Não, Juan Arias. Dilma não se transformou

(Fonte da imagem: VEJA)
Hoje, uma coluna escrita por Juan Arias e publicada no El País me chamou a atenção, sobre uma possível "transformação" no estilo de governar de Dilma Rousseff, cujo início de segundo mandato está sendo marcado com a pior crise econômica da história do Plano Real, índices de popularidade baixíssimos e um quase isolamento em relação à base aliada. No texto, Arias comenta sobre a decisão de Dilma em manter Joaquim Levy, atual (ou seria quase ex?) Ministro da Fazenda e que tem a difícil missão de se livrar da "herança maldita" que a presidente entregou para si própria ao ser reeleita no ano passado. Alguns trechos em particular irei transcrevê-los (em azul), e os responderei em seguida:

"Pode também ter sido a confissão de uma inesperada transformação. O certo é que, acossada por todos os lados, com uma popularidade pífia, falou claramente, sem rodeios, algo que não costuma ser seu forte. “Quando digo não, não há outra opção, é não e acabou”, disse aos jornalistas ao afirmar que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, não só continua em seu governo como confiou a ele a política econômica do mesmo. “Se ele continua é porque nós concordamos com essa política”."

Não vejo exatamente uma "transformação", e sim na recuperação de uma velha imagem, a da "gerentona durona" que supostamente (mas muito supostamente) existiu em seu primeiro mandato. Deixando a generosidade de lado, daria até para dizer que se trata de mais uma de inúmeras bravatas que ela disparou desde quando era Ministra da Casa Civil no Governo Lula. Portanto, não se trata de transformação nenhuma, e sim de algo que ela sempre teve ou é.

"Pela primeira vez e com todas as letras, respondendo a uma declaração do presidente do PT, Rui Falcão, que pedia uma mudança da política econômica e indiretamente a saída de Levy, Dilma respondeu, quase como um desafio, que essa não será sua política. “O presidente do PT pode ter a opinião que quiser. Sua opinião não é a do Governo”. E explica que respeita suas opiniões, porque o PT “integra a base aliada” e é o partido mais importante da mesma, mas acrescenta algo de grande importância neste momento em que um de seus pontos fracos é a desagregação da base aliada que a levou ao poder. O fato do PT ser o partido mais importante da coalizão, diz Dilma, “não significa que sua opinião seja a do Governo”. Reivindica assim a força dos outros aliados."

É para lá de sabido que Joaquim Levy é um "corpo estranho" no segundo governo Dilma, que o PT queria um clone do Guido Mantega para assumir o lugar do original e que isso só não aconteceu posto que até para parasitar um país economicamente não se pode matar o hospedeiro. Trata-se, portanto, de uma questão de conveniência, não de princípios (até mesmo a escolha da dupla Palocci-Meirelles para a condução da economia no primeiro governo Lula foi assim). Outro ponto destacado deste trecho apenas reforça a ideia de que os petistas ainda não perceberam que seja no share de votos, seja na composição da base aliada, eles não governam - e nem podem governar - como se fosse um partido hegemônico. Por se tratar de um de vários partidos que integram a coalizão de governo, deve se ajustar e ceder para poder ter o mínimo de governabilidade. É assim que funciona em qualquer coalizão, em qualquer parte do mundo.

Quanto à reivindicação de força por parte dos outros aliados, resta saber se o seu discurso em defesa (?) de Levy irá comovê-los. Tendo a acreditar que não.

"Se o PT e os movimentos sociais até já se manifestaram nas ruas contra a política de ajustes fiscais e contra qualquer aumento de impostos, que é o ponto principal da política econômica defendida por Levy, Dilma foi de novo taxativa: defendeu a volta da odiada CPMF, o imposto sobre as transações bancárias como algo fundamental: “acreditamos que a CPMF é crucial para que o país volte a crescer”, um mantra que até o momento somente Levy havia dito.

Se existe uma notícia que esteve em todos os jornais na semana passada foi o fato de Lula pedir à Presidenta diretamente a saída de Levy do governo. Também aqui, Dilma foi taxativa, dura: “Nunca me pediu nada”. E acrescentou: Quando o Presidente Lula quer alguma coisa não tem o menor constrangimento em fazê-lo”."

Chego a este ponto para reiterar alguns pontos, abordados tanto por mim como por meus colegas de bancada: em primeiro lugar, que ajuste? Boa parte dele depende da boa vontade do Congresso, e que não está tão boa assim. Segundo, de onde Dilma e Levy tiraram a ideia de que criar um (mais um, não custa ressaltar) novo imposto, bem como aumentar a já alta carga tributária (por sinal o nosso país é o de pior retorno desta, e pela quinta vez), seja algo "crucial" para a retomada do crescimento do país? Como disse há quase oito meses, a opção de austeridade (entre quatro possíveis) escolhida no segundo governo Dilma foi cortar os gastos e aumentar os impostos, que é a opção que mais amplifica uma recessão em curto prazo. Se bem que caminha para um modelo ainda mais camboto, que é manter os gastos quase inalterados e aumentar os impostos. Por fim, a última fala de Dilma, praticamente um ato falho, deixa transparecer o que sempre aconteceu em seu governo: o limite de suas bravatas termina no bel-prazer lulista.

"E por último, a Presidenta até chegou a fazer na Suécia um mea culpa sobre um dos pontos importantes da fracassada política econômica de seu primeiro mandato, que agora decidiu corrigir. Uma confissão que até sábado ela se negava a fazer. A Presidenta admitiu que um dos fatores que levaram o país a esse momento de crise econômica foi “a diminuição de tributações para setores da economia”, que ela havia concedido generosamente em seu primeiro mandato.

O leitor poderá concluir que, das graves e importantes afirmações feitas por Dilma na Suécia, é possível dizer que ela agora admite que decidiu assumir a responsabilidade de exercer em seu segundo mandato uma política econômica de cunho mais liberal, de ajuste fiscal baseado mais no crescimento do que no consumo, que se parece mais com as propostas feitas pela oposição durante a última campanha eleitoral e que é o verdadeiro programa do banqueiro Levy."

Agora chegamos ao ponto mais desastroso da coluna de Arias. Para começo de conversa, no final de agosto a Dilma já havia feito um mea culpa em relação à crise econômica, portanto o discurso dela quanto a isso não é bem uma novidade. Mas nada consegue superar a provável conclusão de que Dilma quer assumir a responsabilidade de exercer uma "política econômica de cunho mais liberal". É sério que, depois dos seguidos aumentos de impostos, da quase incapacidade em cortar gastos e de conseguir um simples superávit primário (já admitiram peça orçamentária com déficit em 2016, inclusive um dos motivos para o rebaixamento da S&P, e estão fazendo o mesmo para este ano), além da óbvia incompetência em realizar as tão conhecidas reformas estruturais, a conclusão que Arias espera de seus leitores é que Dilma quer virar liberal? Oh really?

Não, Juan Arias. A Dilma Rousseff do segundo mandato é a mesma do primeiro. As crises que o Brasil enfrenta apenas deixou isso mais claro.

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