Experiência socialista na Grécia com os dias contados?

(Fonte da imagem: TVI 24)
Em pouco mais de sete meses de Syriza no poder, a Grécia viveu um dos períodos mais caóticos de sua Terceira República: controle de capitais, filas nas portas de bancos, escassez (ou rumores desta) de produtos básicos (como medicamentos e gasolina), calote no FMI (e quase calote no restante da troika), iminência de saída da zona euro (com consequências para lá de imprevisíveis) e, para variar, intimidação a jornalistas. Situações essas que, combinadas ao todo (ou em parte), seriam perfeitamente críveis de acontecer em países com governos socialistas. Nos nossos vizinhos sul-americanos, pelo menos um ou dois dos itens citados já acontecem há algum tempo. Mas, felizmente, a curta experiência socialista no país helênico pode estar chegando ao seu final.

Porém, antes de eu comentar sobre o fato, é importante que eu faça um mea culpa em relação a um artigo que escrevi neste blog há 15 dias, no qual eu afirmava que a manobra de Alexis Tsipras de pedir um voto de confiança no Parlamento (e perdê-lo graças à ala radical da Syriza, que mais tarde formaria uma nova legenda de extrema-esquerda), manobra essa que acabaria à convocação de novas eleições, cujas sondagens, na época, apontavam uma vitória ainda mais avassaladora do partido de Tsipras. Também disse em um comentário na página deste blog de um editorial do Público que a manobra do então primeiro-ministro grego de pedir renúncia e convocar novas eleições seria apenas uma maneira diferente de obter o mesmo sucesso. Como vocês verão mais à frente, meus prognósticos deram errado. Felizmente.

Finalizadas as desculpas, vamos ao fato: após a renúncia, a Syriza, que liderava com folga as pesquisas eleitorais (inclusive com a chance de formar um governo de maioria absoluta no Parlamento, sem a necessidade de coalizões), viu sua vantagem praticamente desaparecer em poucas semanas, o que frustra o desejo de Tsipras de governar tendo o mínimo de 151 cadeiras no Legislativo. Para piorar, a última pesquisa aponta para uma vitória apertada da Nova Democracia, legenda de centro-direita que governou o país entre 2012 e o início deste ano. Apesar da vantagem do ND sobre a Syriza estar dentro da margem de erro (portanto, empate técnico entre os dois partidos), a primeira pesquisa que aponta a sigla de Vangelis Meimarakis (que substituiu o ex primeiro-ministro Antonis Samaras após o referendo de julho) na dianteira acende a luz de alerta no partido governista, uma vez que, de acordo com o sistema eleitoral grego, a sigla vencedora ganha um bônus de 50 cadeiras no Parlamento, medida utilizada para facilitar a configuração de maiorias.

Projeção de cadeiras no Parlamento grego em 02/09 (à esquerda), comparada com o resultado das eleições de janeiro (à direita). (Fonte da imagem: Electograph)
O comparativo da figura acima nos dá um bom parâmetro dos possíveis vencedores e perdedores após a manobra de Alexis Tsipras, bem como os acertos e erros do artigo que escrevi no mês passado. Já descontando o efeito do "bônus de maioria" de 50 cadeiras ao partido com o maior share de votos, temos que:
  • A Syriza perderia 21 assentos;
  • O ND ganharia 2 assentos;
  • O KKE (Partido Comunista) ganharia 1 assento;
  • A Unidade Popular, nova legenda de extrema-esquerda que se separou da Syriza, ganharia 12 assentos;
  • O PASOK ganharia 3 assentos;
  • O To Potami perderia 3 assentos;
  • O EK (União dos Centristas) ganharia 10 assentos;
  • O ANEL (Independentes Gregos), então parceiro de governo com a Syriza, perderia 4 assentos;
  • Os neonazistas do Aurora Dourada ficariam com os mesmos 17 assentos.
É importante lembrar que a Syriza venceu em janeiro não só pelos votos ideológicos, mas também pelos "votos de protesto" contra o dualismo ND-PASOK. Outro aspecto essencial é que a Syriza, até a cisão, era dividida em duas alas, uma mais europeísta (que defendia um relaxamento das medidas de austeridade mas queria o país helênico na zona do euro) e outra mais eurocética (que era a favor de medidas mais radicais como o calote e defendia o Grexit). Levando em conta isso, é possível inferir que:
  • Uma considerável parte dos votos perdidos pela Syriza, seja pelos eleitores mais ideologizados (à esquerda), seja pelos votos de protesto anti-austeridade (e eurocéticos) que iriam para o Aurora Dourada, acabará indo para a Unidade Popular;
  • Já os eleitores que votaram na Syriza por "protesto", porém possuem um perfil mais europeísta, poderiam optar pelo voto tático no PASOK, To Potami e EK, apenas para evitar a ascensão dos conservadores do ND;
  • Uma parte da perda de votos do To Potami pode ser explicada pela ascensão do EK, mais próximo ao centro do espectro político;
  • Uma parte da perda de votos do ANEL pode ser explicada por um eventual voto tático ao ND para evitar forças políticas mais à esquerda no espectro político. Uma outra parte, porém, acabaria indo para o Aurora Dourada;
  • Este último, por sua vez, perderia parte dos votos de protesto para a Unidade Popular, o que é coerente com a ideia de "elas por elas".
Resumindo: em relação à eleição de janeiro, as forças de extrema-esquerda perdem força, a centro-direita cresce sensivelmente, a extrema-direita também perde força e as forças de centro e centro-esquerda tendem a ficar maiores. Diga-se de passagem, estas últimas, seja com o ND ou com a Syriza de vencedor, serão os "fiéis da balança" na formação de coalizões, que certamente será necessária. Gostando Tsipras ou não.

UPDATE (03/09 - 21h17): Uma nova pesquisa eleitoral, por sua vez, aponta uma ligeira vantagem à Syriza, e, neste cenário, ela conquistaria 80 cadeiras pelo voto popular e 50 pelo "bônus de maioria", totalizando 130 cadeiras. Isso, porém, não muda o fato de que haverá a necessidade de coalizões para a formação de um novo governo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Não, Juan Arias. Dilma não se transformou

Dando-se tempo ao tempo: cadê as vantagens do porto de Mariel?

ENEM 2015 e o orgasmo da esquerda festiva