Por que a "nova direita" se converteu numa horda de bárbaros?

Mene bastante famoso no facebook (Fonte da imagem: Desconhecida)
Antes que comece o choro e o ranger de dentes... Antes que você comece a me chamar de comunista infiltrado, marxista cultural, proletário do dinheiro alheio, comedor de criancinhas, esquerdista caviar, cúmplice de genocídio ou qualquer outra coisa que preferir, procure pelo menos entender o centro da minha crítica.

Eu, como muitos, posso ser considerado como um "filho da nova direita", afinal, meus posicionamentos ideológicos começam a mudar no mesmo momento em que começa o movimento virtual que recusa o esquerdismo vigente na nossa sociedade. Não vou entrar aqui no mérito do que seria direita ou esquerda e suas respectivas definições, pois é uma discussão longa e complexa que fugiria completamente ao escopo da minha crítica. Ou seja, embora tenha minha própria concepção de direita e esquerda, vou usar aquela concepção mais bobinha e corriqueira que vemos na internet que identifica a direita com o liberalismo econômico, o individualismo, privatizações em massa e a esquerda com o estatismo desenfreado, fuzilamentos em massa de burgueses e um ideal coletivo.

Eu entendo perfeitamente que numa guerra política não importa tanto o que você acredita mas sim aquilo que você faz com que os outros acreditem sobre você. Aliás, Luciano Ayan me ensinou isso bem. Por exemplo, Luciana Genro vive fazendo analogias entre o liberalismo econômico e político e o fascismo. Ora, ela sabe perfeitamente que o fascismo é antiliberal, mas então, porque ela insiste nisso? Simples, não importa o que ela acredita. O que ela sabe não é importante. Importante é o discurso que ataca e elimina inimigos políticos; importante é o discurso que convence os desinformados e os alheios ao debate político que hoje reina nas páginas do facebook a votar nos partidos de esquerda.

E, convenhamos, como hoje em dia só há duas resistências ao socialismo no Brasil, fica fácil conseguir esses votos. Uma é de ordem moral - e sejamos sinceros - não é lá muito inteligente, como é o caso da bancada evangélica. Esta, desprezando qualquer noção de economia só aposta na resistência aos projetos progressistas no campo da cultura e dos valores morais da nova esquerda (muito bem criticada por Roger Scruton) das maneiras mais imbecis possíveis e sempre de maneira atabalhoada e irresponsável. A bancada evangélica não pensa muito antes de agir, e graças a isso, vira manchete de jornais tendenciosos loucos para plantar militância e colher homofobia. A partir daí, cabe apenas ao jornalismo militante expor os "malditos crentes homofóbicos!" afastando deles qualquer apoio popular por medo de uma execração pública. 

A outra é de ordem econômica: os liberais e os libertários. Estes se opõem a tudo quanto é estatismo, mas não se importam muito se os pais deixam os filhos morrerem de fome como no caso dos rothbardianos ou se o feminismo virou uma praga destruidora de conceitos como "dignidade da mulher"... Aliás, alguns amparados em John Stuart Mill e outros em Ayn Rand até apoiam essas coisas! Com isso, esses grupos recebem hostilidades de conservadores e afastam ainda mais de si o brasileiro médio, sujeitinho pseudo-crítico que está acostumado com um estado paternalista, e que ainda vê o liberalismo econômico com uma pá de desconfiança.

Ambos os grupos veem em Karl Marx a encarnação barbada de Belzebu (Baal Zebub no hebraico). Porém alguns pretensos seres humanos atacam um espantalho de Marx, na maioria dos casos. Abordarei este espantalho em mais detalhes alguns parágrafos abaixo. 

Sim, caro leitor. Vim aqui hoje ser o advogado de Karl "Belzebu" Marx. É claro que muitas vezes os seres humanos que habitam as longínquas terras de Zuckerberg, o tal reino do Facebook, postam memes sacaneando Marx, como o visto acima, que se tratam de uma deturpação proposital para alcançar fins políticos como a própria Luciana Genro faz ao associar fascismo e laissez faire. 

Quando se trata disso, eu tenho plena consciência de que se trata de um ardil político, bem elaborado e uma estratégia retórica sensata daquele que se utiliza dessa estratégia. A ridicularização é uma arma eficaz (novamente evoco Luciano Ayan, crítico político apaixonado por Saul Alinsky nessa lição). Não tenho razões para criticar quem faz isso, pois essas pessoas sabem perfeitamente o que Karl Marx disse e não disse. Sei disso pois, como já dito acima, sou um "filho da nova direita", e como consequência disso encontrei muita gente e também debati com muita gente inteligente (inclusive que se vale desses artifícios) durante minha longa caminhada pelos outrora fartos e hoje desertos vales do Sacro Império Romano-Facebookiano.

Porém, contudo, todavia... Há uma nova horda de indivíduos na rede social que hoje sacodem as ideias da direita política e têm tratado o velho Marx como um débil mental com 12 pontos e meio de Q.I. Como se o velho Karl fosse alguém de inteligência realmente limitada. Antes de escrever esse post decidi conversar com alguns destes "pretensos seres humanos" para ter certeza de que estava vendo algo real e não uma miragem construída pela minha cabeça.

(Fonte da imagem: Divulgação/Facebook)
O alvo que escolhi foi a imagem de uma prova postada no facebook (acima), feita por um aluno que trata Karl Marx como um "zé ruela". Sim, o sujeito parece pensar que Karl Marx é um qualquer, pessoa sem importância; ou ainda, como se Marx fosse uma pessoa ignorante e não fosse lá muito inteligente... Alguém como o Lula, por exemplo. Ora, não se trata aqui de concordar ou discordar de Marx. Não se trata aqui se ele estava certo ou errado. Mas sim de que, mesmo que Marx esteja errado, não é por isso que ele deixa de ser alguém menos genial do que ele é de fato.

"Ok!" - você exclama - "Mas isso não seria só uma "zueira" para confrontar o professor marxista?" - Sim. Cogitei esta hipótese, mas observe as demais respostas. Vemos alegações que são feitas de maneira séria e são muito comuns na internet. Principalmente entre pessoas que estão começando a se envolver nesse debate agora. A última em especial é uma resposta muito comum dada por libertários e liberais. As guerras não são culpa do capitalismo - segundo determinados pensadores da escola austríaca  - mas sim do Estado. Reitero, não está em questão aqui se esses austríacos estão certos ou errados, mas sim a seriedade das respostas de quem escreveu-as. O avaliando escreveu isso como zoeira ou acreditando no que escreveu? É isso que estou avaliando. Ao meu ver estas respostas transmitem ao mesmo tempo desprezo, raiva e sinceridade de crença. Parece-me evidente que o avaliando acredita no que diz.

Para testar a hipótese de que se trata de uma figura caricatural de Marx que está se espalhando, decidi confrontar pessoas nos comentários. Veja as imagens abaixo.

(Fonte da imagem: Divulgação/Facebook)
(Fonte da imagem: Divulgação/Facebook)
Para este que vos escreve estas postagens foram as provas cabais de que eu precisava para ter certeza do meu diagnóstico. A "nova direita" - ou pelo menos a maior parte dela - realmente acredita que Marx era um "Zé Ruela"! Ora, qualquer pessoa sabe perfeitamente que Marx era um intelectual de primeiro plano. O próprio Eugen von Böhm-Bawerk (1987, p.88) dizia isso!
"Assim é a lógica e o método com que Marx introduz em seu sistema o princípio fundamental de que o trabalho é a única base do valor. Como já afirmei recentemente em outra parte, julgo totalmente impossível que essa ginástica dialética fosse a fonte e a real justificativa da convicção de Marx. Um pensador da sua categoria - e considero-o um pensador de primeiríssima ordem - caso desejasse chegar a uma convicção própria, procurando com olhar imparcial a verdadeira relação das coisas, jamais teria partido por caminhos tão tortuosos e antinaturais."
Pode-se dizer que Marx, segundo Böhm-Bawerk, talvez fosse um sujeito cuja honestidade intelectual não fosse a ideal; mas nem mesmo a escola austríaca, de onde a maioria dos membros da "nova direita" toma suas ideias, considera-o um burro, um ignorante, um "Zé Ruela". Aliás outra menção honrosa a Marx, mesmo em meio a discordâncias, pode ser encontrada no próprio site do Instituto Mises Brasil!
"Marx teve sim uma grande ideia, a qual era em si totalmente correta, e que pode jogar mais luz sobre esta discussão.  Esta sua ideia foi fazer uma distinção entre aquilo que ele chamou de "circulação capitalista" e aquilo que ele chamou de "circulação simples".
O neo-ricardiano - e hoje louvado pelos pós-keynesianos - Piero Sraffa também criticou Marx, sem entretanto, jamais duvidar de seu intelecto. Ao contrário, Sraffa pesquisou seriamente Marx e acreditava que ele havia dado contribuições muito significativas para a ciência econômica.

Por que eu estou defendendo Marx, afinal? Porque estou cansado de desonestidade intelectual. Pois não só considero errado atacar um adversário que se ignora por completo suas ideias, mas também por atribuir a ele características pessoais pejorativas de suposta ignorância, quando na verdade, o único ignorante é o acusador que jamais leu uma linha de Marx e, provavelmente, deve desconhecer até mesmo o conceito de mais-valia. (Se observar as imagens acima, perceberá que inclusive um dos contendentes se orgulha de desconhecer Marx!)

Outra razão para esse puxão de orelha é que é extremamente irresponsável subestimar um adversário tão influente. Mesmo que Marx fosse de fato um lesado, subestimá-lo seria um erro tão crasso quanto ignorar um radical islâmico que diz que mãos ficam grávidas se você se masturbar. Basta lembrar o que essa gente faz e quanta gente elas influenciam! Pior ainda é ignorar um gênio reconhecido até pelos seus opositores!

Por que a direita se converteu nessa horda de bárbaros incultos e orgulhosos de sua ignorância? Bem, eu ainda não tenho respostas conclusivas para isso. Mas tenho minhas hipóteses... A massificação do direitismo atingindo milhares de pessoas na internet é uma causa provável. Infelizmente esse é o preço a se pagar pela  possibilidade de se influir na política do Estado moderno. A diferença é que, na minha época, os direitistas eram em menor número e viviam confinados em grupos anônimos onde transcorriam debates enriquecedores, hoje isso morreu e tornou-se apenas gozação e "zueira". Tem sua utilidade, é claro! Mas não dá pra abaixar a guarda e achar que Marx é um "Zé Ruela", e afirmo isso pro próprio bem da "nova direita".

Em tempo: Sugiro esse excelente texto do meu colega Sasha Lamounier.

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BÖHM-BAWERK, Eugen von. A teoria da exploração do socialismo/comunismo. Rio de Janeiro: Instituto Liberal/Editora José Olympio, 1987.

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