Os novos "americanos desde criancinha": tão engraçadinhos quanto ridiculosinhos

Celebração de ativistas LGBT diante da decisão em Washington (Fonte da imagem: El País)
Deu o que falar: na última sexta-feira, a Suprema Corte dos EUA, por cinco votos a quatro, declarou inconstitucionais as leis que vetavam o casamento entre pessoas do mesmo sexo em treze estados do país (ver aqui e aqui), fazendo com que este seja aceito em todo o território nacional. A decisão, vista como uma das mais importantes desde a luta por direitos civis nos anos 1950 e 1960, repercutiu dentro e fora do país, desde a saudação de Barack Obama à decisão até chegar às redes sociais, graças à iniciativa do Facebook em apoiar a causa (com direito à foto com as cores da bandeira que representa o movimento LGBT). É evidente que no Brasil muitos iriam aderir à onda, inclusive para "tirar um sarro" de figuras que se opõem à causa em nosso país, como Silas Malafaia, Marco Feliciano e Jair Bolsonaro.

Como é de ciência de muitos, a esquerda tem domínio quase que total dos movimentos que apoiam os homossexuais. Também é evidente que tal lado do espectro político, com forte atuação no sistema educacional em geral, conseguiu e ainda consegue inculcar na mente de milhões de crianças, adolescentes e jovens uma visão antiamericana do mundo: nela, os EUA são vistos como o grande "império do mal" e responsável pela maior parte das desgraças que aconteceram, acontecem e ainda acontecerão no planeta. Qualquer coisa que lembre a star-sprangled banner é, por aqui, vista quase como a representação do cramulhão. Enfim, invocar "morte à América" é quase um dever moral e apoiar iniciativas de "libertação do imperialismo norte-americano", idem. Depois da decisão histórica, o "morte à América" se transformou em "sou americano desde criancinha", só faltando, claro, "o'er land of the free and the home of the brave!". Vou admitir que achei engraçado isso. E digo também que foi tão engraçado quanto ridículo.


Os "baluartes contra o imperalismo" não tratam os gays a pão-de-ló

Como dito anteriormente, até a última quinta-feira, os EUA eram vistos como o símbolo máximo de um sistema injusto como o capitalismo, algo que já deveria ter sido destruído faz tempo. E, obviamente, toda e qualquer iniciativa de luta contra o "imperalismo norte-americano", seja por meio de Cuba, Venezuela, China e Rússia, são bem-vindas, mesmo que, por exemplo, estas últimas adotem práticas que não deixam de ser...Imperialistas. Ou vocês acham que tibetanos e chechenos aceitam, respectivamente e de bom grado, os domínios chinês e russo naquelas regiões? E isso é só um pequeno exemplo...

Engraçado que foi justo nos EUA, o cramulhão em forma de país, que o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi aprovado. E o que dizer dos "baluartes" anti-imperialistas?

Em Cuba, país ainda visto como exemplo para alguma coisa no mundo e referência para boa parte da esquerda brasileira, o casamento gay ainda é ilegal. Mas já foi ainda pior (um exemplo disso está aqui). Como muito bem compilado em um artigo no portal Spotniks, a homossexualidade representava uma ameaça aos objetivos revolucionários de Fidel Castro, e a exibição pública de características que lembrassem isso era reprimida. Caso você tenha ainda alguma dúvida, o próprio líder revolucionário cubano admitiu isso.

Na Rússia, um país bipolarmente invocado, seja pelos esquerdistas pelo combate ao "imperialismo norte-americano", seja por parte da direita pelo "conservadorismo" de Vladimir Putin, as paradas gays estão proibidas por um século (sim, um século, você não leu errado) desde 2012. A "propaganda homossexual" por lá é proibida. Certamente, não é o "poço de tolerância" que o esquerdismo adora tanto defender por aqui. E para aqueles que ainda acham que "conservadorismo" é fiscalismo de oco alheio, fica a pergunta: seria Vladimir Lenin, para vocês, um "conservador"?

A China, até a virada do século, também era um país que tratava os homossexuais a ferro e fogo, inclusive os considerando "doentes mentais". E, por fim, a Venezuela, ainda vista como "o último dos moicanos" na luta pelo socialismo do século XXI (que parece-se cada vez mais como o homólogo do século passado), tem como presidente Nicolás Maduro, um presidente que já disse que já chamou opositores políticos de "maricões", e chegou a se valer de sua mulher durante a campanha eleitoral de 2013 para desqualificar o opositor Henrique Capriles pelo fato de ser solteiro (ver aqui). Lembrando ainda que, na polícia venezuelana, é proibida qualquer manifestação pública de sua orientação sexual.


Vale a pena assistir ainda à compilação em vídeo feita por Rodrigo da Silva, autor do mesmo artigo no Spotniks, mostrando Luciana Genro, a mesma que combate as declarações homofóbicas de Levy Fidelix, defendendo Nicolás Maduro. Casa de ferreiro, espeto de pau, não é?

Last, but not least em relação ao tópico: ontem mesmo, a polícia reprimiu violentamente uma parada gay em Istambul, na Turquia. Por ora, o único país do Oriente Médio em que LGBTs podem se manifestar e existir como LGBTs chama-se...Israel (sim, aquela nação que você aprendeu na sala de aula que é uma opressora a serviço dos EUA). Se você pede coerência aos evangélicos, que deveriam fechar sua conta no Facebook assim como cogitaram o boicote a O Boticário, por que não ser igualmente coerente a fim de repudiar qualquer iniciativa de boicote à unica nação em que gays podem viver sem medo de ser felizes?


Não custa lembrar que na Palestina tão defendida pelo Babá, que é do mesmo partido de Luciana Genro e Jean Wyllys, gays não são atacados, nem presos. São mortos. O mesmo, inclusive, acontece nos territórios dominados pelo Estado Islâmico. A propósito, por falar de Jean Wyllys, não foi este quem deu o aval para o ensino do Islã nas escolas? Será que ele não sabe o que ocorre com homossexuais, mesmo em países sob domínio de muçulmanos "moderados"?

Enfim, meus caros amigos esquerdistas que eventualmente leram este post, vocês podem ter todos os motivos para criticar o "imperialismo estadunidense" (afinal, nem americano eles gostam de falar), mas saiba que um mundo dominado por China, Rússia ou pelos países árabes não seria melhor, isso sendo muito generoso. Muito menos mais tolerante. Fica a dica.

A decisão da Suprema Corte não tem nada de libertária

Bem, apesar dos esquerdistas serem um tanto incoerentes em comemorar uma decisão que aprova algo que nem de longe possui a mesma tolerância nos países "modelo" para eles, isso era algo previsível. O problema é quando pessoas que se dizem "libertárias" resolvem defender algo que, por mais liberal que seja em suas intenções, recorre a um meio completamente antiliberal para fazer valer a questão.

Antes de eu explicar o que disse no parágrafo anterior, é importante esclarecer minha opinião a respeito do casamento gay: não sou contra nem a favor. Afinal, não vejo a menor necessidade de o Estado interferir em uma questão que se trata de um acordo entre duas partes interessadas que resolveram se unir. Ou melhor, o Estado deve se limitar a garantir o cumprimento do que foi acordado. Resumo da ópera: casamento é um contrato. Ponto. Inclusive já tem estados que estão adotando esse caminho para driblar a decisão da Suprema Corte.

Finalizado o parêntese, vamos a duas observações (por sinal, muito bem levantadas pelo escritor Flavio Morgenstern): a primeira é que diferente de nosso sistema jurídico, que é baseado nas normas aprovadas pelo Legislativo (civil law), os EUA possui um sistema jurídico baseado em jurisprudência (common law - ver diferença entre os dois sistemas aqui): as próximas decisões judiciais são normalmente resolvidas com base nas anteriores.

A segunda é que o sistema administrativo norte-americano é federalista (em tese, aqui também deveria ser, muito embora não é de fato). Ou seja, cada estado possui leis diferentes, de forma que caso estas não sejam convenientes para o cidadão em um certo estado, ele pode se mudar para outro sem grandes problemas, ou ainda comparar um estado a outro e unir forças com outros cidadãos para induzir a criação ou derrubada de leis para o seu. Enfim, evita-se ao máximo legislar em nível federal, recorrendo-se a este expediente em último caso.

Ditas essas duas observações, por mais bem intencionada que seja a decisão da Suprema Corte dos EUA sobre o casamento gay, ela é um meio antiliberal de resolver a questão, tanto por atropelar a autonomia de legislar dos estados como por criar um precedente para que o poder federal resolva outras questões utilizando-se do mesmo expediente. Resumindo: maior centralização de poder.

Mas alguns libertários que comemoraram a decisão da Suprema Corte podem alegar que foi uma boa decisão, uma vez que se trata de uma questão de liberdade individual (e sim, faço questão de defender liberdade individual sempre que possível). Ok, o poder federal, por meio do Judiciário, impôs uma lei a todos os Estados que você apoia. Mas e se fosse uma lei que você não apoia? Percebeu o quanto uma causa popular pode dar margem para a imposição de causas impopulares, bastando apenas um forte ativismo judicial? E que fique claro, essa pergunta vale tanto para esquerdistas como para direitistas.

Em síntese: liberais e libertários que apoiam esta decisão estão defendendo algo que vai contra seus próprios princípios, apenas por ser uma medida aparentemente bem-intencionada. De aparentemente bem-intencionados que não se preocupam com os resultados, já bastam os esquerdistas.

Complexo de vira-lata

Uma expressão muito utilizada (e muito mal, em diversos casos) é a "complexo de vira-lata" (no post de 15/03/2013, logo após a escolha do Papa Francisco, comentei sobre isso): se a versão original de Nelson Rodrigues tinha a ver com um sentimento de inferioridade pelo simples fato de ser brasileiro, a corruptela adotada pelos esquerdistas vale para qualquer situação em que algo que não funciona (ou funciona pior) no Brasil é comparado com algo que funciona (ou funciona melhor) em outros países. Não adianta utilizar fatos, dados ou lógica que embase o seu argumento: para alguns, é quase uma obrigação moral defender algumas coisas que acontecem no país, por mais ruins que sejam.

O engraçado é que a decisão em favor ao casamento gay nos EUA, que levou muitos a colorirem suas fotos em prol da causa, já existe no Brasil desde...2013! Se o assunto é igualdade de direitos a casais heterossexuais e homossexuais, estamos a frente dos americanos. Mesmo assim, a repercussão por essa decisão em nosso país foi muito menor em relação à americana. A esquerda brasileira, que adora falar em prol dos LGBT, possui complexo de vira-lata? Cadê o discurso em defesa de valorizar aquilo que é nosso? Foi passear?

Encerrando

Como muito bem dito pelo colunista Rodrigo Constantino, espero que os novos "americanos desde criancinha", que até a última quinta-feira só faltavam gritar "morte à América", aproveitem o momento e apoiem outras coisas que funcionam por lá. Do contrário, continuarão sendo tão engraçadinhos quanto ridiculosinhos. Sem mais.

Aviso aos leitores: post semanal escrito durante o período de "licença" para as atividades acadêmicas de último período.

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