Caça e sadismo

(Fonte da imagem: BBC Brasil)
Olá novamente, queridos leitores do MP. Como vão? Bem, aqui é Vinicius Littig novamente e, como na última postagem, pretendo comentar mais uma notícia de cunho ecológico que correu o mundo e comoveu as pessoas. Como devem ter notado pelo título, falo da covarde caçada do leão Cecil, símbolo do país africano Zimbábue. Na verdade, acho que "caçada" e "covarde" criam pleonasmo nesse trecho levando em conta nosso contexto atual. Como sempre, separarei o post em etapas e, até o final dele, planejo provar o seguinte ponto: um caçador nos dias atuais, na maioria absoluta das vezes, é um sádico. Então, vamos lá!

1) Partindo da filosofia...

Para que entendam meu ponto de vista, primeiro preciso explicar da minha filosofia e forma de ver o mundo. Já disse na postagem sobre obsolescência programada (que pode conferir aqui) que sou bastante enviesado ecologicamente, e minha filosofia não é diferente. A começar, não nos vejo como seres mais importantes que os outros — toda nossa importância é auto-construída. Isso não quer dizer que eu veja uma galinha como mais importante que a vida de um bebê humano, muito pelo contrário. Só que, ecologicamente falando, possuímos a mesma "importância": somos vidas que surgiram ao acaso em um planeta qualquer de uma galáxia qualquer e que se adaptam para continuar vivos. Isso quer dizer que, para nós, somos importantíssimos, mas para um outro animal qualquer ou mesmo para a terra não passamos de pequenas pulgas irritantes. Caso você, leitor, tenha um cunho mais religioso, discordamos em muitas coisas e, possivelmente, possuímos visões opostas de mundo.


Sabe todo o estrago que fazemos no planeta? Então: a vida se adapta, o planeta continua intacto e, se nossa espécie entrar em extinção, seremos varridos da história facilmente. Simplesmente assim. "Mas espere — se você acha isso, por que gosta tanto de defender políticas sustentáveis e se importa tanto com a destruição planeta?", você se pergunta. Porque isso me afeta, te afeta, nos afeta. A espécie humana depende de outras espécies para sobreviver e, se elas deixam de existir, nossas chances de sobrevivência caem drasticamente. "Tá, mas como dependemos de um leão?", você se pergunta agora. Bem, se você fugiu das aulas de quinta série sobre as relações ecológicas entre os seres vivos como um todo, não serei eu a explicar. Fato é que nem todas as dependências são diretas — muitas dela (a esmagadora maioria, aliás) são indiretas. Ao dependermos da carne bovina para alimentação, caracteriza-se uma dependência direta. Ao depender da saúde da grama que a vaca come porque essa grama pode conter substâncias que envenenam a coitada e afetam a qualidade de sua carne, estamos dependendo da comida da vaca de forma indireta. Só pra exemplificar mesmo, não vou me estender mais: vamos para o próximo ponto.

2) A verdadeira caça e a "caça" atual

A caçada já foi muito nobre para nós. Sim, muito nobre. Na verdade, não estaríamos aqui sem ela: se nossos ancestrais não passassem a caçar espécies menores durante períodos como a última era glacial, não conseguiriam reserva suficiente de gordura e pereceriam frente às adversidades ambientais. A carne e produtos de origem animal também possuem mais proteínas que os de origem vegetal, então nosso desenvolvimento cerebral e corporal como um todo agradece. De qualquer forma, essa era a verdadeira caça: ancestrais humanos com ferramentas primitivas enfrentando bestas por vezes maiores em estatura do que eles e conseguindo com sua força o alimento para sustentar-se. Falo que a caça nesse tempo era nobre pois servia a uma necessidade humana, a alimentação. Por vezes sua segurança era colocada em risco, e matávamos em nossa defesa. Era matar ou morrer.

Agora, analisemos a "caça" nos dias modernos. Homens ricos indo para um país pobre no meio do continente africano se dignam a pagar uma fortuna para, na segurança de um jipe e a muitos e muitos metros de distância, com seu rifle, atirar em um animal selvagem que não o oferece perigo para ter o prazer de retirar seu couro e pendurar sua cabeça estufada na parede de casa. Onde está o sentido no ato? Confesso que estou sendo um tanto utilitarista ao achar que toda morte deve possuir um propósito, dando para a vida uma aura de "santidade". Nesse caso, o único propósito é dar o prazer da morte de um animal a um canalha cujo único conforto será saber que a bala de sua arma acabou com a vida de um pobre e indefeso ser. Não somos donos do planeta e não desenvolvemos tanto nossa filosofia sobre o certo e o errado para, em pleno século XXI, aceitarmos esse tipo de atrocidade.

3) Sadismo humano

A definição de sadismo é sentir prazer com a dor alheia. Quando matamos planetas, insetos ou combatemos vírus, não vemos sua dor expressa e isso torna toda a experiência mais fácil. Isso não quer dizer que eles não sintam dor. Mas nossa visão de dor sugere que somente nós e algum punhado de seres superiores que apresentam rostos a sentem pois podem expressar tal dor. Uma planta pode sentir dor à sua forma, assim como o resto. Ora essa, toda criatura viva quer manter-se viva, é seu instinto natural! Matamos hoje, muitas das vezes, em prol de nosso conforto e prazer. Mesmo partindo de meu conceito filosófico, devo admitir que mato fora da esfera da necessidade. Mas não sinto prazer nisso. Apesar de matar baratas, animais que mais detesto, pelo meu conforto, mesmo podendo usar a desculpa da necessidade para justificar meus atos e não usando, sinto prazer algum. Sinto nojo, repúdio. Quando mato aranhas dentro de casa, além de sentir nenhum prazer, entendo ainda da necessidade que elas têm para manter insetos afastados e, de certa forma, é uma pena para um insectofóbico como eu.

A grande diferença de nós, pessoas do dia-a-dia, para os "caçadores", é que eles sentem prazer naquilo que fazem. O fazem por "esporte", o que quer que isso signifique. Caçam aves, mamíferos, alguns répteis e pelo quê? Enfeitar paredes em sua sala de estar? E sim, eles sentem prazer no ATO de caçar, de matar esses seres vivos. Se contentam com a dor alheia. Ora essa, em que parte do mundo isso não seria considerado sadismo? Só na cabeça de gente igualmente doente que defende esse tipo de babaquice.

4) As desculpas mais famosas

Para os caçadores, existem toda a sorte de desculpas esfarrapadas para justificar sua sandice. Abaixo, listarei algumas delas e como elas são facilmente refutadas ante um rápido enfrentamento.

a) "É tradição em alguns países!"

R.: Para os judeus, é tradição a circuncisão. Para algumas tribos indígenas da América pré-colombiana, era tradição o canibalismo. Para o islã, é tradição mulheres andarem de burca. Isso significa que esses costumes devem ser respeitados e nunca questionados só por que são tradições?

b) "É um esporte!"

R.: Se eu criar um esporte cujo objetivo é atirar na maior quantidade de humanos em um minuto munido de uma sub-metralhadora, a prática se torna justificável? Fora que o esporte visa o aperfeiçoamento do corpo através de atividades físicas, então é meio idiota pensar que um caçador moderno em cima de seu jipe e usando um rifle possa ser um "esportista".

c) "Ajuda ecologicamente a controlar superpopulações!"

R.: ATENÇÃO, essa desculpa é a mais frequente e um incauto qualquer poderá se deixar guiar por essa baboseira sem escrúpulos. A verdade é que a própria natureza já faz isso! Sim, isso mesmo. Dados os recursos do ambiente, populações crescem e diminuem. Mesmo que um humano altere o ambiente de forma a favorecer uma espécie, a própria natureza pode dar cabo disso ao ampliar o número de predadores naturais, por exemplo. Fora que em populações grandes, doenças se espalham mais rápido e os recursos logo acabam. Logo, não há necessidade de interferência humana.

(NOTA: Isso tem nada a ver com casos de quando o homem leva uma espécie de lugar A para B onde a mesma não possui predadores — isso pode acabar com fauna e flora locais, alterando com o equilíbrio e, nesse caso, sendo essencial o extermínio da espécie invasora. A natureza até daria conta disso, mas levaria muito tempo...)

d) "Em espaços privados onde a caça é liberada, as espécies são preservadas! E agora, bonitão?"

R.: Primeiro, vamos assumir que sim, existe essa possibilidade. As espécies que precisam ser preservadas, em grande maioria, estão em perigo por causa da própria caça. É uma lógica um pouco burra, não? Em vez de proibir (pois existe toda a sorte de motivos pra isso) e fiscalizar rigidamente, não: liberam a matança desde que tenha grana envolvida. Me lembra um pouco o sistema de fianças para crimes quaisquer. Segundo, esses espaços privados funcionam como empresas e visam o lucro. Então, qual a lógica de reproduzir uma espécie se, no final, o intuito é matá-la de uma forma extremamente dolorosa e covarde? Pelo menos os ratinhos usados em laboratórios ganham ambiente anti-estresse e boa ração antes de serem conduzidos os experimentos, e o fazem por um bom motivo que é o avanço da ciência. Ainda assim, o comitê de ética cai em cima para limitar o acesso aos pobres animais.

A "lógica" dos caçadores e de quem defende essa prática brutal me assusta.

5) Humanos e animais - uma relação conturbada

Caça. Tourada. Rinha. Confinamento animal para abate. Animais domésticos nas ruas. Fetiche "crush" (sugiro NÃO buscar isso no Google pois chega a ser traumatizante). Seres humanos possuem um relamento conturbado com os animais, é verdade, e todos fazemos parte desse ciclo. Mesmo que fossemos todos veganos chatos, estamos em um sistema onde o capital é mais valorizado que a vida. Triste, mas verdade. Não estou aqui novamente para questionar o capitalismo como um todo e fazer propaganda de seu fim, assim como no texto anterior, estou aqui para questionar nossa relação com a natureza no meio de todo esse sistema.

Pergunte-se: eu como uma quantidade correta de carne ou exagero nas doses? Eu abandonaria um animal na rua ou chamaria uma ONG para abrigá-lo? Eu sei a origem da carne que eu consumo e de como o abatedouro trata seus animais ou simplesmente compro e que se dane? Eu compreendo que seja difícil flagrar-se questionando essas coisas e mesmo conseguindo segui-las a risca. Contudo, vejo como um hábito a ser desenvolvido por nós. Ainda que você, leitor, não possua empatia alguma pelos animais, nem mesmo pelos mais bonitos e dóceis como cães e gatos, pense que ajudar a zelar por eles é também zelar pelo seu lar e que, se uma raça alienígena nos dominasse, gostaríamos de ser tratados com um mínimo de dignidade, ainda que fosse nosso destino sermos mortos.

Deixo aqui um excelente compilado sobre a caça para uma leitura na web. Sim, admito ser enviesado, mas possui partes extremamente interessantes e que podem mudar, nem que seja um pouco, sua visão sobre nosso relacionamento com a natureza. Deixo-os aqui e até uma próxima postagem!

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