Obsolescência programada e a nova caçada francesa

(Fonte da imagem: Agência Open)
Olá leitores, como vão? Novamente eu, Vinicius Littig, vos escrevo. Bem, o Marcos ficou de fazer uma postagem sobre o tema mas acho que serei mais rápido um pouco e postarei antes. Como bem sabem (e é possível verificar neste link), a França deu um passo para a frente em política ambiental — discutível até certo ponto — e pretende multar empresas que usarem da Obsolescência Programada para limitarem o tempo de vida útil de seus produtos. Pretendo destrinchar, mastigar e digerir toda essa informação e sua importância para vocês, principalmente por meu viés ecológico, mas, como sempre, comecemos do começo:

1) De onde vêm as coisas e para onde vão?


Bem, recomendo tremendamente a visão do vídeo acima: são 21 minutos bem investidos e que vão melhorar a compreensão do meu resumo nos parágrafos seguintes.

A começar, as coisas não surgem do nada e não vão para o nada. Tudo que se consome, de alimentos às futilidades, é extraído da terra, de plantas e animais. O que é extraído é então transformado para, em seguinte, ser comercializado. Não sou eu quem irá explicar as relações de mercado a vocês, mas quero que fique bem gravado isso para vocês ao decorrer de meu texto.

Bem, vivemos em um planeta finito, de recursos finitos. Mesmo que esses se reponham e possuam seus ciclos, é impossível para nós consumirmos mais água, por exemplo, do que temos no planeta ou da qual podemos criar unindo hidrogênio e oxigênio artificialmente. Isso já gera um problema quanto à superpopulação: hoje somos 7 bilhões e uns quebrados de milhões no planeta. Se crescermos mais em número do que esse planeta pode suportar, os recursos se esgotarão e a pobreza será generalizada, nos levando a uma extinção em massa. É duro, mas é a verdade. Podem encontrar se clicarem aqui (texto em inglês) um estudo de caso semelhante ao que aconteceu com alces em uma ilha do hemisfério norte onde estavam com condições favoráveis ao seu desenvolvimento.

Sim, eu sei, é uma visão apocalíptica e podem estar questionando agora que nós desenvolvemos tecnologia e consumimos cada vez menos recursos e podemos alterar sempre a natureza, que, inclusive, derrubou as teorias de que o crescimento linear da agricultura não acompanharia o crescimento exponencial da população. Sim, é verdade, mas CONSUMIMOS. O ser humano está fadado a consumir e, mesmo que exploremos o máximo possível os recursos existentes, eles não são infinitos. É uma reflexão interessante pensar nisso: na exploração do universo e do limite de nossa população, nos indagarmos se o universo é ou não infinito e se a matéria o é ou não, e inclusive existe um texto MUITO bom que explora isso para os amantes de filosofia chamado "A Última Pergunta", de Isaac Assimov (podem conferir aqui).

Meu objetivo, contudo, não é esse. É levantar três pontos:

1) Somos seres consumidores de recursos naturais;
2) Recursos naturais não são infinitos, por melhor que os aproveitemos;
3) Logo, um consumo exagerado acarreta em diminuição da quantidade de recursos.

Apontado isso, prossigamos.

2) Sistema capitalista e consumo

NÃO, não estou aqui para taxar o sistema capitalista de vilão e o consumo de desgraça aberrante. Sou capitalista, amo consumir. Estou aqui para criticar os limites disso, entretanto, tendo como base o apontado acima. Isso daria margem para, quem sabe, uma próxima postagem no futuro, então serei o mais superficial possível.

O capitalismo é um sistema econômico simples de troca de mercadorias e serviços que existe desde o nascimento da civilização e é natural ao homem. Ele permite que, através do merecimento pessoal, pessoas acumulem capital (riquezas, produtos) e consumam mais do que outras. Simples como parece. Quem é mais rico, mais gerou de riqueza e, por isso, mais pode consumir. A riqueza é boa: nos permite conforto e segurança. Precisamos consumir coisas e através da lógica de mercado trocamos produtos e serviços por essas coisas e, nesse jogo, prosperamos.  Bem, de tudo isso sabemos.

Acontece que, nesse sistema, o consumo não possui um limite real. Como assim? Não existe uma polícia no supermercado que te para se você estiver mais carne no carrinho de compras do que pode consumir. Então, em hipótese, estamos livres para consumir mais produtos e, com eles, mais "pedaços" de natureza. Obviamente, pessoas mais ricas e nações mais prósperas acabam consumindo mais que as outras, e essa desigualdade social tem suas consequências que não vem ao caso agora. Mas, no geral, os seres humanos consomem muito mais do que de fato necessitam em um sistema capitalista, e, como praticamente todo o mundo hoje é capitalista (salvas raras exceções como Cuba e Coréia do Norte), a raça humana vem consumindo muito mais do que lhe é útil. Guardem isso tudo até agora, o próximo parágrafo utilizará melhor essas informações.

3) Obsolescência Programada - o que é?

As coisas não são feitas por uma mão invisível. São feitas por pessoas. Nesse caso, empresas e corporações. Se ainda estiver em dúvida com isso, volte ao vídeo anterior. Bem, essas corporações, dentro de um sistema capitalista, buscam enriquecer. Para isso, querem vender mais e, consequentemente, lucrar mais. Existem inúmeras estratégias para isso, e a obsolescência programada é uma delas. Bem, e de que consiste essa estratégia?

Consiste em "sabotar" seu produto e a tecnologia nele existente para que ele venha a quebrar e ser descartado mais cedo para que aquele que o comprou seja obrigado a comprar um produto novo se quiser manter sua utilidade. Como assim? Digamos que você, leitor, seja um fabricante de lâmpadas. Suas lâmpadas duram, com toda a tecnologia que dispõe ao seu alcance, 10 mil horas. Com isso, consegue suprir a demanda populacional e vende mil lâmpadas ao mês. Ótimo. Mas você, como o empresário que é, quer lucrar mais e expandir seu negócio. Você começa a perceber que as pessoas que compram suas lâmpadas demoram cerca de seis meses para voltar e comprar uma nova. Então, surge uma ideia do seu departamento de marketing: e se diminuísse pela metade a quantidade de horas que uma lâmpada pode funcionar e reduzisse seu preço em apenas 10%? Você manteria uma margem confortável de lucro e, com isso, diminuiria pela metade o tempo de espera do retorno do cliente, duplicando também seu número de vendas.

Mas ora essa! Parece uma bela estratégia para você, e assim o faz. A população perde um pouco em satisfação, mas não pesa tanto em seus bolsos como parece e se contentam com a situação. Você enche seus bolsos. Mas alguém se prejudica nisso tudo. Quem?

4) A verdadeira vítima

Sou do tipo de pessoa enviesada ecologicamente, admito. Gosto da natureza e de manter seu equilíbrio porque sei que nós dependemos dele, direta ou indiretamente. Com a obsolescência programada quem mais perde é ela. Se nossos recursos são limitados, cada vez mais nosso número se expande e consumimos como se não houvesse amanhã, o resultado é óbvio: esgotaremos a fonte.

Dessa fonte, não só nós dependemos como todo o restante do planeta. Gosto de acreditar na Hipótese de Gaia proposta por Lovelock (mais detalhes aqui) onde todo o nosso planeta é um gigantesco e único corpo vivo. Mesmo sem se importar com o resto e sermos o mais egoístas possíveis, temos a noção básica que se o planeta morrer, nossa casa vai junto (a não ser que falemos de colonização espacial, mas enfim). Mais consumo implica em menos recursos e mais lixo, consequentemente mais poluição e ainda menos recursos naturais. Isso só parece óbvio para você pois, até aqui, construí esse caminho. Mas e quanto no seu dia-a-dia consumindo: chega a pensar nisso tudo? No quanto aquela pilha que jogou fora no terreno baldio da esquina pode ser um problema?

Sou uma pessoa que gosta de refletir não somente no impacto que tenho sobre mim e nas pessoas ao redor, mas em todo o sistema. Claro, não posso cobrar o mesmo de vocês e nem é esse meu desejo. Desejo, somente, que entendam que o impacto gerado na natureza nos atinge.

5) Uma estratégia burra

O problema das pessoas é pensar que a obsolescência programada é tão útil e natural ao sistema capitalista que, sem ela, o capitalismo desmorona. Não, não o é da mesma forma que trustes e cartéis não o são, muito pelo contrário — são prejudiciais. Essa estratégia é burra por dois pontos básicos.

Primeiro, sem ela o número de vendas não diminui drasticamente. A população está em constante crescimento, e isso significa aumento no tamanho do mercado. Mas, ainda que não o fosse, faço um convite especial: façamos de conta que, em 1965, tenha comprado um televisor que durasse 50 anos de tão bem projetado que foi. Você conseguiria chegar até hoje sem tê-la trocado sequer uma vez? A verdade é que não: nos meados dos 80, compraria uma a cores. Nos 90, uma com maior número de polegadas. Só nos últimos 10 anos, trocaria umas três vezes: primeiro para o plasma, depois para o LCD e então para o LED. E a resolução da imagem? Hoje temos a 4k ULTRA para ajudar-nos a contar as rugas da Vera Fischer (sem ofensas, Vera). Fato é que a própria inovação tecnológica torna a tecnologia antiga defasada e propícia a ser trocada. A moda faz o mesmo com as roupas.

Segundo, ela impede o avanço tecnológico. Digamos que hoje encontremos um motor com maior rendimento do que o ao combustão (pro tipjá existe). A empresa que se dispuser a montá-lo ficará no topo do mercado, imagine! As pessoas economizariam mais e gastariam seu dinheiro com outras coisas mais interessantes! Uma pena que, sabemos, não é assim que funcionam as coisas e o carro elétrico, ao menos aqui, é raridade. As empresas visam seu lucro, e as de motores a combustão não seriam diferentes. Elas poderiam comprar a patente do motor elétrico, guardá-la e jamais usá-la, mantendo no mercado seu produto defasado, com menor vida útil e menor rendimento. Canalhice das bravas, não? Me pergunto o quanto de tecnologia, aliás, perdemos todos os anos por conta disso.

6) Proibição e caminhos para a mudança

Como tudo aquilo que limita o crescimento e desenvolvimento da sociedade e, mais ainda, que trata a natureza como uma escrava, digo que sim, a proibição é muito bem-vinda. Contudo, ela não implicará uma mudança significativa se outras medidas não foram adicionadas à barca.

Fato é que todo produto tem sua vida útil e, vez ou outra, precisamos de manutenção. A tecnologia também se desenvolve e, por conta disso, produtos ficam obsoletos rapidamente. Mas a manutenção e o descarte desses produtos defasados deveriam estar no poder do seu comprador, e não das empresas e dos cartéis que elas formam, e é isso que a lei visa alterar. Mas, claro, por si só não é suficiente. Cabe também incentivar a reciclagem. As empresas deveriam ser obrigadas a fornecer descarte apropriado aos seus produtos e a população deveria ser educada ambientalmente para ter ciência do impacto que seu consumo causa no planeta.

Vejam bem, não quero proibir o consumo. Não quero proibir a riqueza, não quero acabar com o capitalismo. Desejo, tão somente, um mundo mais sustentável. Logo, o passo que o governo francês acaba de dar é um passo tímido como o engatinhar de um bebê. É muito pouco tendo em vista o que ainda precisa ser feito, tudo que precisa ser mudado. Mas é um marco importante para todos aqueles que, assim como eu, acreditam em uma humanidade mais consciente de suas relações com o mundo.

Eu ficarei por aqui, meus amigos. Obrigado pela paciência e atenção. Deixo com vocês um documentário sobre o tema e uma sugestão extra: vejam os documentários "Quem Matou o Carro Elétrico?" e "A Vingança do Carro Elétrico". Até a próxima!

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