Por que deveríamos dar mais atenção à crise chinesa do que estamos dando?

A bolha chinesa. (Fonte da imagem: Epoch Times)
Quando o professor Niall Ferguson cunhou o termo "Chimérica" ele provavelmente não tinha em mente a exata proporção que uma crise chinesa poderia ter. O fato é que desde que a China se abriu parcialmente ao capitalismo e implantou um desenvolvimentismo autoritário similar ao que o Brasil implantou durante o Regime Militar, ela vem acumulando pressões inflacionárias em ações de empresas e em seus títulos públicos. Todo o intervencionismo e gasto estatal sem retorno imediato pode agora implodir a economia chinesa. Mas que dano isso poderia causar ao mundo? 

Quinhentos anos atrás a economia chinesa era a maior do mundo enquanto o ocidente se resumia a reinos quebrados e constantemente em guerras, em 1970 entretanto o cenário era outro: A renda de um cidadão médio americano era 20 vezes maior que a de um chinês médio. Isso ficou conhecido na historiografia econômica como "A grande divergência". As razões dessa divergência não cabem ser explicadas aqui, mas ao pensarmos em como o ocidente se distanciou tanto da China em apenas 500 anos um fato novo nos chama a atenção, pois nos remete á tarefa de enxergar um novo evento: "A grande re-convergência" que vem acontecendo desde que a China aceitou o capitalismo em partes. Ela vem recuperando o tempo perdido e muito rápido! Tamanha velocidade obrigatoriamente vai guardar problemas e ela vai estourar na forma de uma crise bem dura para o mundo todo.

A razão é simples: China hoje é o país que mais pode se orgulhar de seus cidadãos, são poupadores muito bons. Aliás, em termos proporcionais, hoje o chinês poupa tanto dinheiro quanto o alemão! Essa poupança, obviamente rende juros, parte é aplicado no projeto desenvolvimentista chinês, parte é aplicado em...Títulos públicos americanos! Sim, a China é hoje a dona da maior parte dos títulos públicos dos Estados Unidos. 

Por outro lado, se o chinês virou formiga, o americano virou cigarra. Os Estados Unidos vem apresentando redução de sua poupança disponível e com isso não pode fazer muito uso de dinheiro a não ser através da emissão de títulos. O americano é um grande consumista e achou o parceiro perfeito para poder continuar consumindo: a China. 

Hoje, enquanto os chineses poupam, os americanos consomem. Para me fazer mais claro, quero dizer exatamente que os chineses poupam para os americanos e os americanos consomem para os chineses. Isso só foi possível graças a essa relação simbiótica que Ferguson nomeou "Chimérica", uma quimera entre as economias americana e chinesa. A crise de 2008 pode ser explicada por esse fator também, os programas sociais para adquirir a tão sonhada "casa própria" já existiam sem causar grandes problemas, pois pelo menos na gestão Clinton havia alguma responsabilidade fiscal, por outro lado, quando a Chimérica nasce, o tesouro americano é inundado por um mar de dinheiro. Reservas cada vez maiores enchem os cofres do FED permitindo o tesouro emitir dólares com segurança para os bancos e forçando a queda da taxa de juros, o resultado é que isso afeta os programas imobiliários... Daí aos NINJA loans foi apenas um pulo. 

Hoje, sete anos após o estouro da bolha em 2008, os americanos voltam a consumir com força ao passo que a economia chinesa começa a cambalear. Um problema dos grandes pode vir por aí, com a crise de Wall Street tivemos um lado da moeda, a coroa...Agora falta a cara, o outro lado, que é quando a Bolsa de Xangai entrará em colapso. Isso pode simplesmente torrar as poupanças chinesas já que ao que tudo indica todos os ativos estão inflacionados e as taxas de juros chinesas começaram a subir de novo em 2011. Uma quebra da China vai afetar diretamente os americanos, que hoje, querem apenas consumir.
(Fonte da imagem: Tutor2u.com)
E uma crise na terra do Tio Sam se espalhará pelo mundo. Teremos sequencialmente as duas economias mais decisivas do globo entrando em crise. Alguns comparam com 1929, onde todas as economias (desenvolvidas e subdesenvolvidas) sentiram o impacto (ao contrário de 2008 onde só as desenvolvidas sentiram), o meu único desejo caso 1929 nos revisite é que não entremos novamente numa década de 30 tanto econômica quanto politicamente. Se acham que eu estou exagerando, olhem pro crescimento do radicalismo de direita e de esquerda na Europa e na América Latina. Isso bastará.

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