Bárbaros, bolcheviques e confusos

Já faz um bom tempo que eu percebi que se dizer conservador, assim como se dizer liberal não quer dizer rigorosamente nada. Inclusive, mencionei isso em outro texto, este em especial, sobre o liberalismo econômico. Sempre aparecem oportunidades para percebermos isso, como por exemplo, na treta virtual entre conservadores como Francisco Razzo e Olavo de Carvalho, ou em tretas anteriores como as que Olavo volta e meia tinha com falecido Orlando Fedeli. Poderíamos listar também as evidentes diferenças entre a bancada evangélica e Luiz Felipe Pondé, este último, favorável ao casamento gay.

Na semana passada, eis que mais uma treta virtual surge! A página Hueriza Redes decidiu chamar a página Direita Forte de esquerdista ou, no mínimo, acusá-la de ter esquerdado. Comentarei isto mais abaixo, mas antes, gostaria de pedir desculpas aos leitores por ficar bancando a Sônia Abrão do Facebook; gostaria de avisá-los que não assumo essa função em definitivo e que este posto ainda é do Felipe Moura Brasil e pretendo que ele continue com ele lá na Veja.

(Fonte: Hueriza Redes/Facebook)
(Fonte: Direita Forte/Facebook)
Para explicar a confusão não é complicado. A famosa marca de perfumes "Boticário" decidiu lançar uma nova linha de perfumes, e na sua propaganda decidiu aposta no ultra-progressismo ao encher sua peça de TV de casais gays. Silas Malafaia, o pastor, não gostou muito e teve a brilhante ideia de criticar e convocar um boicote a empresa "Boticário" usando argumentos horríveis, digamos assim, um tanto questionáveis. Ora, era exatamente isso que a marca queria. Escandalizar para atrair atenção para seus produtos. Funcionou que é uma beleza! Não é obviamente, de se espantar que as reações a convocação do pastor fossem humorísticas como o "Raio Boticarizador".

Convenhamos, foi engraçado. (Fonte: Raio Boticarizador/Facebook)
Em reação a isso, a página Direita Forte reproduziu o banner com os dizeres, "ser conservador não é ser anti-gay", a página Hueriza Redes ao que parece, não gostou. Devolveu com os dizeres "Ser conservador é ser a pró-família natural", além do carimbo "ESQUERDOU". A pergunta que emerge desse conflito é bem simples: O que é ser conservador, afinal?

Eu não pretendo dar uma de sabichão do conservadorismo e pode perfeitamente haver quem discorde de mim. Mas essa não é uma questão com uma resposta só. Depende de que tipo de tradição conservadora a que nos referimos. Não há UM SÓ conservadorismo, mas um monte deles! Obviamente a página Direita Forte pensa conservadorismo em termos anglo-americanos, os liberal-conservatives, isto é, conservadores liberais. A Hueriza Redes deve pertencer, obviamente, a um grupo mais moralista, embora eu não me arrisque a dizer o nome de alguma tradição específica (mesmo tendo lá minhas desconfianças).

Um grupo enfatiza a liberdade individual e a responsabilidade individual pela moralidade, outro enfatiza a responsabilidade coletiva pela moralidade... Não é difícil perceber que o debate sobre conservadorismo está pautado em uma falsa ideia de que há um consenso do que é ser conservador.

Se ser conservador significa acreditar em valores universais atemporais no campo da política e defender instituições políticas e democráticas contra arranques revolucionários, então, por esse critério, até o PSDB seria conservador! O que é obviamente uma besteira. Mas, por que essa noção se aplica tão bem aos Estados Unidos e a anglofonia em geral e não funciona tão bem por aqui? Tic-tac- tic-tac. Percebeu? Não? Vamos lá! 

Cada país tem uma cultura e uma tradição, isto é, um arcabouço de fatos históricos e crenças sobre si mesmo e sobre outros povos que lhe pertencem e lhes são peculiares. Cada país tem uma base civilizacional, religiosa e étnica própria com diversas manifestações dessa constituição popular que lhe é inerente. Ser conservador é, de certa forma proteger estes valores. Os Estados Unidos já nasceram como uma sociedade liberal, baseado na responsabilidade individual e na subdivisão religiosa de milhares de denominações protestantes que tinham de conviver em harmonia e cujo substrato de pacificação dos conflitos denominacionais se davam pelos acordos feitos, não só pelos founding fathers, mas como pelos políticos locais numa das instituições mais decisivas da história americana: A maçonaria. Portanto, ser conservador a la  Russell Kirk (não obstante todo mérito que ele tem como intelectual) é ser conservador desses princípios liberais que fundaram a América. 

Mas nosso Brasil não é bem assim. Se vocês, amiguinhos e amados leitores meus, decidirem ler o livro "O dinossauro" do ex-embaixador Meira Penna ou ainda, se decidirem ler o recém lançado livro "Pare de acreditar no governo!" de Bruno Garschagen, irão perceber que nossa constituição enquanto povo brasileiro, não tem nada a ver com isso! E mais! Que nossa relação estado-povo (muito enfatizado pelo conservadorismo anglo-americano) é bem estatista desde o começo. O Império do Brasil em si, muito citado como exemplo de liberalismo conservador não era lá tão liberal assim. Basta pensar na constituição de 1824 que ainda guardava um poder gigantesco nas mãos do Imperador, inclusive para ele meter o bedelho nos outros poderes. Embora seja bem verdade que Pedro II praticamente não fez uso dessas atribuições ao longo de seu reinado. Portanto, abraçar o conservadorismo liberal aqui não é equivalente a conservar algo que já esteja presente, e sim trazer uma inovação que não apareceu aqui totalmente, já que a mentalidade liberal nunca deu muito as caras por aqui. Roberto Campos dizia isso com firmeza: "O liberalismo passou tão perto do Brasil quanto Plutão passou da Terra". 

Quem conhece bem a sociedade brasileira e pode nos ajudar a entender o nosso "Brasilzão" é Gilberto Freyre, e em muitas de suas obras ele sempre enfatizou que o brasileiro tinha um aspecto bem pouco propenso ao individualismo, até pela nossa mentalidade católica e lusófona que é bastante holista, afinal, o reino Português foi um dos primeiros estados nacionais a se solidificarem e se centralizarem na Europa ao fim da Idade Média. Outro autor que contribui muito para compreender o Brasil e o brasileiro é Raymundo Faoro. Em seu magnum opus, "Os donos do poder", o weberiano da USP traça um panorama histórico bastante complexo em que se desenvolve o estatismo brasileiro - tão odiado pelos conservadores liberais - esse panorama muito bem trabalhado por Faoro é uma herança nada mais nada menos que lusitana! Nascia assim, o "estamento burocrático" brasileiro. Se você não gosta muito disso, bem... Então você seria um ótimo conservador na América, mas aqui no Brasil você não seria exatamente um conservador, e sim um liberal. Mas não fique triste, amigão! O liberalismo aqui seria uma inovação, logo você pode ganhar com isso um ótimo adjetivo: inovador!

O próprio conservadorismo muda com o tempo. Basta pensar que o pai do conservadorismo anglo-americano como o conhecemos hoje é Edmund Burke que na verdade não era um tory e sim um whig. Os tories do Anciém Regime não tinham nada de individualistas! Eram absolutistas e bem "Throne and Shrine"! A mudança de paradigma se dá com a vitória definitiva dos liberais (whigs) sobre eles.

Entretanto, voltando a dissertação sobre diferenças espaciais (e não tanto temporais)...Como cada nação exprime seus valores e tradições de maneira diferente (afinal, são culturas diferentes) é de se esperar que cada povo pense seu conservadorismo de modo diferente. Por exemplo, na Europa continental maior expressão da mentalidade conservadora é a Democracia Cristã, que parte de princípios ligados a Doutrina Social da Igreja e que, portanto, rejeita tanto o liberalismo quanto o socialismo. Ao mesmo tempo que apoiam o livre-mercado apoiam um welfare state substancial como é o caso da Alemanha da chanceler Angela Merkel. Se analisarmos dentro da cosmovisão americana, a DC seria considerada centro-esquerda, mas não é assim que eles se veem, basta pensar em autores tradicionalmente afiliados a esse pensamento como G. K. Chesterton, Jacques Maritain, Alasdair MacIntyre e toda uma gama de tomistas e neotomistas que jamais poderiam ser tachados de esquerdistas! Aqui no Brasil mesmo temos um grande pensador da Democracia Cristã que é ignorado por muitos, embora seus livros sejam maravilhosos. Refiro-me, obviamente, a Gustavo Corção que durante muito tempo foi membro da finada UDN. Se ainda assim estiver em dúvidas acerca deste assunto, peço humildemente que assista o vídeo abaixo.



Voltando às páginas de Facebook, talvez elas lucrassem mais se tentassem para de cagar regras uma para a outra, baseadas apenas em noções confusas, bolcheviques e barbáricas de pretensa superioridade, e caso seus moderadores decidissem tirar um tempinho para ler alguma coisa...Sabe? Faz bem.

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