A porta da rua é a serventia da casa

(Fonte da imagem: Infomoney)
Bem, como é de conhecimento de todos, ontem foi o dia em que a Grécia, um país para lá de endividado e ainda em crise econômica, resolveu submeter um acordo com seus credores a um referendo. E o resultado foi claro: 61% dos eleitores votaram não, o que de certa forma ajuda a fortalecer a posição do primeiro-ministro Alexis Tsipras e da Syriza, partido de extrema-esquerda que assumiu o poder em janeiro deste ano. Ao mesmo tempo, reduz dramaticamente as chances de um (bom) acordo para solucionar o problema do país helênico, como demonstrado no discurso de Sigmar Gabriel, vice-chanceler alemão, após o resultado nas urnas.

É evidente que o oxi (não, em grego) que saiu das urnas gerou reações apaixonadas das esquerdas, tanto a europeia como a tupiniquim. Lá e cá, o resultado é visto por essas pessoas como uma resposta democrática dos gregos à tirania econômica representada pela troika e que tem por "cramulhão" a chanceler alemã Angela Merkel. Bem, parafraseando Winston Churchill, a democracia é a pior forma de governo, a exceção das demais alternativas já testadas. A questão é que a liberdade do povo grego em escolher os destinos de seu país não significa liberdade para abrir mão das consequências desta decisão. Da mesma forma que aqui no Brasil uma maioria, ainda que apertada, resolveu dar mais quatro anos à Dilma Rousseff, e o resultado é o que estamos vendo agora.

É importante lembrar que a querela decidida no referendo de ontem não era para decidir entre uma alternativa boa e outra ruim, e sim entre uma alternativa que seria um mau acordo, dado que o atual governo grego, entre propostas e recusas, resolveu protelar as negociações, e um passo que pode levar ao Grexit, ou, melhor dizendo, a saída do país helênico da zona do euro. Uma remotíssima possibilidade é de um acordo, que muito provavelmente será em condições piores em relação ao que aconteceria se a iniciativa da Syriza em negociar fosse verdadeira. E creio que muitos leitores deste blog vão concordar que não é verdadeira. Nunca foi.

Outra coisa não menos importante que precisa ser lembrada é que de nada adianta demonstrar "independência" diante dos credores europeus malvadões - ou nem tão malvadões assim - se ainda querem manter sua economia funcionando a base de euros e, ao mesmo tempo, querem mais empréstimos, inclusive com recursos dos demais contribuintes europeus, para que Tsipras e sua trupe banquem a sua Neverland socialista. Da mesma forma que de nada adianta um filhinho rebelde bater pezinho e fugir de casa se, toda vez que precisa bancar algo, precisa da grana dos pais.

Ditas as observações, é bom que os gregos entendam que, se realmente querem "independência" - no sentido "syrizista" do termo - é bom pensar em ter sua própria política monetária e cambial para poder se afirmar desta forma. E é bom que os europeus, mesmo pensando nos riscos geopolíticos que a Grécia pode representar em caso de saída do euro e até mesmo da UE para fazer acordos com a Rússia (atualmente em sua pior crise financeira desde 1998) e com a China (que está às portas de um crash em seu sistema financeiro), não forcem o país helênico a permanecer na cada vez mais frágil moeda única, até para mostrar a outros países que a existência da zona do euro implica em regras que precisam ser rigorosamente seguidas.

Enfim, está na hora de os demais europeus oferecerem aos gregos a porta da rua como serventia da casa. Foram eles quem escolheram isso, certo?

Em tempo: Yanis Varoufakis disse que renunciaria caso o "sim" vencesse o referendo. O não venceu e mesmo assim ele renunciou. Ô cara esperto! Se houver um acordo, ele leva os créditos, e se houver o Grexit ele dirá que não teve nada a ver com isso e, de quebra, culpará os credores europeus. De quebra, continuará sendo muito bem visto nos ambientes acadêmicos da Europa. E certamente ele seria muito bem visto nos ambientes acadêmicos daqui.

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