Ainda sobre meritocracia e oportunidades: respostas a algumas objeções

(Fonte da imagem: Endeavor)
No último domingo, eu escrevi um artigo neste blog em que eu comentei sobre uma tirinha, bastante divulgada e comentada nas redes sociais, que conta a história de duas personagens, uma de classe média/alta e outra mais pobre, no sentido de contestar a ideia de meritocracia, a invalidando pelo fato de não existir "igualdade de oportunidades". Em linhas gerais, disse que a "igualdade de oportunidades" - diga-se de passagem, um conceito utópico, uma vez que os seres humanos não são iguais uns aos outros - não era condição sine qua non para validar o mérito de uma pessoa em conquistar algo; disse que igualdade de oportunidades não necessariamente era sinônimo para igualdade de resultados (e, por tabela, melhores oportunidades não significam melhores resultados); dissertei brevemente sobre algumas ações que o Estado faz que acabam prejudicando a existência ou o surgimento de melhores oportunidades aos mais pobres; critiquei a visão que deixa a entender que ter mais recursos é algo pouco louvável; e, por fim, defendi a ideia de que a questão central não era se o Estado deve ou não agir para viabilizar a melhoria de vida dos mais pobres, e sim como agir.

O post rendeu centenas de visualizações, algumas polêmicas assim quando eu resolvi compartilhá-lo no meu perfil do Facebook, e uma resposta de um leitor com algumas objeções ao que eu escrevi. Mais precisamente, trata-se de um artigo escrito pelo Octávio Henrique, que em seu blog O Homem e a Crítica, fez algumas contestações a alguns pontos de meu texto. De antemão, digo que de fato eu acabei me esquecendo de algumas premissas que acabaram fazendo falta. Portanto, neste texto de continuação, passarei a adotá-las de forma a refinar o que eu disse. Com o intuito de facilitar o entendimento do leitor, irei transcrever os trechos de seu texto em azul (as partes do meu artigo que foram destacadas no dele colocarei em itálico e com tom mais escuro) e responderei às objeções ao longo do artigo. Segue abaixo:

"Começo contestando uma das premissas que Lannes assume para que o debate seja iniciado. Segundo o futuro engenheiro de produção:

"A premissa importante antes de se debater esse assunto, é que, diferente da tirinha, que resume os seres humanos em dois grupos de espantalhos homogêneos, a verdade é que existem bilhões de indivíduos diferentes, com perfis diferentes, aspirações diferentes e visões de mundo diferentes."

É óbvio para qualquer um que pense fora da caixa progressista que vem cada dia mais tentando ser a única caixa de bombom do universo o que Marcos bem diz: ora, uma análise rigorosa nos faria perceber que o mundo não se divide apenas em Richards e Paulas. O problema para Lannes, porém, começa justamente quando vamos tentando destrinchar os outros agrupamentos possivelmente existentes, sendo que um deles é justamente o das pessoas que, tendo nascido em berço de ouro, desperdiçam suas oportunidades ao máximo mas que, ainda assim, conseguem, por meio de herança, passar uma vida inteira vadiando sem maiores problemas, o que definitivamente nenhum dos que não nasceram nesse tipo de berço pode fazer se quiser aumentar suas chances de sobrevida no mundo caótico em que vivemos.

Mais óbvio ainda é que, com isso, não quero propor a solução esquerdista para o dilema, ou seja, a estatização dos meios de não sei quem ou o fuzilamento dos grupos x, w e y. O problema, porém, é que, por mais que, como Lannes bem pontua, "existem filhos de pais ricos que possuem carreiras medíocres (se levar em conta o que seus genitores investiram), e existem filhos de pais pobres que construíram ótimas e sólidas carreiras (principalmente se levar em conta algumas limitações de investimento)", persiste o problema moral de que, quando o primeiro se mantém rico e quando o segundo se mantém pobre, o julgamento tanto das pessoas quanto dos tribunais sobre os dois dificilmente terminará em favor do segundo, o que pode, a depender das circunstâncias, minar todas essas conquistas e, de certa forma, até premiar as falhas do outro. É claro que, para mudar esse quadro, é necessário mudar a mentalidade geral pelas vias democráticas, mas o problema é: que setor da direita consegue reagir adequadamente a isso, ou seja, sem gritar acusações de marxismo cultural a quem propõe essa mudança óbvia?"

Primeiramente, tenho que concordar que de fato o Octávio tem razão em dizer que existem pessoas que são ricas, jogam todas - e mais algumas - oportunidades no lixo e, pelo fato de terem um pai que o sustenta ou de ter herança, podem fazer isso sem grandes problemas, ao menos em curto e médio prazo. Mas existem duas questões: a primeira é que isso não muda o fato de que existem os dois grupos que citei em meu artigo; e a segunda é em forma de questionamento: o que (e quanto) é necessário para que um filho de pai rico possa errar em suas escolhas de forma indefinida sem que isso lhe prejudique em seu padrão de vida?

Não pretendo aprofundar muito nessa discussão até porque o foco deste texto não é (exatamente) sobre economia, mas é importante frisar que é necessária uma acumulação considerável de capital que permita a alocação do mesmo ao longo do tempo de tal forma que este filho perdulário não perceba qualquer perda em seu padrão de vida e, de forma complementar, seu pai invista este capital (e/ou ensine seu filho a investir) para seu filho poder viver sua vida sossegado, ainda que desperdice suas oportunidades ao máximo, como bem relatado na objeção acima. E, obviamente, não irei estender a análise para além das gerações do pai e do filho, até porque se eu estender o cenário para a geração dos netos, a situação pode complicar, principalmente se o filho não tiver sido ensinado a, pelo menos, fazer com que esse dinheiro acumulado por seus pais e passado a ele possa ser útil a seu neto. O discurso "pai rico, filho nobre, neto pobre" não deve ser descartado.

Sobre a questão do problema moral em relação ao fato do primeiro se manter rico e do segundo se manter pobre, sobretudo na questão do julgamento levantada por Octávio, a minha resposta é: depende. Primeiro que o padrão de julgamento das pessoas nem sempre é o mesmo dos tribunais (neste caso específico o caso do Mensalão serve como exemplo notavel). E segundo, que no caso específico dos tribunais, o sem-número de meandros existente no sistema judiciário ou mesmo nas próprias leis (muitas, por sinal) acaba levando a situações que praticamente apenas quem tem acesso - financeiro, claro - a aqueles que conhecem estes meandros acaba se beneficiando. É inegável a necessidade de reformas, não só no sistema judiciário, mas em outros sistemas de tal forma a não permitir que ele reproduza as desigualdades existentes em nossa sociedade. A questão, mais uma vez, é: COMO fazer? Obviamente, eu não tenho todas as respostas (na verdade, tenho pouquíssimas).

"Passo, agora, aos limites da semiótica lannesiana, ou seja, a certos equívocos que notei na interpretação de meu amigo da tirinha sobre a qual teceu comentários:

"A tirinha tão elogiada por alguns passa a impressão de que Richard tem menos mérito em conseguir as coisas pelo fato dos pais serem ricos. Ou, melhor dizendo, os pais do garoto de classe média/alta são culpados pelo simples fato de terem mais recursos e uma melhor rede de relacionamentos - no mundo dos negócios é conhecida como networking - que lhe permita chegar onde chegou."

Além do fato de não necessariamente ser errado dizer que Richard tem menos mérito do que teria, por exemplo, um "Bob" de origem não-rica ao conseguir o que quer, o problema das impressões é que, justamente, estas variam de leitor para leitor. Enquanto para Lannes, que do que eu saiba não teve raízes esquerdistas em sua formação política, a impressão se resumiu apenas à questão do mérito, minha impressão foi de que, além de contestar a ideia de meritocracia, o que se quis expor foi a crescente cegueira (porque me recuso a usar o confusíssimo termo "alienação" da esquerda imbecil do Brasil varonil) de Richard à totalidade das razões que o fizeram chegar ao ponto em que chegou, esquecendo-se, por exemplo, de que conseguir um estágio graças ao networking paterno citado pelo graduando em engenharia é algo bem mais "de bandeja" do que ter de cuidar dos pais doentes, sacrificar parte dos estudos e, com isso, conseguir um emprego de baixa remuneração em que também se é vigiado, inclusive com mais fervor, constantemente.

Nada, contudo, supera a inferência errada de Marcos quanto ao que se julga sobre os pais de Richard: não há, em nenhum lugar do texto (no caso, da tirinha), trechos que nos permitam inferir qualquer juízo de valor negativo com relação às posses dos pais de Richard, sendo que nem mesmo a questão do estágio, eticamente questionável, é profundamente questionada na tirinha. Lannes, então, ainda deve ao leitor uma resposta, com base no texto da tirinha, sobre de onde sua interpretação foi tirada, isto porque, momentos depois, o articulista diz que os pais de Richard teriam adquirido sua riqueza necessariamente de forma meritocrática, o que também não é colocado na tirinha, ou seja, o que configura mais um salto de fé do amigo conservador."

Entendo o que Octávio disse quanto à possível cegueira de Richard quanto às circunstâncias que o permitiram chegar ao ponto que chegou, muito embora eu reitero que tudo isso poderia ter sido colocado a perder se o personagem optasse pela vadiagem pura e simples (e antes que hajam objeções aproveito para também reiterar tudo o que disse em minhas observações anteriores). Não obstante isso, sou adepto de uma visão da qual creio que o objetor de meu artigo também ache interessante compartilhar: grandes poderes devem implicar grandes responsabilidades. Visão essa que é difícil enxergar mundo afora, e quase impossível de enxergar no Brasil. Talvez isso que se deva cobrar de Richard, principalmente se ele não obtivesse o sucesso esperado.

Quanto à suposta inferência errada em relação aos pais de Richard, Octávio e alguns leitores podem não ter entendido desta forma, mas muitos outros entendem, sim, que o fato de os pais de Richard serem ricos diminui o mérito dele. Se pensarmos no contexto brasileiro, em que os mais ricos e os empresários são vistos como "malvadões" que planejam todos os dias esfolar os mais pobres, a forma como é construída a tira pouco ajuda a mudar essa ideia. E, de fato, a tirinha não dá base para dizer que os pais ou mesmo gerações anteriores a de Richard obtiveram sua riqueza de forma meritocrática, muito embora eu sigo o princípio in dubio pro reo, ou seja, na ausência de evidências em contrário, presume-se que houve sim mérito de alguma geração anterior a do jovem garoto de classe média/alta.

"Termino implicando com a maneira com que o futuro engenheiro de produção interpretou a finalidade a que se propõe a tirinha. Segundo Lannes, o objetivo da tirinha é "contestar a ideia de meritocracia, a invalidando pelo fato de não existir igualdade de oportunidades". É claro que, por mais que a ideia de me tornar um dos melhores sofistas do século ainda me atraia, não sou relativista a ponto de negar o que vejo diante de meus olhos, ou seja, que o que Marcos subentendeu não poderia estar mais correto, apesar de certamente haver aqueles que dirão que a tirinha só quis "problematizar" a ideia de meritocracia, como se "problematizar" já não fosse um primeiro passo político para se invalidar determinada ideia.

Não quero, então, contestar a interpretação de Lannes neste ponto em específico, mas propor uma discussão que poderá ajudar muitos direitistas, e isso inclui Marcos, a militarem ou a pensarem de modo um pouco diferente sobre essa questão. Dou enfoque, para isso, à última fala do personagem Richard, então um homem de sucesso cercado por seu séquito de puxa-sacos (as usual, diga-se de passagem). Seja honesto comigo, leitor: não é justamente o ar de superioridade arrogante de Richard nesse último quadrinho que o faz uma figura que dificilmente ganharia a nossa simpatia e cujos argumentos, portanto, rejeitaríamos ou teríamos pelo menos a tendência a rejeitar logo de cara? Ao mesmo tempo, esse comportamento não é, em termos, muito parecido inclusive com o das pessoas que superaram o binarismo Richard x Paula e, tendo origem pobre, se deram muito bem na vida, quando falam sobre como quem não venceu na vida é necessariamente preguiçoso ou burro, mesmo sem conhecer a história de vida dessas pessoas?

Penso, então, que o leitor já sabe onde quero chegar: por menos que se possa condenar generalizações em essência - afinal, uma parte considerável da guerra política consiste justamente em pegar condutas particulares de um membro de um grupo e generalizá-la para todos, seja para defesa, seja para ataque -, não há momento em que deveríamos pelo menos tomar cuidado para generalizarmos de um mal jeito justamente aqueles de cujo apoio precisamos? Quem das "Paulas", afinal, votaria, em sã consciência, em um político que é apoiado por pessoas que as veem de uma maneira totalmente distorcida, enxergando-a como pouco mais do que lixo humano?

Essa, então, é minha proposta para uma direita mais tenaz: não tentar necessariamente defender Richard, mas, antes, aproveitar a desconstrução esquerdista de Richard para, com isso, reconstruir um "Robert", um "John" ou mesmo um "Will" que, inevitavelmente, possa virar o jogo e, progressivamente, tirar a ideia de meritocracia do limbo da história das ideias perante o grande público. Isso, lógico, aos que irem, neste artigo, para além do "marxismo cultural" que aparentemente é apoiado."

Mais uma vez, concordo que numa situação real, a figura do personagem Richard seria uma das últimas a ter simpatia minha, por mais meritosa que fosse sua ascensão em sua carreira acadêmica e profissional (aliás, diria o mesmo independente se ele tivesse começado como começou na tirinha ou se ele tivesse começado "do zero"). O que coloquei em discussão no meu artigo anterior e mantenho na mesa de discussão é a forma pouco honesta de raciocínio ao qual a tirinha conduz. Tanto pelo reducionismo da questão da meritocracia em "ricos que tem tudo dado na mão pelo papai" vs. "pobres 'vítimas da sociedade' que nunca conseguem nada" como até mesmo na caracterização dos próprios espantalhos. Mesmo em um país desigual como o Brasil a realidade é mais complexa que isso. Ponto.

E não, não defendi Richard em nenhum momento. O que fiz foi evitar a crítica a dele apenas por ele ser visto como alguém "criticável" por alguns, ainda que isso implique em péssimos - e desonestos - argumentos. Se o propósito, por exemplo, é criticar a postura arrogante de alguns "privilegiados", ótimo, que se critique! Arrogância é ruim, seja de quem for, contra quem for. Arrogância é ruim, por mais meritosa que seja ou não a vida de uma pessoa.

Por fim, quanto à reconstrução de personagens que fujam aos espantalhos sobre meritocracia, apenas digo que uma das ideias do post anterior foi justamente essa: a de combater os reducionismos em torno da questão. Tanto que mostrei uma imagem de uma reportagem com um exemplo de uma pessoa pobre, que teve suas chances de vida limitadas por conta de um acidente que decepou sua perna, acabou sendo ajudado por um empresário a conseguir a prótese, recebia uma indenização mensal relativamente polpuda e mesmo assim optou por entrar no crime. Aproveito meu artigo-resposta de hoje para mostrar o outro lado: o de moradores de rua que por conta própria estudaram e que acabaram passando em concursos públicos. Mesmo reiterando a ideia de que o Estado deva agir no sentido de oferecer melhores oportunidades aos mais pobres (ou seja, apostar na largada e não agir paliativamente, trazendo a finish line para mais perto), muito embora também reitero que a questão é COMO o Estado deve agir, vejo que a meritocracia, sim, funciona. E oportunidades iguais - que, a rigor, não existem - NÃO são uma condição sine qua non para seu funcionamento.

Aviso aos leitores: post semanal escrito durante o período de "licença" para as atividades acadêmicas de último período. E sobre "raízes esquerdistas" em minha formação política, não sei se disse ao Octávio e a vocês, mas já tive uma fase petista. Convenci meus pais a votarem em Lula em 2002 e a votarem no PT nas eleições de 2004 em minha cidade. Já achei que as empresas privatizadas deveriam voltar às mãos do Estado. Meu "endireitamento" só começou, de fato, em 2012. Entre 2005 (quando me decepcionei com o PT por conta do Mensalão) e 2011 posso dizer que eu era um centrista.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Não, Juan Arias. Dilma não se transformou

Dando-se tempo ao tempo: cadê as vantagens do porto de Mariel?

ENEM 2015 e o orgasmo da esquerda festiva