There is no alternative

(Fonte da imagem: Público.pt)
A frase que serve de título para o artigo de hoje (também conhecida pelo acrônimo TINA) era um slogan adotado pela então primeira-ministra do Reino Unido Margaret Thatcher, à medida que a Dama de Ferro implementava as mudanças que levariam o país britânico do posto de "doente da Europa" a uma economia de mercado.

O leitor deve estar se perguntando agora: o que tem a ver o famoso slogan thatcherista com a situação da Grécia?

Quem acompanha os noticiários e este blog há algum tempo - ver aqui, aqui e aqui - sabe as últimas semanas foram de muita tensão no país helênico: reuniões sem acordo com os credores europeus, convocação de referendo para aceitar a proposta destes, corrida aos bancos, que precisou ser estancada por meio de um corralito (limitando os saques diários a 60 euros) e, por fim, um sonoro oxi (não, em grego), no qual 61% dos eleitores rejeitaram esse acordo. Após isso, mais negociações com credores, líderes europeus cada vez menos confiantes e a iminência de um Grexit, ainda que temporário, passa a estar no papel...Mas, entre mortos e feridos, habemus acordo.

Mas ora, o que prevê este acordo? Bem, ele prevê uma ajuda de 86 bilhões de euros à Grécia, sendo que neste pacote, 50 bilhões seriam utilizados para recapitalizar os bancos e fazer investimentos que estimulem o crescimento econômico. Em troca, o governo grego terá que estabelecer um fundo com a finalidade de vender ativos valiosos para pagar o resgate, reformar a previdência, liberalizar a economia, privatizar, reformar o mercado de trabalho, medidas que garantam a independência do escritório de estatísticas grego (o equivalente ao nosso IBGE), medidas de cortes automáticos de gastos caso o governo não cumpra as metas de superávit primário e estabelece o prazo de 22 deste mês para a revisão do sistema de justiça civil e alinhar as regras que regem os bancos com a dos demais países da União Europeia.

Todas essas medidas recebem o nome pomposo de reformas. Estas, por sua vez, são um nome muito pomposo para austeridade. Ponto.

Não leitor, você não leu errado: vai ter austeridade sim. No governo de Alexis Tsipras. Da Syriza. O equivalente a nossa Luciana Genro e ao PSOL daqui. E sim, elas são praticamente iguais às rejeitadas no referendo de 05/07. Sim, estamos falando de um estelionato eleitoral. Diga-se de passagem, um estelionato eleitoral duplo, uma vez que os gregos votaram em um partido justamente pela oposição às medidas de austeridade e rejeitaram um acordo com os credores que seguia essa linha. Perto do que Alexis Tsipras fez, a austeridade cambota de Dilma Rousseff aqui no Brasil seria brincadeira de criança.

Um leitor pode estar se perguntando: então você é contra a austeridade? Claro que não. A austeridade, que é apenas uma forma disfêmica de falar em responsabilidade fiscal (ou seja, seus gastos devem estar alinhados com suas receitas, algo que deveria ser trivial) não é uma opção, e sim uma necessidade para qualquer país que queira manter-se em longo prazo. O problema é que Tsipras tentou ignorar tudo isso, praticamente parou o país por quase seis meses, puxando o freio de mão da economia (que andava devagar, mas andava) e levando os bancos à quase bancarrota. Tudo isso para no final assinar um acordo que seria perfeitamente "canetável" pelos partidos ND e PASOK, as duas forças políticas que se revezaram no poder nos últimos quarenta anos. Custava apresentar a realidade ao povo grego?

Enfim, seja no Reino Unido dos anos 80 ou na atual Grécia, a realidade mostra que there is no alternative. Pena que tanto Tsipras como os gregos tiveram que aprender isso da pior forma. A Syriza pode muito bem ter sido o caminho mais longo e doloroso da austeridade para a austeridade.


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