O caos grego e outras coisinhas mais...

Alexis Tsipras finalmente realizará o seu sonho. (Fonte da imagem: Divulgação)
O referendo grego deu vitória ao "não", ou seja, o país rejeita a austeridade fiscal imposta pela Troika. Embora no Brasil se tenda a culpar os credores pelas dívidas e nunca o devedor, uma análise racional observa claramente que o processo que levou o caos grego começou quando o PASOK (centro-esquerda) encantado com o mundo mágico da moeda forte começou a gastar loucamente e quando o ND (centro-direita), longe de frear esse gasto ensandecido, decidiu fingir que não tinha nada acontecendo, a culpa é sempre do devedor. Como era óbvio que ia acontecer, no final das contas o país foi pro vermelho, o dinheiro parou de chegar. Os credores, receosos, acharam a farra exagerada e começaram a cobrar os títulos... Já dizia o ditado popular que "quando a esmola é muita o santo desconfia", e como de onde se tira e não se põe, acaba...

O país entrou no caos ainda sob a gestão do ND. A Syriza com um discurso psolista e carinhas jovens e "modernosas" ganhou a preferência popular e ganhou de lavada. Qualquer pessoa que olhasse desatentamente o discurso de Alexis Tsipras da Syriza acharia que eles estavam competindo em uma eleição de DCE da UFES ou da USP. Mas o duro fato é que eles estavam competindo por nada mais nada menos que a posse do Estado Nacional Grego, o berço da civilização do ocidente.

O economista José Oreiro traz um texto interessantíssimo ontem em seu blog. Na atual situação não há escolha para a Grécia, ou ela sai do Euro ou ela volta atrás e aceita humilhantemente (embora não precisasse ser humilhante) as condições da União Européia. De ponto "positivo" para a Grécia será recuperar para si as ferramentas da Política Monetária e Cambial que, por definição estão nas mãos do Banco Central Europeu, um órgão supranacional. Ou seja, Alexis Tsipras terá a oportunidade que sempre sonhou: imprimir o máximo de dinheiro que precisar (por isso as aspas). De lado negativo (sem aspas), a Dracma volta como a moeda mais desvalorizada da Europa, isso significa que haverá uma inflação de custos brutal. E como o cenário que se desenha de crise chinesa (veremos a seguir) é triste, talvez a desvalorização não incentive as exportações. Se atualmente há um problema com deflação, o problema será a seguir, inflação e nesse ponto o problema grego vai ficar parecido com os dos países do eixo bolivariano. 

Apesar de em condições normais eu ser contrário a Oreiro, que é um nacional-desenvolvimentista contrário a austeridade, dessa vez eu concordo com ele que talvez a austeridade não seja o melhor caminho. Vocês entenderão a seguir...

OUTRAS COISINHAS MAIS...

O monstro chinês está desmoronando. A desaceleração da economia chinesa não é um fato de menor importância, ao contrário, é o estouro do que eu vinha anunciando no Facebook já a algum tempo. A economia chinesa em muitos aspectos me lembra a brasileira na época do "Milagre Econômico" de Delfim Netto. No fim da gastança só sobrou dívida e inflação. Na China ao que tudo indica não será diferente. O economista australiano Steve Keen foi o primeiro a anunciar a bolha chinesa, e não se espantem ao se dar conta que Keen é um pós-keynesiano!

A austeridade imposta a Grécia como dura medida contra a gastança desenfreada do estatismo de centro-esquerda, o populismo da cento-direita e a burrice da extrema-esquerda (Syriza) gerou um caos social sem precedentes. Escassez, desemprego de 1/4 da população economicamente ativa e uma crise deflacionária que seria facilmente resolvido com uma dose de Keynes se não fosse a União Européia - em situação normal - mas que agora exigiria cada vez mais Friedman se não fosse a China.

O fato é que pela lógica normal, uma crise estagflacionária resultante da saída do deflacionário Euro só poderia ser resolvida pela austeridade fiscal desejada pela União Européia (exceto de que no euro a crise é deflacionária), por outro lado, dada a atual situação da China ela pode se tornar ainda pior! Agentes chineses são donos da maior parte dos títulos públicos do ocidente, a maior parte da dívida americana estão em mãos chinesas e parte considerável dos títulos da UE também. Por outro lado a China também emitiu dividas a torto e a direito, como resultado disso uma crise chinesa se alastraria pelo mundo afora. E uma má notícia...

...Nós já estamos nela. Só não sentimos ainda. A crise de 2008 começou na verdade em 2006, mas seus impactos tardaram dois anos. Apertem os cintos, colegas... A pancada vai ser das brabas! Veja o gráfico.

(Fonte da imagem: Bloomberg)
O Brasil, que tem a China como seu maior parceiro comercial vai ser pego com as calças na mão, num momento de ajuste fiscal e de situação econômica em processo de deterioração. Se acontecer prevejo a Selic subindo mais e inflação na casa dos dois dígitos. Mas isso irá depender do 'timing' da crise.

O futuro não é dos mais promissores e eu não arriscaria palpites agora de como sair, embora esteja cético quanto a simplesmente parar de gastar agora. Isso devia ter sido feito muito antes do que está por vir. Talvez, na UE, só a Alemanha consiga sobreviver ao impacto por conta de sua responsabilidade fiscal invejável. Estou cético quanto os Estados Unidos nesse quadro. Fora isso, o futuro é obscuro.

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