Grécia a caminho dos 50 tons de vermelho

(Fonte da imagem: SFGate)
Já faz algum tempo que não falo sobre a situação da Grécia neste blog, sendo que as últimas vezes que o país helênico esteve em pauta por aqui foram para discorrer sobre o there is no alternative que o primeiro-ministro Alexis Tsipras foi submetido após o oxi no referendo, bem como o choradinho de Yanis Varoufakis pelo fato de sua nebulosa proposta não ter sido aceita. Mas algumas notícias recentes me chamaram a atenção para retomar o assunto.

A primeira delas, consequência do pacote de austeridade ainda mais duro em relação ao submetido no referendo, é que o governo grego formalizou hoje a privatização de 14 aeroportos regionais (fica a dica para a presidente Dilma Rousseff aqui no Brasil), medida essa que vai completamente de encontro ao discurso feito pela Syriza quando esta chegou ao poder ao final de janeiro. A segunda é que o terceiro resgate à Grécia ainda depende da aprovação de cinco parlamentos da União Europeia (a saber: Alemanha, Holanda, Áustria, Espanha e Letônia). Diga-se de passagem, nos dois primeiros países (principalmente na Holanda) este pacote poderá até passar, mas não sem duras resistências impostas pelos deputados das coalizões governamentais de ambos. Mas é a terceira notícia, que tem a ver com as movimentações no tabuleiro político grego, foi a que me chamou maior atenção.

Posto que o pacote de austeridade enfrentou dura resistência de setores mais radicais dentro da própria Syriza, Tsipras convocará uma moção de confiança no Parlamento. Nas condições atuais do Executivo grego, da oposição oficial e da oposição encontrada em seu partido, o primeiro-ministro perderá essa moção, e será obrigado a convocar novas eleições, que provavelmente ocorrerão em outubro ou novembro. E, de acordo com as pesquisas de intenção de voto, a Syriza sairia com uma vitória ainda maior, conquistando a maioria absoluta das cadeiras no Legislativo e poderá dispensar os populistas de direita da ANEL (para se ter uma ideia da bizarrice da atual coalizão do governo grego, seria como se Luciana Genro ganhasse e fizesse um acordo com Levy Fidelix para governar). Dois coelhos mortos com um único tiro.

Mas o mais interessante deste novo cenário está justamente na iminente cisão da Syriza. O Iskra, braço mais radical do partido de extrema-esquerda grego e liderado por Panayotis Lafazanis, ex-ministro de Energia (demitido, inclusive, por se opor às novas medidas de austeridade), está prestes a sair da agremiação governista, formando um novo partido de esquerda que será mais radical que a Syriza. Neste caso, a legenda que lidera hoje o governo poderia perder os votos de eleitores insatisfeitos com o "vira-casaca" em relação as propostas iniciais para a Iskra, mas ganharia os votos de eleitores mais moderados, que normalmente votariam no PASOK (centro-esquerda) e no To Potami (também de centro-esquerda). Ou seja, para essas novas eleições, a nova legenda de extrema-esquerda não representaria uma ameaça direta à Syriza, e esta continuaria vencendo com maioria absoluta em cadeiras no Parlamento.

Mas o que muda caso a Iskra se torne, de fato, um partido político?

Por um lado, ela acabará servindo de mais uma opção de "voto de protesto" - atualmente essa opção recai no neonazista Aurora Dourada - e isso acabaria limitando o crescimento deste último. Por outro, como parcialmente informado antes, eleitores mais moderados, no intuito de limitar o crescimento de ambas as legendas, poderiam votar taticamente no PASOK, To Potami ou mesmo no centro-direitista Nova Democracia, que hoje é o principal partido de oposição no país.

Resumo da ópera: a Syriza de Alexis Tsipras sairia como a principal vencedora neste xadrez, uma vez que, além de ganhar nas urnas, estaria mais unida e coesa. PASOK e To Potami, legendas de centro-esquerda, pegariam uma breve carona com os votos táticos. O ND, de centro-direita, também se beneficiará com esses votos, mas em menor proporção. Os Independentes Gregos, partido populista de direita que atualmente é parceiro na atual coalizão de governo, e os comunistas do KKE, ficariam na mesma. Por fim, os neonazistas do Aurora Dourada sairiam como perdedores, graças ao "roubo" dos votos de protesto para a Iskra.

Em curto prazo, este novo cenário seria bom apenas pelo fato de limitar o crescimento do AD, hoje a terceira força política da Grécia. Em longo prazo, tende a deslocar o debate político, até então oscilante entre a centro-esquerda (PASOK) e a centro-direita (ND), para um ponto entre a centro-esquerda e a esquerda, algo que lembra muito um grande país localizado na América do Sul...E os resultados disso não foram nada bons, por sinal.

Enfim, não se iludam com as medidas de austeridade nem com as privatizações que a Syriza está precisando implementar "na marra". Os 50 tons de vermelho são o destino político da Grécia.

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