Do "não tem crise" ao "ih, ferrou"

(Fonte da imagem: Época)
Com vários meses (sendo generoso, claro) de atraso, a presidente Dilma Rousseff finalmente admite o óbvio: habemus crise. Mais ainda, que não dá para garantir um resultado maravilhoso em 2016. Neste caso, ela foi um poço de generosidade, uma vez que para o próximo ano também se fala em recessão. Resta saber em que proporções, uma vez que a dimensão da crise chinesa pode influenciar fortemente a nossa. Aliás, se o crash do gigante asiático se tornar um Big One, acreditar que a contração da economia irá apenas até 2016 seria um cenário quase delirante, muito embora eu torça pelo contrário.

Apesar disso, como estamos falando da presidente que, nas palavras dela, é capaz de "fazer o diabo" para ganhar a eleição, o surto de sinceridade não poderia deixar de vir com algumas mancadinhas: a primeira é que, ainda admitindo minimamente o tamanho do problema, ela acabou culpando o cenário internacional pela situação de "terra arrasada" a qual o Brasil se encontra há alguns meses. O detalhe é que as turbulências na Europa por conta do lenga-lenga com a Grécia e na China tem efeitos ainda limitados (se comparadas com os desdobramentos do crash de 2008) e estas ainda não recentes. Não obstante isso, as perspectivas de crescimento para a economia mundial e para diversos países, sejam desenvolvidos ou emergentes, são, pelo menos, razoáveis se comparadas a nossa. Ou seja, boa parte de nossa hecatombe é made in Brazil, podendo piorar dependendo do desenrolar da crise na China, nosso maior parceiro comercial.

Além disso, ela também disse que também "demorou tanto para perceber a gravidade do problema" e que "não dava para saber ainda em agosto". É sério isso? Quem não se lembra da carta publicada por uma analista do Santander ainda em julho para clientes de alta renda com os riscos de uma reeleição da atual presidente para a economia? Quem não se lembra da baixaria promovida por Lula, mentor político de Dilma, após a publicação desta carta, bem como da genuflexão do banco espanhol para o governo, que entregou a funcionária como oferenda para o sacrifício? Caso o governo não quisesse ouvir a então analista (nem o Rodrigo Constantino, afinal já seria pedir demais), que ouvisse o Henrique Meirelles então, afinal, ele foi ex-presidente do BC ao longo de todo o governo Lula. 

Apenas para constar, não só eu, um mero palpiteiro, mas diversos especialistas em economia já sinalizavam um cenário nebuloso para este ano há, pelo menos, dois anos. Mas, infelizmente, Dilma preferiu escutar os conselhos do bobo-da-corte (e então Ministro da Fazenda) Guido Mantega e sua trupe, bem como os aplausos da claque formada por economistas Belluzzo (aquele que quer mais desvalorização da moeda mesmo com o dólar hoje a R$3,60) e Maria da Conceição Tavares ("ninguém come PIB", e, por sinal, muitos não comerão nem isso muito menos alimentos), bem como figuras no empresariado como Benjamin Steinbruch (aquele que acha que juros são como as metas da presidente, podendo derrubá-los na canetada sem que isso resulte em problemas, como de fato resultou), Luíza Trajano (aquela que ainda em 2014 enxergava um céu de brigadeiro para o varejo e agora posa de surpresa com a falta de confiança dos consumidores), assim como outras figuras públicas que não irei citar apenas para não estender demais a lista.

No final das contas, a declaração da presidente serviu apenas para confirmar a ideia do estelionato eleitoral em curso desde a vitória nas eleições em outubro do ano passado, isso se alguém hoje duvida disso. A boa notícia é que ela, sem querer querendo, ajudou a desmentir os "textões" de Villaças e Ticos da vida, que, com seu insistente negacionismo da atual crise econômica, fazem os climate change deniers norte-americanos parecerem razoáveis em suas argumentações.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Não, Juan Arias. Dilma não se transformou

Dando-se tempo ao tempo: cadê as vantagens do porto de Mariel?

ENEM 2015 e o orgasmo da esquerda festiva