Dando-se tempo ao tempo: cadê as vantagens do porto de Mariel?

(Fonte da imagem: Fotos Públicas)
Lembro-me disso como se fosse ontem, ou, no máximo anteontem: em um país cujo transporte portuário possui deficiências crônicas, seja em atender a demanda, seja na infraestrutura de acesso, o mais razoável seria utilizar seu banco de desenvolvimento para investir na modernização de seus próprios portos antes de fazer isso em outros países (se bem que, sendo sincero, não seria melhor que o BNDES deixasse de existir, principalmente se levarmos em conta as políticas recentemente adotadas no âmbito interno). Não foi o caso do Brasil, que utilizou o banco para emprestar US$ 802 milhões para a reforma de um porto...Só que em Cuba.

A obra, a cargo da empreiteira Odebrecht, causou polêmica em nosso país, uma reação da oposição (ainda que em modo business as usual, ou seja, uma tímida reação) e uma defesa enfática de meios de comunicação da esquerda (ver um exemplo aqui), além da FIESP (ver aqui), uma das principais representantes do governismo no meio empresarial. O restabelecimento das relações diplomáticas entre EUA e Cuba atiçou ainda mais o êxtase de nossa esquerda pela "jogada visionária" que o nosso país teve em investir num porto de uma ilha governada por um ditador que é aliado ideológico do petismo. Aparentemente, os ditos "coxinhas", inclusive este que vos escreve, estavam completamente equivocados sobre o grande empreendimento de nosso governo. Aparentemente.

Uma reportagem publicada recentemente na BBC Brasil coloca os pingos nos is da questão. Segue abaixo:

"A passagem da comitiva - que incluía a presidente Dilma Rousseff e outros dois líderes sul-americanos - se devia à inauguração, em janeiro de 2014, da maior obra em Cuba desde a Revolução de 1959, a reforma do porto de Mariel. A cargo da empreiteira brasileira Odebrecht, a obra contou com um empréstimo de US$ 802 milhões (R$ 3,1 bilhões) do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social).

"[...] A reforma de Mariel foi uma etapa crucial da maior aposta do governo Raúl Castro para atrair investimentos estrangeiros e estimular a economia cubana: a criação de uma zona econômica especial numa área de 465 quilômetros quadrados vizinha ao porto, projetada para abrigar um parque industrial e um centro logístico.

A modernização do porto deixou muitos moradores de Mariel esperançosos de que a cidade de 40 mil habitantes, até então um modesto entreposto comercial bastante dependente de recursos estatais, viveria dias mais prósperos.

Embora o porto já esteja funcionando a pleno vapor e a reaproximação entre Cuba e os Estados Unidos tenha feito muitos empresários voltarem as atenções para a ilha caribenha, até agora nenhuma indústria se instalou na zona especial.

Para analistas, a manutenção do embargo econômico dos Estados Unidos e as complexas regras para investimentos estrangeiros em Cuba fazem com que empresários resistam a investir em Mariel.

Já a agência que administra a área diz que sete empresas - duas estatais cubanas e cinco pequenas companhias estrangeiras (nenhuma do Brasil) - tiveram seus projetos aprovados e começarão a operar ali em 2016.

O financiamento do BNDES ao porto de Mariel se tornou objeto de disputa na última campanha presidencial brasileira. Políticos da oposição, entre os quais o então candidato tucano Aécio Neves, condenaram o repasse de dinheiro público brasileiro à obra.


Na inauguração do porto, Dilma afirmou que Mariel simbolizava a "amizade duradoura" entre Brasil e Cuba. Em dezembro passado, ela disse que o anúncio de que Washington e Havana retomariam os laços diplomáticos reforçaram a importância da obra "para a região e para o Brasil".

Em nota à BBC Brasil, o BNDES diz que o empréstimo - com prazo de 25 anos para ser quitado - vem sendo pago normalmente e gerou empregos e receitas no Brasil, tendo mobilizado uma "extensa cadeia de fornecedores de bens e serviços nacionais". Segundo o banco, o ritmo de outras obras associadas ao empreendimento "não comprometem a pertinência e o cumprimento dos objetivos" do financiamento.


A Odebrecht afirma que já encerrou seus trabalhos no porto e que está estudando opções de investimento na zona especial. [...]"

Como se pode acompanhar nos trechos da matéria acima, a jogada de mestre de nosso governo não parece ter sido tão "de mestre" assim. Mas vamos supor por um momento que a ideia de se investir em Mariel fosse de fato pragmática, como pontuado na primeira matéria da Carta Capital. Primeiro, consideremos o volume do comércio entre Brasil e Cuba, que, em 2013, chegou a "incríveis"...US$ 582 milhões! Realmente, um volume bastante relevante (só que nunca) para uma parceria de primeira ordem.

Segundo, a alegação de Cuba ser um entreposto entre o Brasil e os EUA, o que ajudaria no comércio com este último. Mas ora, outras ilhas no Caribe poderiam muito bem servir nesse papel. Por que a ilha presídio dos Castro?

Terceiro, mesmo se Cuba fosse mais vantajoso que qualquer ilha caribenha na questão do investimento, pensemos por um instante: qual o custo de oportunidade de se sacrificar um investimento nos portos brasileiros - por sinal, precisam de um choque de modernização - para fazê-lo por lá? Seria bom que o BNDES explicasse isso, afinal, boa parte dos recursos são de um dinheiro que, direta ou indiretamente, pertencem a todos os brasileiros?

E, por último, mas não menos importante: por que cargas d'água investir em um porto num país cujas melhores condições de comércio dependem de um terceiro (no caso, os EUA, ou, mais precisamente, o Congresso de lá levantar o embargo)? Não bastasse isso, qual o sentido de um investimento em um país extremamente controlador na alocação da mão-de-obra que irá trabalhar na zona industrial de Mariel? Sendo mais direto: por que investir em um país cuja situação interna e externa ainda tende a limitar - e muito - o seu retorno?

Enfim, dando-se o tempo ao tempo, os céticos quanto às "vantagens" do porto de Mariel parecem ter razão.

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