Eduardo Cunha pode ter sido apenas o pavio. A bomba mesmo está em Renan Calheiros

(Fonte da imagem: VEJA)
Ainda repercute a notícia que pode ter começado a entornar o caldo da crise política instaurada desde o início do segundo mandato da Dilma Rousseff: a de que o Presidente da Câmara, Eduardo Cunha, decidiu romper com o governo e oficializar sua postura de oposição. A notícia, como era de se esperar, repercutiu bastante na imprensa e nas redes sociais, sobretudo pelo "barulhaço" promovido contra o desafeto do Planalto enquanto ele se pronunciava ontem.

Antes de iniciar os meus arrazoados sobre o assunto, eu pretendo falar para quem este meu artigo é direcionado: primeiramente, aos eventuais leitores governistas e demais esquerdistas deste blog, que enxergam em Cunha um "cramulhão" por ter recebido US$ 5 milhões de propina, mas que não deram um pio (ou então reclamaram muito menos) enquanto tiveram João Paulo Cunha e Henrique Alves como presidentes da Câmara e José Sarney no comando do Senado. Até onde sei, nenhum dos três citados eram santos, mas, enquanto fossem úteis em fazer do Legislativo apenas um assinante de cheques do Executivo, estava tutto bene. Em segundo lugar, este texto vai para alguns tucanos e direitistas que ainda querem perder tempo com purismos e sentem mais nojinho que os pôneis malditos do comercial da Nissan: sim, é duro dizer isso, mas a política brasileira não é um negócio para estômagos frágeis. E o que vocês preferem, um presidente da Câmara corrupto mas que não sirva de moleque de recados para o governo petista, ou um presidente da Câmara igualmente corrupto e que seja um poodle do Planalto? Lamento dizer também, mas não há uma terceira alternativa no caminho. Ponto.

Puxões de orelha finalizados, eu divido minha opinião em duas partes. A primeira, é que a decisão de Cunha, por mais que provoque um terremoto político em uma estrutura a beira de cair, era até certo ponto previsível. Tanto que a reação do Planalto foi bem comedida em se tratando da gravidade do fato, sinal de que esse já esperava pelo impacto. A segunda é que diferente do que alguns pensam, inclusive na direita, não vejo no Presidente da Câmara uma bomba, e sim um pavio. A bomba está no Senado e tem nome e sobrenome: Renan Calheiros, que é o atual presidente da casa mais alta do Legislativo.

Explico os motivos de eu enxergar em Calheiros uma ameaça no mínimo tão grande quanto em Cunha. Mas antes que tentem esfregar na minha cara notícias dizendo que "Cunha está isolado", é importante lembrar que o PMDB dificilmente assume de forma explícita uma postura oposicionista com um governo em curso. Na pior das hipóteses, resolve fazer o que muitos personagens de filmes de ação fazem quando algo está prestes a explodir: pulam rapidamente para fora. Fora isso, o impacto do rompimento de Cunha ficará mais evidente a partir de uma imposição de mais pautas que sejam contra os interesses do Executivo. Feito o parêntese, vamos ao primeiro motivo: Calheiros está quase tão encrencado quanto Cunha na Lava Jato, e o Presidente do Senado possui uma visão muito parecida a de seu homólogo na Câmara sobre estar entre os citados no esquema de corrupção, é a de que o Planalto está usando a Polícia Federal e o Judiciário para assediá-los. Sendo isso verdadeiro ou não, um "álibi" para ele se rebelar contra o governo ele já tem.

O segundo, é que diferente de Cunha, que sonha com voos mais altos na política nacional, seja através do parlamentarismo, seja se lançando na candidatura própria do PMDB em 2018, as perspectivas de Calheiros são bem mais estreitas. Talvez, e muito talvez, ele tente de novo o Senado, mas e se não tiver condições políticas para isso, principalmente se o seu nome for para o mesmo limbo de Cunha? Ele poderia entender que "não tem mais nada a perder" e, caso caísse junto com seu "colega" na Câmara, arriscaria a implodir o que resta do governo. No melhor estilo Sansão, "morra eu com os petistas!".


O terceiro, por fim, é que enquanto Cunha já era visto como um desafeto do Planalto, tanto que este fez de tudo para evitar a sua vitória nas eleições para presidente da Câmara, Calheiros foi justamente a aposta do Planalto para ter um mínimo de tranquilidade no Senado. Caso ele se rebele, haveria o sinal de que nem mesmo os apoiadores mais fieis do governo por parte do PMDB confiam mais no estado atual de coisas, e a ingovernabilidade total estaria oficializada, o que, inclusive, pavimentaria o caminho do impeachment caso o TCU resolva, finalmente, reprovar as "pedaladas fiscais" de Dilma Rousseff.

Enfim, por mais impactante que tenha sido a decisão de Eduardo Cunha de oficializar seu rompimento com o governo, ainda não é o pior dos mundos. Este, creio eu, ainda estará por vir no que se refere ao Legislativo. Podemos muito bem ter dois "Sansões" dispostos a uma morte política, desde que levem o máximo de governistas juntos com ele. Talvez seja bom que isso aconteça.

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