por tabela, o movimento opositor ao governo. Acontece que levar a sério isso requer, pelo menos uma das duas coisas: ter um QI digno de uma ameba ou ser cavalarmente desonesto e mau caráter, intelectualmente falando. Na dúvida, chuto as duas coisas.

Era para isso parecer óbvio a alguns, mas como há quem leve a sério coisas com esse nível pífio de raciocínio, é necessário que se explique (e se tenha uma paciência de Jó para isso) certas obviedades (lembrando que os grifos na sequência numérica são propositais, e vocês entenderão o porquê). A primeira delas é sobre o bordão, uma espécie de palavra de ordem na "direita" (aspas, porque muitos liberais não se consideram de direita) que pede por menos ideias baseadas em Karl Marx, pensador e economista alemão e mais ideias baseadas em Ludwig Von Mises, pensador e economista austríaco. A segunda (acima, à direita), mostra um artigo do Instituto Mises Brasil, que é um think tank destinado à discussão e divulgação do pensamento da Escola Austríaca, em que Ludwig Von Mises é um dos principais expoentes (provavelmente o nome do instituto foi escolhido justamente por isso), lembrando que na Escola Austríaca existem outros nomes, como Bastiat, Menger, Böhm-Bawerk, Hayek, Rothbard, Hoppe, entre outros. Neste artigo, Lew Rockwell defende o direito da pessoa beber e logo depois dirigir (não entrarei no mérito da questão, mas que fique bem claro, sou radicalmente contra, e em outra ocasião eu ou outro colega meu de bancada explicará melhor o porquê). Por fim, a terceira...Bem, não preciso falar, até para não ficar repetitivo.

O fato de Kataguiri ser admirador das ideias de Mises significa, necessariamente, que ele admire os artigos do IMB, que agrupa articulistas seguidores da Escola Austríaca (lembrando que dos economistas filiados a esta ao longo da história, Mises foi um de vários, por mais importante que ele seja)? Mesmo que ele admirasse, ele, em algum momento, apoiou o discurso biruta de Rockwell? Aliás, o garoto líder do MBL já, pelo menos, participou do IMB (como articulista, talvez)? Fica evidente que a resposta para, pelo menos, uma dessas três perguntas, é não. O suficiente para, nem mesmo em uma forçada de barra nível ultimate, ver relação entre o primeiro e o segundo elemento, que, por sua vez, elimina a relação com o terceiro. Ou seja: trata-se de burrice, mau caratismo ou ambas as coisas.

Para finalizar, fecho com um bônus em relação ao comentário "sábio" de Kataguiri "ter sido atendido pelo SUS" (diga-se de passagem, atendimento padrão em caso de emergência, só para constar): creio que tanto eu, como uma das lideranças do MBL, quanto quem foi parvo o suficiente para ver relação entre Mises e IMB como se fosse a mesma coisa, pagamos impostos. Impostos esses que são revertidos em serviços públicos, usando estes ou não, e querendo usar estes ou não (na verdade, se eu deixasse de pagar alguns impostos para pagar alguns desses serviços "por fora" seria melhor). E é nada mais que justo que, independente de ideologia, eu tenha o direito de desfrutar desse serviço, ainda mais se este for crucial para a vida e a integridade física de quem utiliza. Aliás, não é a primeira vez que falo sobre esta falácia de falso dilema.

Enfim, se o Humaniza Redes fosse algo, de fato, importante, não seria menos que o Honestiza Redes. Pior que o ódio sincero é o ódio desonesto.

Aviso aos leitores: post semanal escrito durante o período de "licença" para as atividades acadêmicas de último período.

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