Poderia 2016 ser ainda mais desastroso para a economia brasileira que 2015?

(Fonte da imagem: Gamespot)
Que 2015 é um ano perdido para o Brasil na economia, isso todos sabem, até mesmo o governista mais fanático. E, tanto entre "coxinhas" como entre "petralhas", se desenha o consenso de que 2016 seguirá o mesmo caminho, apesar de que há a expectativa de que no próximo ano o tombo será menor e que, se tudo der certo, os trimestres finais darão um sinal de que em 2017 o país voltará a crescer (muito vagarosamente, mas vai). Mas, diante dos últimos acontecimentos políticos e econômicos tanto em nível nacional como internacional - neste último caso com o estouro de uma crise financeira na China (por sinal, abordado tanto por mim como por meu colega Arthur Rizzi) - vem a pergunta: poderia o ano seguinte não só ser mais um ano de recessão, mas também ser uma catástrofe ainda maior que este ano?

O meu humilde palpite: sim, poderia. Sim, há razões para pensar nisso. Não, as chances deste "princípio das dores" se transformar em "grande tribulação", num sentido quase escatológico, não são pequenas.

Razoavelmente explorado nos artigos deste blog, o cenário externo é de contra-corrente. De um lado, uma China que caminha para uma desaceleração, restando saber se será um pouso forçado ou se será um choque contra as montanhas ao estilo Germanwings. Do outro, e quase que simultaneamente, os EUA estão se preparando para a alta da taxa básica de juros, após um longo período em patamar quase nulo. No caso chinês, o fato de que o gigante asiático é nosso maior parceiro comercial, bem como a situação de grande consumidor de commodities (parte de nossas exportações) já dá uma noção de que o Brasil será atingido em cheio. Quanto a uma eventual manobra do Federal Reserve americano, isso acentuaria a saída de dólares do país (por sinal, maior que a entrada desde maio), o que pressionaria ainda mais a cotação da moeda americana, o que, por consequência, dá combustível ao "dragão" da inflação.

Se o cenário externo não está bom, o interno é ainda menos animador. Entre as notícias mais recentes, está o fato de que o governo enviou ao Congresso o projeto de lei para o Orçamento do ano seguinte, e, pela primeira vez na história, ele prevê um déficit primário, de 0,5% do PIB. Alguns podem dizer "ora, é mais realista, pelo menos não terá pedaladas", e eu até concordo com isso. Mas isso não muda o fato de que a peça é um péssimo sinal aos agentes do mercado, que enxergarão como um fracasso do camboto ajuste fiscal. E empurrar ao Congresso a tarefa de descobrir uma forma de aumentar a receita apenas reforça a ideia de que o governo não possui competência e habilidade para propor uma solução. A perda do grau de investimento ficaria ainda mais provável.

O estrago pode ficar ainda maior caso Joaquim Levy, ministro da Fazenda e/ou Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, deixem seus respectivos cargos (vejam aqui e aqui), uma vez que ambos são as (poucas) peças de sustentação de uma política econômica que recupere a credibilidade do país. Talvez, a melhor ilustração para isso seria um carro, numa ladeira, e sem freio de mão, precisando de duas pedras para servir de calço, impedindo o veículo de ir morro abaixo. E se a admissão de déficit no orçamento do próximo ano, per se, já é suficiente para aumentar o risco de rebaixamento pelas agências de rating, a queda dos principais membros da equipe econômica o transformaria em mera questão de tempo. Resultado: menos investimentos (e fuga dos já existentes), aumento dos juros para financiar a dívida (consequentemente, aumento da própria dívida) e uma disparada ainda maior do dólar.

Combinados os piores cenários internamente e externamente, o Brasil entraria seguramente em sua pior crise econômica desde os anos 1980, e falar em "década perdida" seria uma overdose de otimismo. Mas a possibilidade existe. Resta a nós, claro, torcer para que ela não se concretize.

UPDATE (01/09 - 11h54): A entrevista de Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor de política monetária do Banco Central e sócio-diretor da Mauá Capital, ao Valor Econômico, cabe como luva ao meu artigo. Três trechos, em particular, me chamaram a atenção. Leia e tire suas conclusões:

Valor: Ao prever um déficit primário para 2016, o governo está reconhecendo que o ajuste fiscal acabou?

Luiz Fernando Figueiredo: O ajuste fiscal, na verdade, praticamente não começou. O que se tentou no último ano foi, dentro da situação possível, fazer um ajuste, mas a verdade se revelou. E a verdade é muito mais dura do que a gente achava. Alguns cortes em cima dos gastos correntes, alguns aumentos da arrecadação na margem, de longe, não são suficientes para fazer o Brasil ter uma trajetória sustentável. Infelizmente, o governo jogou a toalha. Disse: 'não conseguirei fazer [o ajuste] para o ano que vem'. A verdade está se revelando: o Brasil precisa hoje de reformas estruturais relevantes, principalmente nos gastos obrigatórios. Caso contrário, o Brasil se tornará uma Grécia ou algo desse tipo. O que está diante de nós é esta pergunta: 'O Brasil quer voltar a ter uma trajetória sustentável ou quer se tornar um país como a Grécia está se tornando?' Essa é a discussão.

Valor: Quando o governo admite no Orçamento que terá um déficit, o senhor vê uma forma de pressão sobre o Congresso ou realmente ele desistiu?

Figueiredo: Eu não gostei de o governo ter vindo com o déficit porque, para mim, o governo tem que morrer brigando. Eu não vejo entregar déficit e tentar buscar lá na frente o ajuste via novas propostas ou deixando na mão do Congresso como uma alternativa viável. Até porque o  Congresso não é quem melhor entende quais são as coisas que estão gerando insustentabilidade no Orçamento do governo federal. Quem tem que liderar o processo é o governo federal. E o governo disse: 'eu não consigo'. É uma situação de falta de capacidade de governar as finanças públicas.

Valor: Qual é a consequência mais imediata disso? É a antecipação do "downgrade" do país?

Figueiredo: Nunca achei que esse processo de deterioração seria linear. Um processo como esse acontece em degraus. Eu acho que, com o orçamento com déficit, você ampliou bastante não só a crise, mas deixou explícita a insustentabilidade das contas públicas, assim como abriu realmente uma enorme dúvida sobre qual caminho vamos seguir daqui para frente. O senso de urgência se multiplicou com o Orçamento. O país agora não tem mais tempo. Toda a lógica era de que faremos o ajuste, de que o país tem tempo, de que está passando por um momento difícil e irá gradualmente voltar ao equilíbrio porque é saudável. O sinal foi bastante claro: não estamos indo para o equilíbrio, mas estamos ampliando o desequilíbrio, uma vez que o Orçamento já diz que, no ano que vem, não vamos conseguir [fazer algum superávit primário]. Antes de começar o jogo, já dissemos que perdemos. A única vantagem disso é que se amplia o grau de urgência para que as decisões, assim espero, corretas sejam tomadas.

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