China entre 1929 e 1998, ou a implosão de Chimérica

(Fonte da imagem: Exame)
A crise chinesa que se instaurou a partir da segunda-feira negra permite dois caminhos possíveis, a depender das ações governamentais. Pode se converter num 1929, sendo um Estados Unidos do Oriente e devastando as economias mundiais ou pode virar um 1998 como uma Rússia que, mesmo com uma crise forte, teve alcance limitado. O choque sofrido pelo dragão do Extremo Oriente guarda uma incógnita, e, embora seja ampla, pode ser resumida numa simples frase: a economia chinesa é uma caixa preta em que ninguém sabia até que ponto os dados divulgados eram reais, mas como parecia estar dando certo todo mundo investia e confiava.

Os olhos de todo o mundo estão agora voltados para o Federal Reserve. Se o Fed subir a taxa de juros, atrairá todo o capital sem casa no momento para Wall Street, e o último porto-seguro dos emergentes caminhará a um cenário que mais lembra o Brasil pós-regime militar, com desvalorizações cambiais sequenciais, estimulo ao consumo mediante juros baixíssimos e aumento gigantesco da base monetária fazendo a inflação no país disparar. Por outro lado, embora os EUA se tornem receptáculo dese capital desabrigado, este não deverá ir para as empresas americanas (já que o colapso chinês lançará incerteza no mercado durante algum tempo impedindo novos investimentos promissores), e sim para os títulos do tesouro americano, fazendo a já gigante dívida pública americana aumentar não só devido ao processo em que Obama abrigará esse capital sem-teto, mas devido ao fato de que, aumentando-se os juros, aumenta-se o serviço da dívida. O meu palpite é de que: se o Fed estava só enrolando com essas ameaças "borocoxôs" de aumentar os juros (algo que já está sendo feito há um ano e meio aproximadamente), agora é que vai deixar a coisa como está de vez, e isso é o que pode ajudar esse possível 1929 a virar um 1998.

Por outro lado, Chimérica, como bem nomeou o professor Niall Ferguson, pode caminhar para um 1929. E uma vez que tome esse caminho, morrerá demonstrando sua estranha natureza quimérica. De um lado temos a América, um dos maiores mercados consumidores do mundo com uma economia baseada no estímulo ao consumo, e do outro temos a China, baseada no estímulo ao investimento, não só sendo um dos maiores poupadores do mundo mas detendo também uma fortuna em títulos do tesouro americano, esse dinheiro chinês ajuda a financiar esses juros baixos, e sem ele, pode ser que o Fed não tenha muita escolha a não ser subir a taxa de juros se não quiser plantar uma super-bomba no futuro para si próprio. O futuro é assustador nesse cenário. E, vamos combinar, se somarmos isso ao atual cenário geopolítico de radicalização ideológica na Europa, o medo de estarmos na entrada de uma nova década de 30 (inaugurada por uma pretensa quinta-feira negra) parece plausível.

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