Perguntar se o dólar vai passar de 4 reais não faz mais sentido. A questão é quando, quanto e como

(Fonte da imagem: Folha Vitória)
Em mais uma semana caótica para a economia brasileira, o dólar continua seguindo sua perigosa escalada: de R$3,63, na segunda-feira, a moeda norte-americana bateu a cifra de R$3,86 na última sexta-feira, maior valor de fechamento desde 23 de outubro de 2002, quando FHC ainda era presidente e o maior temor de então era justamente a vitória de Lula no segundo turno das eleições presidenciais. Não menos importante: a moeda se valorizou mais de 45% em relação ao real desde o início deste ano. E, levando em conta os cenários, seja o interno, com as crises econômica, política e institucional em andamento simultâneo, seja o externo, com o indicativo de que o Federal Reserve dos EUA pretende subir a taxa básica de juros, quem espera um "refresco" para o inferno astral de nosso país deve preparar a pipoca e o guaraná, pois estamos ainda no começo.

Sendo assim, perguntar se o dólar irá ou não romper a barreira dos R$4,00 - a cotação mais próxima disso, por sinal, foi de R$3,96, em 22 de outubro de 2002 - já não faz mais sentido. No atual estado de coisas, essa marca será rompida em qualquer cenário, mesmo no mais otimista, que seria, basicamente, considerar que Joaquim Levy continuará na Fazenda, o grau de investimento do nosso país não será perdido e que o camboto ajuste fiscal começará a surtir algum efeito no segundo semestre de 2016. O problema é que nem o primeiro item, que é a permanência do "neoliberal clássico chicaguista" que aumenta impostos, é seguro, e os outros dois praticamente dispensam comentários. Pensando bem, melhor chamar esse cenário mais otimista de cenário delirante e fingir que não leram nada disso.

Por ora, posto que o "se" não importa mais, restam três perguntas: quando? Quanto? E, por fim, como?

Primeiramente, vamos ao quando, que, de forma bem simples, se refere ao tempo em que o dólar ultrapassará a marca dos R$4,00. Descartando imediatamente o "cenário delirante", temos o segundo melhor cenário, que é, por incrível que pareça, o atual (chamarei de "cenário inercial"), em que a alta da taxa básica de juros nos EUA ainda não se concretizou, não houve o agravamento da crise chinesa e os estragos da crise política não são, por enquanto, os piores. Pensando que o ritmo de alta da moeda norte-americana seja intermediário (a.k.a. média geométrica) em relação às duas semanas anteriores, é perfeitamente razoável imaginar que, na próxima sexta-feira (coincidentemente, um 11 de setembro, data em que os atentados terroristas nos EUA completam 14 anos) vejamos o dólar terminar acima deste "limite". Levando-se em conta ainda que o Banco Central pretenda intervir na situação, poderíamos falar em dólar acima dos R$4,00 em, apenas, duas semanas. Sim, você não leu errado: estamos a, talvez, duas semanas para entrarmos em uma zona completamente desconhecida para a história do Plano Real.

E, reiterando o que eu disse: este é o melhor cenário, que é tão somente a permanência neste lenga-lenga que estamos hoje. Os demais, que vão da queda de Joaquim Levy à alta da taxa básica de juros nos EUA pelo Fed, passando pelo agravamento da crise chinesa, são ainda piores. Provavelmente, a ocorrência de um destes eventos ou mesmo uma combinação encurtaria o tempo do estouro desta marca pela metade. Ou menos.

O segundo passo é o quanto, que pode ser o quanto a moeda americana pode subir acima da marca dos R$4,00, ou por quanto tempo ela ficará acima deste patamar, ou mesmo ambos. No cenário que chamei anteriormente de "inercial", existem duas possibilidades: a primeira, seria o dólar romper os R$4,00, sofrer um ligeiro recuo e se estabilizar temporariamente em um valor um pouco abaixo disso; a segunda, seria esse degrau estar em um patamar um pouco acima disso, o que traria ainda mais especulações sobre a possibilidade de o dólar valorizar-se ainda mais. Considerando que as tensões internas e externas vão continuar por um razoável tempo, é importante que pensemos na chance de a moeda seguir acima dos R$4,00 (ainda que só um pouco acima) também por um razoável tempo. E, como no item "quando", é importante ponderar que os demais cenários apenas piorariam a situação, não só mantendo o dólar em uma zona desconhecida como também o levaria a valores muito acima disso.

Por fim, temos o como, que tem a ver com a velocidade de escalada do dólar logo após a superação da "barreira" dos R$4,00. Como já dou a entender no "quando" e no "quanto", o cenário menos dramático seria o atual, em que, possivelmente, a moeda americana subiria até ultrapassar esse valor, e, após isso, desaceleraria (ou mesmo sofreria um leve recuo), aguardando alguma movimentação no cenário internacional. Neste caso, portanto, a subida do dólar ocorreria em "degraus".  Nos demais cenários, porém, a cotação seguiria em subida linear ou mesmo exponencial em um primeiro momento, o que já seria suficiente para manter a espiral descendente para a economia brasileira para depois de 2016.

Enfim, eu sei que este post parece (e, até certo ponto, é), um exercício de catastrofismo, mas é importante lembrar aos leitores que, mesmo que nada destes cenários assustadores se cumpra (e gostaria que não se cumprisse), é importante lembrarmos que a valorização do dólar veio para ficar. E que estamos longe de ter nossos "pepinos" internos inteiramente resolvidos.

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