O "Grexit" é o melhor choque de realidade para a União Europeia e, por que não, para a própria Grécia

(Fonte da imagem: Yahoo Notícias)
Os desdobramentos do referendo na Grécia, ocorrido no último domingo e já abordado neste blog (tanto por mim como pelo meu colega de bancada Arthur Rizzi), ainda dão pano para manga. Apesar de o resultado da consulta popular ter levado o governo grego a uma situação de "tudo ou nada" na negociação com os credores - a última proposta de Alexis Tsipras você pode conferir aqui - o meu pitaco por hoje será sobre a hipótese de nada ser resolvido e o país helênico acabar sendo "convidado" a se retirar da zona do euro, também conhecido como Grexit.

É evidente que a vitória do oxi (não, em grego) na votação do último domingo acabou ajudando os esquerdistas a requentarem mitos e/ou revanchismos antigos, como "o neoliberalismo quebrou a Grécia" e "os gregos deveriam ser indenizados pelos alemães por causa das dívidas da Segunda Guerra Mundial". Neste caso, o primeiro deles eu me debrucei para refutá-lo no primeiro tópico de um artigo que escrevi no blog em 28/01, quando ainda era grande a euforia com a vitória da Syriza. O segundo, como muito bem lembrado em um artigo de Arthur Rizzi no dia 25/05, era sobre o golpe baixo da extrema-esquerda grega em querer cobrar uma dívida da Alemanha pela invasão nazista na Segunda Guerra Mundial enquanto não age com a mesma dureza com a Itália, uma vez que os fascistas liderados por Mussolini foram os pivôs da batalha, e os alemães invadiram depois. Não custa lembrar ainda que a Itália é hoje governada por Matteo Renzi, até então visto por Tsipras como aliado na luta contra a austeridade promovida por Bruxelas e Berlim. Quem quiser conferir outras lendas urbanas sobre a tragédia grega pode conferir este excelente artigo do português José Manuel Fernandes, escrito em fevereiro.

Mas não só lendas urbanas, mitos e revanchismos foram ressuscitados como também novos choradinhos foram acrescentados ao já excessivamente emocional debate sobre a questão. Em um deles, vocalizado pelo economista e aclamado novo guru da esquerda Thomas Piketty, dizia que a Alemanha não tinha moral para cobrar as dívidas da Grécia, e, apesar da colocação dele não ter se aplicado apenas à questão das dívidas da Segunda Guerra Mundial, muitos resolveram recordar deste ponto.

Independente de a fala dele se aplicar ou não somente ao período 1939-45 ou mesmo antes disso, não é preciso ir muito longe na análise para concluir que a fala de Piketty é uma tremenda bobagem. Por duas razões: a primeira, está nas circunstâncias em que cada país se endividou. No caso da Alemanha, que teve parte da dívida da Segunda Guerra perdoada em 1953, é importante lembrar que essa dívida foi contraída por um ditador que não mediu esforços para criar um verdadeiro império sob seus domínios, no caso, Hitler. A propósito, justamente a imposição de uma indenização de guerra para os germânicos na Primeira Guerra Mundial foi uma das causas que acabou criando o "palco" para a Segunda. Além disso, é importante lembrar que a Alemanha adotou uma política econômica bem mais responsável desde então, criando uma espécie de "terceira via" entre o liberalismo econômico e a social-democracia. Isso sem falar no fator geopolítico: o país era - e é até hoje - rico em recursos naturais e, se o capital físico havia sido destruído, ainda tinha capital humano suficiente para uma reindustrialização. Certamente não seria um bom negócio deixar um pais que hoje é a quarta economia do planeta cair nas mãos da União Soviética, que era a segunda potência daquela época. Enfim, no final das contas, a benevolência com os alemães foi um bom negócio.

Não dá para falar o mesmo da situação da Grécia, nem mesmo parcialmente. Para começo de conversa, a dívida grega é resultante de uma combinação entre má gestão, populismo irresponsável e corrupção (quem quiser mais explicações pode conferir estes dois ótimos artigos de O Insurgente - aqui e aqui), que, sem contrapartida em aumento de produtividade e competitividade, acabava sendo bancada por endividamento com os demais países da UE. Dívida essa contraída por governos democraticamente eleitos e que se sucederam por meios democráticos, sem qualquer envolvimento em conflitos de larga escala com outros países do Velho Continente. O segundo ponto é quanto à contrapartida que o país helênico poderia oferecer em resposta a um eventual perdão. Como disse no parágrafo anterior, a Alemanha já conduzia responsavelmente suas políticas econômicas, fiscal e cambial de forma que valeria perdoar parte da dívida e garantir o seu pagamento o mais breve possível, situação que não se reproduziu nem em uma comparação forçada nos governos de Papandreou, Papademos, Samaras e que até agora estaria completamente fora de cogitação por Tsipras, que em seu programa de governo tinha a intenção de ampliar os gastos públicos.


Por fim, o terceiro ponto, que trata do aspecto geopolítico, é sobre o temor de que o Grexit aproxime o país helênico da Rússia e da China, que pretendem ser um contraponto ao Ocidente. Só que neste caso as semelhanças praticamente não existem. Por um lado, a Grécia não é industrializada como a Alemanha e sua economia gira em torno de produtos primários (vinhos, azeites, etc.) e do turismo; por outro, não é uma economia pequena como Cuba (que, em dólar, possui 1/4 do PIB grego). Com pouco a oferecer e com grandes necessidades de investimento, os gregos acabariam sendo mais dor de cabeça que "moeda de troca" a russos e chineses. A propósito, a Rússia está mergulhada em sua pior crise desde 1998 e a China pode estar um um crash em andamento. Enfim, se a União Europeia não tem sido boa companheira para os gregos, é difícil (diria quase impossível) imaginar o quanto a trupe de Vladimir Putin e Xi Jinping poderia ser melhor.

Outra viagem na maionese parte de aqueles que tentam comparar um default grego ao islandês ou ao argentino, alegando que ambos não foram (tão) prejudiciais como os defensores da austeridade dizem. Mais uma vez, o erro de comparação é evidente: o primeiro caso tem a ver com a dívida dos bancos aos credores internacionais, e não a dívida pública, isso sem falar que a Islândia não faz parte da zona do euro nem da União Europeia. Já no caso argentino, apesar do crescimento que o país teve no governo de Nestor Kirchner, a economia do país voltou a se deteriorar com sua esposa Cristina, e o calote dado em 2001 ainda dá problemas ao país, sobretudo na questão dos fundos abutres. E com direito a mais um default.

Finalizadas estas observações sobre os choradinhos, vamos ao que interessa, que é sobre as implicações de um possível Grexit, e o motivo de eu defendê-lo em caso de não acordo (diga-se de passagem, o governo de Tsipras enviou uma proposta que é basicamente a que foi rejeitada no referendo do último domingo com algumas "pedaladas"). Primeiro, é importante considerar a importância do que será decidido nos próximos meses, uma vez que o caso da Grécia pode servir de precedente para outros países em situação semelhante. Simplesmente perdoar toda ou mesmo parte da dívida, sem exigir contrapartidas do país helênico, seria premiar a prática de países despreocupados com responsabilidade fiscal, bastando apenas recorrer à chantagem para obter o perdão da dívida e, assim, seguirem com suas políticas populistas até a próxima bancarrota. Considerar isso como um alternativa séria só não é mais humorístico que a piada de Schäuble, ministro das finanças alemão, em resposta a insistente posição dos EUA sobre uma postura mais benevolente com o governo grego.

(Fonte da imagem: Divulgação)
Neste caso, restariam duas opções: uma reestruturação da dívida pública grega condicionada à implantação de medidas que assegurem responsabilidade fiscal e permitam melhorias na produtividade e competitividade do país helênico, ou, caso não haja acordo sobre isso, o Grexit. Neste último caso, a Grécia deixaria a zona do euro e teria que tocar sua economia retornando à dracma. Se em 2012, quando às chances de vitória da extrema-esquerda eram bem menores, já se avaliava um desastre no retorno à ex-moeda, é possível imaginar o quão maior seria esse caso acontecesse agora.

Dito isso, alguns podem estar se perguntando: por que o Grexit seria o melhor choque de realidade tanto à União Europeia como para a própria Grécia?

Primeiro, a saída grega do euro revelaria que sustentar o projeto de moeda única para o velho continente requer uma maior convergência na visão das políticas fiscais dos países-membros do bloco monetário, algo que desde sua introdução nos mercado financeiros mundiais em 1999 e seu início de circulação em 2002 não aconteceu de forma plena, e, creio eu, dificilmente acontecerá. Levando em conta que o Grexit abra um precedente para que outros países deixem a moeda única por razões de conveniência - algo não muito provável mas não impossível - para países em situação econômica mais delicada, como Espanha, Portugal, Irlanda e Itália, restaria à Alemanha e aos demais países do bloco tocarem para frente o projeto, isso se não houvesse danos à reputação do euro, algo também não muito provável.

Segundo, sair do euro, por um lado, teria como vantagem o fato de que a Grécia voltaria a controlar sua política cambial e monetária (ou seja, voltaria parte da "soberania" que Alexis Tsipras tanto reclama, ao mesmo tempo que fala que a crise de seu país é um "problema europeu"), coisas que não são possíveis de se fazer estando na moeda única. Por outro lado, levando em conta, sobretudo, o programa ideológico da Syriza, o governo grego muito provavelmente "solucionaria" (aspas, muitas aspas) as questões de seu financiamento pela impressão de dinheiro, o que ocasionaria altos índices de inflação (leia-se: inflação de dois dígitos, em padrões venezuelanos nos primeiros anos de retorno à dracma). Ficaria evidente que, se a Grécia está ruim com o euro, fora dela poderá ficar muito pior, pelo menos inicialmente. De qualquer forma, serviria aos demais países europeus como aviso a eventuais eleitores que resolvam cair no "canto da sereia" de partidos populistas como o Podemos na Espanha e o Movimento 5 Estrelas na Itália, por exemplo.

Terceiro, que é um motivo "gêmeo" em relação ao primeiro, o Grexit serviria como demonstração de que estar na união monetária implica em cumprir regras, entre elas as de responsabilidade fiscal. Se o governo grego quer transformar o problema de seu país em problema europeu, a solução proposta terá de ser igualmente europeia, e as condições para se chegar à solução terão de ser em comum acordo com os demais países europeus, inclusa a possibilidade de referendos para que as populações destes possam aceitar ou não a "solidariedade" ao país helênico (a democracia tem que valer para todos, não acha?). Se, do contrário, os gregos querem usar a ideia de "soberania" para querer bancar o filho rebelde mas que não faz questão de sair do apartamento dos pais, melhor que a Europa mostre a porta da rua. Simples assim, óbvio assim, evidente assim.

Enfim, se a Grécia está disposta a colocar as cartas na mesa, nada mais justo que a União Europeia coloque. É assim que se funciona o jogo.

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