ENEM 2015 e o orgasmo da esquerda festiva

Uma cena comum de se ver nesta edição do ENEM. Como em todas as outras. (Fonte da imagem: G1)

Olá, amigos do MP. Aqui quem vos escreve é Vinicius Littig — lembram-se de mim? Apareço aqui raramente para fazer uma espécie de descarrego mental sobre temas de nosso cotidiano. E qual tema mais popular nesse final de semana do que o famoso Exame Nacional do Ensino Médio? Não é novidade para as pessoas daqui que o ENEM é uma prova que demonstra o nível de doutrinação ideológica no ensino brasileiro. Basta correr pela internet nas questões das últimas provas para perceber o quanto que as questões de ciências humanas e a própria redação em si cobram uma certa "imbecilização" do estudante para que ele, a fim de acertar a questão e garantir seus pontos, vista-se de opiniões mastigadas e cuspidas por professores de esquerda. Não é mais uma questão de ter ou não opinião própria, é questão de concordar, por bem ou por mal, com os posicionamentos ideológicos acerca de temas como feminismo, ambientalismo, militâncias como o MST...E por aí a banda toca.

Até o final deste artigo, proponho mostrar como esse tipo de prova legitima toda essa doutrinação em nosso sistema de ensino e, ainda, pretendo terminá-lo com um bônus "surpresa". Segurem-se em suas cadeiras, vamos lá:

1) Sistema de retroalimentação

Parando para analisar esse sistema, podemos ver uma cadeia simples: o professor, formado na universidade pública em uma matéria da área de humanas (como geografia e história), começa a perpetrar suas opiniões para os alunos nas salas de aula desde o segundo ciclo do fundamental. Esses alunos permanecem até o final do ensino médio ouvindo o mesmo tipo de baboseira nas salas de aula — como as ditaduras socialista-comunistas foram boas para o povo, como o regime de direita da dama de ferro na Inglaterra foi um grande terror, como as feministas lutam por igualdade, como guerrilhas sul-americanas lutam pela libertação do povo, como Cuba é um paraíso, etc. Durante todo esse tempo, os alunos, mesmo que não concordem com tais afirmações, precisam, durante a prova, selecionar alternativas ou discorrer sobre aquilo que o professor deseja ouvir. Parando para olhar para trás, nem sei quantas vezes defendi o MST antes dos 16 anos em redações.

Cabe ressaltar que, como estudante de Psicologia e interessado no tema, posso afirmar com convicção que as opiniões unilaterais expressas por professores dentro da sala de aula, principalmente entre jovens dos 9 aos 15 anos, tendem a ser acatadas pela maioria que ainda não possui opinião formada. Isso denota, ainda, como movimentos que lutam pelo fim da doutrinação (seja ela do lado que for), são importantes para garantir a liberdade de pensamento das futuras gerações. Algum esquerdista que conhece, nessa hora, deve estar reclamando: "Ain, mas não é possível passar conteúdo como o de história sem colocar o seu pensamento em questão!". A resposta é simples: tanto é possível quanto, ainda que não fosse, é também possível expressar opiniões dos dois lados para promover um debate saudável. Claro que, preguiçosos como são a maioria, poucos se propõe a ser, de fato, intelectualmente honestos com seus alunos.

Voltando ao sistema, após anos de doutrinação do fundamental ao médio, chega o auge da vida acadêmica para alguns: o sonho de entrada em uma universidade. Não vou discutir a real necessidade da universidade para a vida em sociedade, mas fato é que muitos sonham com a entrada em uma na busca por melhores salários e melhores condições de vida nesse país — de fato, não os condeno. Mas, nas portas de uma UF qualquer, existe um empecilho: a prova do ENEM. A prova, que substituiu os vestibulares em muitas universidades públicas, propõe-se a ser um avaliador dos conhecimentos necessários para o ingresso na vida acadêmica. E aqui a porca torce o rabo: podemos não perceber mas, desde o primeiro ciclo do fundamental, passamos por um "afunilamento". A cada série que passa, menos pessoas formam uma turma. Isso é muito visível em escolas públicas. O maior funil de todos é o funil do ensino universitário. A proporção de vagas no sistema público é muito baixa para a quantidade de pessoas que terminam o ensino médio. Isso explica a grande concorrência e tensão do exame.

Após passar por mais essa prova para reafirmar todo o conteúdo de militância que passou pelo seu cérebro, João [personagem fictício], decide fazer um curso da área de humanas para tornar-se professor. Dentro da universidade, João aprende a participar dos movimentos estudantis e ocupar os espaços da UF. Se alia aos movimentos feminista e da juventude socialista. Aprende a importância de Paulo Freire e a pedagogia do oprimido. Passa a ser um sonhador que deseja propagar para seus alunos, assim que formado, as benesses de tudo que aprendeu e ressaltar a importância das militâncias. Mas, por que João? Por que não Maria, que não passou? Ou Paulo, que até desistiu de tentar a universidade? Porque João assimilou todo esse conteúdo passado por professores antes dele nas escolas onde estudou. João foi moldado dentro desse pensamento, então foi mais fácil para ele passar na prova e, então, voltar ao começo do ciclo e influenciar, no futuro, dezenas de outros alunos a fazerem o mesmo.

2) A corrente do mal

A culpa é do João? Ora, claro que todos concordamos que João é um puta babaca mas, no final das contas, não sei se podemos jogar a culpa exclusivamente nele. Desde o começo ele não foi ensinado a pensar por conta própria, só a engolir a opinião alheia e concordar. Se você é um leitor desse blog e está lendo, agora, essa postagem, provavelmente não concorda com esse tipo de educação que nos é imposta hoje, então deve ter percebido, assim como eu e mais alguns que fogem desse sistema de pensamento encaixotado, que nos libertamos desse modelo. Alguns por conta própria, outros tiveram um ou outro professores que ajudaram, mas nos rebelamos, de certa forma. Para a esquerda ou para a direita, costumamos ler e compreender o que nos é repassado antes de emitirmos uma opinião pessoal. Construímos nosso próprio conhecimento.

Logo, não vejo como botar toda a culpa em João. Na verdade, esse sistema é uma corrente do mal (em analogia ao filme Corrente do Bem): se cada um professor formado puder influenciar outros 10 alunos em uma sala de 30, o aproveitamento será gigantesco e, em algumas décadas, teremos travestido aquilo que chamamos de "educação e criticidade" por "desconhecimento e passividade". Parando para analisar… Não foi isso que aconteceu, afinal, com o nosso ensino? Passamos a dar mais importância para clichês e demagogias ouvidos todos os dias em salas de aula pelo país do que para o conhecimento construtivo e questionador, o nosso motor científico. Estamos sendo ensinados a escrever e dizer aquilo que o professor quer ouvir, não aquilo que refletimos, indagamos, pesquisamos.

Essa, meus senhores, é a decadência do ensino brasileiro em todos os seus níveis.

3) Toma aqui a minha última redação, ENEM!

O que esse ano tem de tão especial assim, então, para tamanha festa da esquerda? Bem, eu diria que nada: todo ano tem esse mesmo tipo de questão nessa prova ridícula (sim, ridícula de fácil). Mas parece que, nesse ano, a quantidade de questões assim dobrou e, alimentado pelo debate político em redes sociais que perdura desde o fim das eleições presidenciais do ano passado, acabou tornando-se algo viral. Parece que provocar o outro lado com algo que deveria ser motivo de vergonha tornou-se louvável para os dois lados. E, hoje, soubemos por fim a proposta de redação do ENEM: "A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira."

Abaixo, o meu bônus: darei um exemplo de redação que possivelmente tiraria zero por conta da opinião defendida, apesar de bem embasada e com fontes. Segue:

"A PERSISTÊNCIA DA VIOLÊNCIA NA SOCIEDADE BRASILEIRA

A violência em nosso país é assustadora. Com uma taxa gigantesca de homicídios, seria desonestidade intelectual citar as mulheres como um gênero privilegiado a sofrer essa violência, ainda mais que, com cerca de 46 homicídios a mais a cada 100 mil hab., o gênero masculino é aquele que mais sofre com a violência no país. Mas, claro, não podemos reduzir a violência apenas aos homicídios. Ignorando o que aprendemos sobre igualdade de gênero e assumindo que a mulher deve ser mais protegida da violência do que o homem, voltemos então os olhos para as taxas de violência doméstica.

A pesquisadora Simone Alvim afirma em uma entrevista que, aparentemente, homens e mulheres sofrem o mesmo nível de violência doméstica mas que, por conta de seu posicionamento social e do julgamento realizado pela sociedade, homens não conseguem denunciar a parceira — ainda que a lei Maria da Penha sirva para ambos. Sendo assim, configura-se então aquilo que ela chama de "daltonismo de gênero": prestamos mais socorro às mulheres do que aos homens, ainda que a situação de ambos seja coincidente. Fica até mesmo difícil a coleta de dados pela falta de estudos sobre o caso. O objetivo da argumentação presente não é desmerecer a violência que sofre a mulher e sim demonstrar como não é uma violência especial: para resolvê-la, precisamos resolver a violência em um contexto geral.

A começar, são necessários mais investimentos em segurança pública como um todo: câmeras nas ruas podem, por exemplo, ajudar a polícia em casos de assaltos, estupros e homicídios. Também é importante citar que a diferenciação penal de crimes contra gêneros em nada ajuda: ganhar uma pena maior ou menor dependendo do gênero contra o qual o crime é praticado não inibe o criminoso e não reduz a incidência do ato. Por fim, para concordar com a igualdade de gêneros proposta pelo movimento feminista mas não tão bem defendida assim, é vital que paremos de tratar a violência cometida contra a mulher como algo mais especial do que a violência que sofremos todos os dias, independente de nossos gêneros, seja nas escolas, no trabalho ou no caminho até a residência. Toda violência em si é condenável e cabe a nós, enquanto seres humanos e cidadãos, cobrar das autoridades de nosso país uma atitude mais firme com esse tópico tão em voga em nossa sociedade."

E era isso. Obrigado pela paciência em ler até aqui. Um abraço e até a próxima!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Não, Juan Arias. Dilma não se transformou

Dando-se tempo ao tempo: cadê as vantagens do porto de Mariel?

O perigo do Brasil se tornar cada vez mais o paraíso de George Soros